segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

UM BREVE E DESINTERESSADO TRATADO SOBRE O INTERESSE

          Quisera eu ter a capacidade intelectual para escrever um tratado sobre interesse. Esperem um pouco. É possível que não me tenha feito entender. Falo do interesse em geral, do interesse em tese.  O caso é que o meu amado amigo Gaudêncio porta uma espécie de neurose sobre esse... o que é mesmo o interesse? É um substantivo. Mas, o que vem a ser ele? É um sentimento? É um desejo? É uma vontade? Que diachos é o "interesse"? Pois, repito, o Gaudêncio é um neurótico por interesse. Ou será que o amigo está a querer iniciar a inusitada propaganda "Viva o desinteresse!"? Vou tentar explicar. É o seguinte. O amigo não se conforma que as pessoas tenham interesses. E pior. Se o interesse partir de uma pessoa de posses ou poderosa, então, o mundo vem abaixo em forma de mais neurose. Mas vejam. O jornalista tem interesses, o advogado idem, o ginecologista também, e o coveiro há de ter igualmente os seus. Padre tem interesses? Seguramente. E o Papa? Sabe-se lá, mas não arriscaria dizer que não. Mesmo o Sumo sacerdote deseja algo, o que o faz possivelmente persona non grata aos olhos do Gaudêncio. (Estou começando a achar que o interesse é, sem dúvida, um desejo.) Então, o amigo é portador de uma neurose sobre esse tão alastrado desejo. Os leitores leigos na ciência que estuda o comportamento e a mente fiquem sabendo que a neurose é assim: — o sujeito sabe que dois mais dois são quatro, mas não se conforma. Percebem? Pois bem.
          Agora vejamos o seguinte. Se o interesse é um desejo e todos têm desejos, por quê?, qual a razão de meu amigo? Lembremos que até os animais têm desejos. São desejos que brotam a partir do que se conhece como instintos, mas nem por isso são menos desejos no sentido de pretender satisfazer alguma necessidade. Eu disse que o amigo odeia que os de posses tenham interesses. Assim, para ele pobre pode ter interesses. É legítimo. É apropriado. Poderosos e ricos, não. 
          (Estou tentando pegar "na veia", mas o tema é escorregadio.)
          Partirei de exemplos proporcionados por nossas últimas conversas. Outro dia entramos a falar que o país está passando pela pior crise de sua história. Os historiadores e economistas dizem que tal só houve à época do Floriano, ao fim do século XIX. Até aí nenhuma novidade. Foi quando se disse também que o país está melhorando, que a crise está amainando, que há sinais inequívocos de melhora do ambiente econômico. E que isso se deve ao fato de o governo estar empenhado em fazer as reformas necessárias para que tal aconteça. Ainda mais. A autoridade monetária está competentemente lidando com a inflação, com a taxa de juros e com o câmbio sem interferências externas, sem ingerência política. A melhora do ambiente sempre antecede a melhora do cenário real, visto que é natural que haja um lapso de tempo entre uma coisa e outra, período em que cresce a confiança das pessoas na materialização desse cenário. Pois o amigo, que estava quieto, saiu das sombras para dizer — quase ouço-lhe os gritos — que está tudo muito ruim e que não está havendo nenhuma melhora. E mais: — não há perspectiva para isso. E isso era o que diziam os jornalistas e blogueiros da Folha, do Estadão e do Valor. (Senti um alívio por ele não ter citado os jornalistas locais. Se o fizesse, certamente eu seria acometido de espasmos e furores digestórios.) Por fim, argumentou que nós, os que temos a visão da inflexão que está inequivocamente a ocorrer, estamos a beber em fontes duvidosas cujos INTERESSES seriam os mais escusos possíveis. E mais: — que não há ninguém sem interesses. (As afirmações do amigo eram de uma espessa e inegável obviedade.) Presumo que se referisse também aos jornalistas e blogueiros que lê. Eis aí o contexto.
          Contei o milagre é denunciei o nome do santo. Volto ao interesse puro e simples. Repito que a ubiquidade do interesse é tão primorosamente evidente que já sinto um crescente desconforto em falar sobre isso. Afinal, ao falar sobre o óbvio beiramos a nossa própria neurose. Temo iniciar o texto gozando de perfeita saúde mental e acabar por perdê-la ao longo de seu desenvolvimento. Paciência. Escrever é atividade de risco. 
