sexta-feira, 21 de julho de 2017

A PUTA QUE ELE LOUCAMENTE AMAVA

                 Após tantas desfeitas, aguentou ainda mais desfeitas. Direi sem rodeios – aguentou chifres até não mais poder. O diabo é que podia, sempre podia. No início acreditava piamente. Poria a mão no fogo por ela. Hoje, depois de sabe-se lá quantos chifres, por ela põe no fogo a cabeça. Vá entender a mente humana.
                Havia, segundo ela, uma justificativa, uma desculpa. Não seria propriamente uma desculpa esfarrapada, dessas que se dão de última hora apenas para tirar o corpo fora. Não era, não parecia ser. Confesso com toda pureza d'alma – era uma senhora justificativa para os chifres, para mais chifres, e para quanto mais deles viessem. Aconteceu o seguinte.
             Viviam os dois num cafofo que beirava o padrão da miséria, dois aposentos e um reservado onde se banhavam e se aliviavam. Na caixa da descarga ela desenhou, com batom vermelho, um coração flechado e embaixo escrito “fulana e fulano”. A mobília se constituía numa cama de casal, uma cadeira e um móvel largo com gavetas amplas. No outro aposento, a cozinha, a geladeira e um fogão. Não sei se havia armários sobre a pia.
            Um dia uma amiga lhe bate o telefone. Estava vindo do interior, da cidade onde ambas nasceram, para trabalhar. Precisava de um lugar para ficar. Não tinha dinheiro. Uma pousada por alguns dias era tudo o que precisava enquanto se arranjava.
            Foi motivo de alegria receber em casa a amiga do tempo das fraldas. Dormiria numa rede que armariam sobre a cama do casal. Ele não fez objeção a essa hóspede inesperada. Seria bom ter mais alguém em casa. Mudaria a rotina. Todos sabem, rotina é um negócio chato.
            A verdade é que ele nutria más intenções para com a pequena. Era jeitosinha, engraçadinha, charmosinha... Tinha o rosto bonitinho, os cabelos lisos e escorridos. Ter diariamente essa visão não seria uma má ideia, eis o que pensava.
            Chegada a hora de dormir, ia o casal para a cama e a amiga para a rede. Ele, que adorava o perigo extremo, que desde a infância adorava assediar a secretária do lar, fosse ela quem fosse, perdoando apenas as mais velhas enquanto seus pais e irmãos dormiam, entrava, nesse instante, em estado de excitação que beirava o incontrolável. Cada vez era um tormento maior, e já não sabia por quanto tempo seria capaz de se conter.
            Até que, certa noite, atormentado pelo desejo, pelo perigo de ver saciado seu apetite, percebeu que a companheira dormia profundamente, tão profundamente que sibilava em suaves estertores, um ronco macio e pleno, desses que denotam estar a mente ausente e bem longe da realidade. Ergueu lentamente o tronco e sentou-se ao leito, de modo que pudesse espreitar o interior da rede onde dormia a apetitosa hóspede.
            A janela entreaberta se deixava transpassar por raios de luzes suaves e esmaecidos pela debilidade e distância de sua fonte, mas que provocantemente iluminavam o corpo seminu da que lá jazia. Parecia que retirara de cima de si, propositalmente, o lençol que se amarfanhava ao lado de seu corpo, longe da utilidade de encobrir, de proteger do frio, de resguardar o mínimo de pudor, deixando à penumbra leitosa a visão que o excitou ainda mais, a ponto de enlouquecê-lo. Vagarosamente arrastou-se para mais perto do que contemplava e, inescrupulosamente, saiu a palpá-la nas coxas, nas partes pudendas, no baixo ventre...
                Como não houvesse sido rejeitado, durante quase uma semana espreitou o sono da companheira a fim de se entregar à aventura do assédio à outra que parecia que dormia, mas que, notara, apreciava deveras aquela invasão, aquele ímpeto descarado e destemido. Percebera que o corpo da jovem se eriçava e que suas secreções abundavam à investida. Nada daquilo seria possível sem o mínimo estado de alerta.
                Certa noite, contudo, foi veementemente rejeitado e, em meio a sussurros de cínica indignação a fim de não despertar a outra, foi definitivamente repelido. Que nunca mais se atrevesse. Que nunca mais dela se aproximasse, mesmo durante o dia, sob pena de dar ciência à amiga do que ele tentara fazer aquela noite. No dia seguinte procuraria um lugar para ficar ou iria embora, de volta ao interior. 
             Dias depois as duas tiveram uma entrevista em que tudo veio à tona. Foi desde então que ele passou a colecionar chifres. Eis aí a justificativa, uma senhora e mais que justificada justificativa.
                Como não houvesse solução para tantas e tantas galhas, vez ou outra ele também pulava a cerca. Cada vez que ela lhe fazia uma nova desfeita, ele sofria como se fosse a primeira vez. Ela, por sua vez, não tomava as dele como desfeitas. Não dava a mínima. Só queria dele uns trocados de vez em quando. Era quando saíam para uns drinques. Já nem coabitavam. Ela se tornou para ele a puta que loucamente amava.