sábado, 27 de agosto de 2016

A CRUEL E FRIA REALIDADE DOS FATOS

          Os leitores hão de concordar - em tudo que se diz ou se escreve há mais do que as palavras. Sim, o discurso, qualquer discurso, está repleto de mensagens subliminares. Há nele o óbvio e o velado; há nele a mensagem que se quer passar e a mensagem que não se quer divulgar, como se fosse essa um indesejável porém inelutável para-efeito daquela. 
          Pois essa fraqueza da comunicação ficou absurdamente visível na postagem, na rede social, feita por um cidadão a propósito do assassinato de uma mãe ocorrido, acho que em Porto Alegre, defronte ao colégio de seu filho. Imaginem os senhores uma mãe que vai buscar o filho à porta da escola. A cena é corriqueira, ocorre todos os dias à hora do fim das aulas em milhões de escolas brasileiras. A mãe vai de carro ou a pé e se posta à frente do portão esperando vir o filho, um menor, que já, já vem correndo abraçá-la e beijá-la, anelando, ambos, o reencontro. No caminho de volta pra casa ele fala dos coleguinhas, do que ensinou o professor, das peraltices no recreio, enfim, de sua vida em sua segunda casa, a escola onde estuda. 
          Naquele dia, um dia como outro qualquer, está a mãe esperando o garoto quando é abordada por alguns homens que lhe querem tomar os pertences e o que quer que ela carregue de valor. Por alguma razão que não ficou clara, a cena acaba com o cadáver da mãe estendido à via pública e o filho sabe-se lá onde. O crime escandalizou a todos. Não deitemos à pena do porquê de o crime ter causado essa comoção geral e inexorável. Diria apenas que, se tal não ocorresse, havíamos de ter-nos tornado seres insensíveis, seres sem compaixão, seres empedernidos... como as rochas e o vento. Felizmente, contudo, houve lágrimas e horror, estarrecimento, indignação. 
          Eis que, então, diante da indignação geral vem de lá este senhor, um tal de Antonio Donato – um sujeito bem apessoado, usuário de uma barba até bem aparada e de um par de óculos de armação grossa e negra –, e escreve na rede social o seguinte: "Gostaria de propor duas questões à burguesia que enlouqueceu depois que a mulher foi morta na frente do colégio particular... a) e o genocídio de jovens negros na periferia que já vem ocorrendo há décadas? Por que isso nunca incomodou vocês?, b) Será que a vítima é realmente vítima? Se tinha filho numa escola particular, ela é parte da classe que perpetua a exclusão social e, portanto, era culpada pela situação que temos. Aqueles que vocês consideram malfeitores, os assaltantes, estavam, isto sim, fazendo uma desapropriação revolucionária, tomando os bens da burguesia que os explora, e que pertencem por direito aos proletários." 
          Ia propor um minuto de silêncio após a transcrição desse discurso absolutamente cretino, mas lembrei que não estou discursando para qualquer plateia. Lembrei-me de que estou escrevendo um texto e que um minuto de silêncio não se aplica a essa situação. Poderia, é verdade, pedir encarecidamente ao leitor que suspendesse por um minuto a leitura e suspirasse, olhando para o céu ou para o teto de casa, suspirasse. Uma excelente alternativa seria interromper a leitura e sair ali à varanda ou ao jardim – somos um povo sem jardins – e, suspirando profundamente, tentasse controlar a avalanche de indignação e perplexidade que lhe vai no íntimo. 
          Este senhor, cujo coração parou de bater faz tempo, refere-se à morta simplesmente como "a mulher que foi morta". É o primeiro sinal – a tal mensagem que se quer esconder, mas impossível é fazê-lo – de seu desprezo pelo ser humano. Também é nítido o alinhamento da fala deste cidadão ao discurso proferido publicamente e debochadamente pela senhora Marilena Chauí, quando disse que odiava a classe média. 
