quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O mais abençoado dos seres


"Mulher, mulher
Na escola em que você foi ensinada
Jamais tirei um dez
Sou forte mas não chego aos seus pés”


Uma amiga escreveu-me para me comunicar uma constatação – eu não devo gostar de mulheres. E justificou-se: os meus textos, segundo ela, sempre depreciam a figura da mulher. O que ela evidentemente não percebeu é que, baseando-se no que escrevo, também não enalteço em nada a figura masculina. Não faço apologia à figura masculina e, com efeito, deprecio ainda mais a figura do homem. Em que pese ter-lhe escapado esse detalhe singular, prometi-lhe uma retratação na forma de um texto sublimador sobre a mulher. E fui direto; disse-lhe: -"Adoro as mulheres!"
E, se querem saber, é fato – adoro as mulheres. Tudo o que se faz na vida, desde colher o lixo na rua até colocar pontes de safena, é mais prazeroso se for feito na companhia da mulher, de uma mulher no mínimo. Se for possível contar com mais de uma delas, tanto melhor. Se você é o único homem em meio a um time de mulheres, considero que você, meu chapa, é um homem abençoadíssimo. Estar sozinho de homem em meio a tantas mulheres é, sem dúvida, um privilégio para poucos que invejo com todas as minhas energias e vísceras vitais. Feliz o homem a quem se achega o mulherio.
Sei que essa confissão seria muito pouco para levar ao convencimento de minha amiga. Afinal, uma mentira bem engendrada é sempre uma possibilidade, inda mais partindo de um homem. É cediço que o homem se julga um ás no quesito "como enganar uma mulher". Assim, não me tentarei defender excluindo-me desse grupo pouco ético. Até porque a falta da ética do universo masculino no referido quesito lhe é retribuída com a sagacidade e inteligência femininas a desvendar-lhes as marmotas e subterfúgios. Então, humildemente confirmo e afirmo já ter sido uma vítima recalcitrante da agudez da inteligência da mulher. Resta-me, após tantos e repetidos insucessos, a despretensiosa solicitação de um voto de credulidade quanto a este assunto.
Atente-se para um detalhe inolvidável e incontestável: todos os seres humanos nasceram de uma mulher, sem uma única e mísera exceção. Mesmo o Filho do Deus vivo, Jesus, nasceu de uma mulher, Maria. Àqueles que tomam as formas e rituais do culto e adoração a Deus como machistas fica a gritante demonstração do papel angular da mulher na obra da redenção. Nela o divino mesclou-se ao humano para conceber o Salvador. E ainda que venham de lá os inexplicáveis ateus a considerar que tudo isso seja balela e invencionice do gênio humano, ainda assim o suposto machismo é retumbantemente pisoteado pelo exemplo de Maria.
Recentemente fui impelido à leitura despretensiosa de certo livro de uma senhora chamada Ayaan Hirsi Ali, "Minha Vida". A cada página uma sensação de terror me invadia para se deixar substituir, ao final, por profundo sentimento de respeito e admiração pela autora. Minha exultação foi tão grande que me vi impelido a visitar-lhe a página na rede mundial de computadores e me pôr à sua disposição para ajudar-lhe a levar a cabo sua luta contra a opressão da mulher no mundo islâmico. Ela me respondeu com um deferente agradecimento e votos de estima. Em seu primoroso texto ela teve a coragem de expor as vísceras do fundamentalismo islâmico em seu viés opressivo ao sexo feminino. Hoje vive na América do Norte em local desconhecido. Foi jurada de morte por seus denunciados.
Não sei o que dirão aqueles cuja criação, no sentido de "educação", não se tenha devido à presença maciça da mãe. Pois lhes direi em alto e bom som: fui criado por minha mãe. Comigo ela esteve nos momentos mais críticos da vida de uma criança. Castigou-me quando se impunha e silenciou sobre meus sucessos, um silêncio que transbordava de genuíno orgulho materno ante os indícios do crescente preparo da cria para as vicissitudes e dissabores da vida. No ano que antecedeu o de sua morte, telefonou-me ao dia de meu aniversário de 48 anos e, chorando, disse: -"Você é um vencedor, meu filho!" Seu elogio era o inconsciente elogio de si mesma. Sobre ela e outras guerreiras de minha numerosa família repousavam os alicerces mais enraizados de cada subfamília. Sem cada uma delas não teria sido possível. É sobre a mulher que se assentam e se cravam em solo pétreo seus alicerces.
É o universo mulheril o responsável pelo milagre diário do amor, da sensibilidade, da compreensão, da cordialidade, da humildade, da nobreza, da coragem e da doação, ausentes tanto quanto possível da selva da truculência masculina e suas mais funestas conseqüências. E, de fato, tal truculência vem bem a esconder a imensurável e vergonhosa fraqueza masculina, como bem cantou Erasmo Carlos.