quarta-feira, 24 de agosto de 2016

UM TERREMOTO PARA NÓS?

            Foi o senhor Luiz Brignoni, antigo paciente do ambulatório, quem chegou anunciando o terremoto italiano. Falou em 38 mortos e uma centena de desaparecidos. Ele, uruguaio que é, exclamava:
           –“Algo horrible! Horrible!”
          Somente depois de dois dedos de prosa sobre o triste evento natural ele veio confessar-me os males que o afligem...
           Chegando ao condomínio dou de cara com o Mateus, o italiano mais brasileiro que conheço, emigrado há muito da Lombardia. Ao me ver, chamou meu nome como a me anunciar para um discurso, naquele modo italiano bem pouco discreto e bastante efusivo:
          –“Ferrnánndo”!...
          A julgar pelo sorriso aberto, a tragédia não parecia lhe afetar nem um pouco. Não fosse eu a trazer à baila o assunto, nosso fortuito encontro se resumiria a seu brado retumbante e ao abraço que trocamos:
          –“Soubeste do tremor em Itália”?, indaguei.
          Ele serenou o semblante demonstrando um leve pesar e disse:
          –“Sim... em Peruggia, na Umbria”...
          ...e saiu a anunciar o número de mortos e desaparecidos até então. Dali entramos no elevador. (Moramos no mesmo andar.)
          Pouco antes de a porta se abrir ele bradou, com aquele vozeirão italianado:
          –“Bem podia ter sido em Nápoles! aquela vergonha, aquele lugar vergonhoso...”!
           Não pude deixar de gargalhar diante daquela revolta nativa por certa região de sua terra, como aqui também fazemos a propósito de um ou outro lugar do país. Saí a lembrar-me de “Gomorra”, do italiano Roberto Saviano – “a história real de um jornalista infiltrado na violenta máfia napolitana”. Concluí que ele há de ter lá suas razões. 
             E nós? Estaríamos necessitados de um desses?