          O segundo sinal de desprezo é pela vítima, a tentativa torpe e tão criminosa quanto a atitude dos facínoras que a assassinaram, de desqualificá-la, responsabilizando-a pelo crime que a matou, como se ela fizesse parte de suposto complô que "explora" os assaltantes que a mataram e que por isso devesse ser executada. 
          A ideia marxista de que o bandido está justificado por ser um excluído social e ser o seu ato um ato revolucionário só tem paralelo nas gangues da esquerda dos anos '50, '60 e '70 que assaltavam bancos, carros fortes e delegacias para roubar valores e cédulas de identidade em branco; que assassinavam embaixadores, militares e civis em atentados terroristas planejados em "aparelhos", em sua guerra declarada ao ocidente patrocinada pela União Soviética e Cuba em sua pretensão de exportar o comunismo a todos os confins do planeta. O marginal era voluntariamente marginal por ter tido seu cérebro lavado e enxaguado nos campos de treinamento cubanos, aliciando aqui novos guerreiros a fim de promover a "desapropriação revolucionária". Como esperar que alguém que odeia o ser humano sinta algum tipo de piedade e misericórdia ao ver ato de violência tão covarde e vil? 
          O ódio de Marilena Chauí é o ódio que o comunismo ensina a seus seguidores a nutrir pelo ser humano. Dirá alguém que não, que o comunista ama o ser humano desfavorecido, ama o ser humano vítima das injustiças sociais e explorado por uma burguesia egoísta e superficial. Ora, basta vermos a história do que foi o comunismo para os povos que dele foram vítimas para percebermos a falácia que é sua retórica. Assassinatos em massa através de campos de extermínio – os nazistas foram seus alunos –, expropriações de populações inteiras, perseguições com julgamentos e execuções sumárias, perda da liberdade de pensamento, de expressão e religiosa, extermínio de classes sociais inteiras, destruição do patrimônio histórico e tantas outras atrocidades foram cometidas em nome da "revolução" e do "partido". Mesmo aqueles que com eles colaboraram ao início acabaram, muitos deles, sendo executados em "expurgos" periódicos e planejados de modo que, o discurso que ilude serve justamente a apontar suas próximas vítimas: – os excluídos sociais. Homossexuais, prostitutas, mutilados, incapazes, negros, enfim, todos os seres humanos a quem pretendem defender serão, tão logo ascendam ao poder absoluto, sumariamente descartados. Esta não é uma suposição nem uma acusação – é a cartilha comunista cuja história não deixa de revelar. 
          O tal Antonio Donato encerra seu comentário na rede social exortando a que todos votem na esquerda na próxima eleição para a prefeitura porque "somente a esquerda pode diminuir a violência; porque somente a esquerda sanará as injustiças que pessoas como esses jovens marginalizados sofrem". Vejam o terror que se nos apresenta à leitura de tal discurso. Os criminosos são, segundo esse preponderante marxista, as grandes vítimas desse vergonhoso episódio. São eles a quem devemos defender e em quem devemos pensar na hora de votar. A senhora morta, a mãe de um filho que ainda vai à escola e precisa que ela vá buscá-lo à saída, é uma "exploradora", é uma "burguesa" sem importância e descartável na cartilha comunista, é uma expropriadora dos bens de uma classe social desfavorecida e marginalizada. 
          Só a esquerda pode diminuir a violência? Em 13 anos de esquerda no poder a violência só cresceu, a níveis intoleráveis cresceu. Somente a esquerda sanará as injustiças que vitimam os jovens marginalizados? Em 13 anos no poder a esquerda brasileira produziu mais e mais corrupção, desemprego, miséria, pobreza, ignorância e dor às famílias, indistintamente de sua classe social. 
          Senhor Antonio Donato, a esquerda brasileira perdeu a chance de mostrar que tudo o que o comunismo fez de errado no mundo no passado foi um engano, um grande é terrível engano... As mensagens subentendidas falam sempre mais alto que o discurso porquanto são elas que estão de acordo com a cruel e fria realidade dos fatos.