terça-feira, 23 de agosto de 2016

PERDIDOS NA FINITUDE DA VIDA

No último fim de semana encontrei ali, na Escola Cearense de Emergências Médicas, o meu querido amigo Adailton Braga. Funcionávamos, ele e eu, como instrutores em mais um curso do Avanced Trauma Life Support (ATLS). Conversávamos à hora do intervalo quando o Adailton me sai com a frase lapidar e oportuna:
              –“É muita informação e pouco conhecimento”...
             (Os leitores saibam que adoro uma boa frase.)
            De fato, se sairmos a refletir, é muita informação e pouco, muito pouco, pouquíssimo conhecimento. Dou exemplo: – o próprio ATLS. Percebo que devo uma explicação aos meus poucos leitores, e que devo provê-la antes de seguir em frente: afinal, o que é esse tal de ATLS? É muito simples.
            Comecei cedo, ainda discípulo de Esculápio, a frequentar o ambiente da Emergência de hospitais públicos. Foi quando me chega o meu amigo Britto querendo saber o que fazemos primeiro ao receber e atender um doente que chega procurando socorro. Devo confessar – eu não sabia a resposta. Anos depois aprendi.
           Eis que o ATLS é um curso que ensina justamente aos médicos o que devem fazer primeiro, as prioridades, quando recebem, na Emergência, uma pessoa vítima de traumatismo. As prioridades são, em ordem de sequência, as correções dos distúrbios fisiológicos que matam mais rapidamente o indivíduo. Por exemplo, de todos os distúrbios fisiológicos, o que leva mais rapidamente à morte é a anóxia, a falta de oxigênio, por obstrução da via aérea. Consequentemente, os médicos alunos do ATLS aprendem a reconhecer esse distúrbio e a tratá-lo como prioridade número 1. A sequência de prioridades no atendimento do ATLS é hoje também utilizada noutros cenários da Emergência Médica que não o trauma. Seu valor é inquestionável, de modo que não há controvérsias quanto a isso.
           Voltemos à frase do Adailton. Concordávamos que os espessos tratados da literatura médica se assemelham a roupas encharcadas. Molhadas, pesam 3 ou 4 vezes seu peso normal. Assim também são nossos tratados – se lhes espremermos, deles sairá muita informação e pouco conhecimento. Isso significa que há muitíssimo mais pesquisa e estudos em andamento do que conhecimento sedimentado, pétreo, inquestionável, a verdade absoluta sobre a saúde e a doença. Os tratados seriam bem menos volumosos se trouxessem apenas e tão-somente o que de fato se sabe e o que de fato se deve fazer em tal ou qual situação. Sua espessura e seu peso deve-se à inclusão, em suas páginas, daquilo que é controverso, daquilo sobre o que não se chegou a um consenso.
            Pois eis o porquê de minha enorme simpatia pelo nosso ATLS. (Digo nosso, mas devo confessar que o curso pertence ao Comitê de Trauma do Colégio Americano de Cirurgiões.) É pouco provável que se mudem suas prioridades nos próximos anos.
Dirá alguém que é assim mesmo, que o conhecimento não tem limites, que a ciência tem ainda muito o que descobrir, que estamos apenas começando, e por aí vai. Ora, toda essa retórica é um tédio só porquanto vem à boca de cena apenas para anunciar o óbvio. Vejam que não saiam por aí a dizer que estou condenando o óbvio. Pelo contrário, sou um ardoroso e irascível defensor do óbvio, tanto que já lhe dediquei temerosos comentários por sua morte iminente (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2013/01/a-morte-do-obvio.html e http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2013/08/a-morte-definitiva-do-obvio.html). Aqui falo do óbvio vazio e que nada acrescenta, diferente daquele que se quer assassinar. Aqui, o óbvio se assemelha ao conteúdo descartável dos espessos tratados médicos.
              A grande e irrefutável verdade é uma, e somente uma: – de nada sabemos. Sim, somos uns ignorantes de marca maior. Pouco mais de um século de avanços científicos não seria capaz de desvendar aquilo que os homens não poderiam descobrir mesmo que vivessem mil anos. A nós só resta enchermos as páginas de nossos livros com linguiça e vento, o que temos feito com maestria nos últimos cem anos.
             Vejam que não estou a afirmar que em nada avançamos. Não há dúvidas de que o fizemos. Mas diante da escuridão de nosso desconhecimento, nossa luz científica mais se assemelha a uma vela cuja chama bruxuleante não nos permite enxergar um palmo à frente do nariz – eis a acachapante verdade. (Acabo de fazer uso de uma metáfora que serviu a um dos livros de Carl Sagan, “O Mundo Assombrado Pelos Demônios: a ciência vista como uma vela no escuro”, um ateu desavergonhado que, apesar da assunção de sua ignorância, presumiu que seria a ciência a única esperança da espécie humana.)
Concluo reforçando tanto quanto possível a frase do Adailton – temos uma infindável e ainda crescente quantidade de informação, e quase nenhum conhecimento. Nossas academias estão repletas de empáfia e de prêmios inúteis, enquanto seguimos tolos e perdidos na finitude da vida.