          Ora, desde quando o interesse move as relações humanas? Presumo que a resposta seja desde sempre. Vou além e pergunto: — há relações onde o interesse não exista? Respondo: — não há relação onde o interesse não esteja presente. Há, além disso, a não-relação de interesse. Que diachos seria isso? Bem, a matéria do jornalista que leio terá algum interesse ao atingir o leitor, ainda que esse homem da imprensa e eu não tenhamos sido apresentados. Sendo assim, por que o meu amigo tem tantas reservas pelos interesses? Pensará ele que o interesse é um mal em si? Tudo indica que sim. O que o amigo não consegue, talvez, é distinguir os tipos de interesse. Assim, de minha parte sugiro a existência de dois tipos de interesse: o legítimo e o ilegítimo. Se alguém me disser que há mais algum, que me ajude a sair dessa enrascada. Ou, melhor ainda: — peço encarecidamente ao amigo Gaudêncio que me ensine quais seriam os outros tipos. 
          Vou ao pai dos burros e lá leio sobre "legítimo": fundado no direito, na razão ou na justiça; genuíno, verdadeiro; natural, justo, justificado; que tem caráter ou força de lei. Assim, as relações onde impera o ilegítimo interesse estão fadadas a qualquer resultado que não possa ser classificado como bom. Imaginemos o bandido, o assaltante. Para nós brasileiros é fácil imaginar. Vamos mais além. Imaginemos também o marginal de colarinho branco. Qual o interesse do bandido, do marginal? Resposta: o bandido quer ganhar sem trabalhar, tirando à força e usando de violência o que pertence a outros. Seu interesse não está fundado no direito, não é natural, não é justo. (É inevitável aqui dizer o óbvio, repito. Sim, porque é muito óbvio que o resultado da soma dois mais dois seja quatro...) Por outro lado, o bandido existe, sempre existiu. Justamente por sua existência é que se erigiu um corpo de leis. (Paro por aqui senão sairei a falar de direito natural e direito adquirido, e o amigo Gaudêncio sabe bem de tudo isso por ter um diploma de causídico.) 
          Vejam o jornalista a serviço do que quer que seja. Da mesma forma, seu interesse será ou não legítimo. Se sai a defender o interesse de criminosos, as penas brandas para bandidos e o desarmamento da população, estará claramente a serviço da vulnerabilidade da sociedade. Sua intenção é, usando de falsa retórica, convencer a todos de que a causa da violência é o fato de o cidadão de bem possuir uma arma, ainda que nenhum dado objetivo e claro apoie tal argumento. Reportando-me agora ao nosso diálogo sobre se está ou não o governo tomando as medidas necessárias a que se crie expectativa positiva para a economia do país já no curto prazo, os jornalistas e blogueiros que o amigo lê são TODOS céticos quanto a isso. Os tais jornalistas escrevem em grandes jornais, são cobras criadas da imprensa e por isso, somente por isso, são críveis? Ora, os dados irrefutáveis, sobre os quais obviamente não comentam em seus artigos, mostram o contrário. Presume-se que esses tais estão a defender interesses, assim como estão os que estão a divulgar os tais dados em outras fontes que o amigo não lê. Cabe então a pergunta: — a serviço de quem está esse pessoal tão entendido e tão celebrado? Melhor dizendo, que interesses essa súcia pretende defender? Seria somente a defesa de interesses ou estão a destilar sua ignorância pura e simples sobre assuntos de macroeconomia? Ignoram esses trogloditas da economia que expectativa faz preço? Que o reapreçamento começa a se fazer no exato momento de uma mudança na expectativa, seja para melhor, seja para pior? Tudo indica que sim. Mas a melhor pergunta é: — são legítimos os interesses desse povo? É para o bem do leitor ou quer induzi-lo ao erro que esse povo escreve? 
          Diz o amigo que não lemos tudo, quando é justamente o contrário. Nós que vemos os dois lados da moeda porquanto também lemos o que dizem esses paspalhões, temos bem constatado quem está com a razão. O pior de tudo é que informações se prestam sempre a alguma utilidade. Se ela pode lhe ser útil e você a lança ao lixo quando ouve quem ali está para induzi-lo ao erro, perderá oportunidades. E aí não há perdão. No mundo real, na dura realidade da vida três coisas jamais retornam: a pedra lançada, a palavra emitida e a oportunidade perdida. É melhor comprar barato do que caro.