quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Uma ficção repleta de realidade


Não pude deixar de assistir, mais uma vez, ao filme de José Padilha "Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro", de 2010. É, agora, o filme brasileiro mais visto de todos os tempos, com mais de 11 milhões de espectadores. Já devo tê-lo visto uma dezena de vezes, por inteiro ou a partir do momento em que o surpreendo na televisão a cabo. Pessoalmente me interessa a parte do filme que trata das milícias, sua origem, sua relação com a política, com os políticos e com o poder constituído. Pois acabo de vê-lo novamente, e justamente ao término da leitura da entrevista, numa revista de grande circulação nacional, com o senhor Cláudio Beato.
O que faz mesmo o senhor Beato? Lembrei: ele é sociólogo e hoje "tem se dedicado a entender as milícias". Ora, de um lado o filme, uma obra de ficção, com sua milícia; do outro o respeitado sociólogo a dissertar sobre as milícias nada irreais de nosso dia a dia, mormente as do Rio de Janeiro. O filme mostra as milícias do Rio, o senhor Beato fala justamente delas. Em comum entre a ficção e a realidade a milícia e a cidade onde atua. Haverá mais alguma coincidência? Perguntando de outra forma, haverá algo mais em comum entre a fita e o mundo real?
Vamos a ambos numa tentativa de nos extrair dessa dúvida cruel e preocupante.
Diz o senhor Beato o seguinte, sobre o mundo real: "É preciso empreender uma faxina na polícia do estado [do Rio de Janeiro], que figura entre as mais corruptas do país. A podridão não se limita às bases da corporação, mas está entranhada nos mais altos escalões". Para exemplificar cita o fato de um tenente-coronel, envolvido com grupos de extermínio, ter sido descoberto como o mentor do assassinato de uma juíza, evento amplamente divulgado na mídia e de conhecimento da sociedade brasileira. Diz ainda mais o senhor Beato: "Torturam, matam e expulsam as pessoas de suas casas. Infiltram-se também no dia a dia dos cidadãos, explorando serviços essenciais como transporte coletivo, água e gás". E – vamos logo ao pior: "... seus líderes operam de dentro da polícia e se mantêm ali quanto podem, galgando postos na hierarquia e evitando que os próprios crimes sejam investigados. Eles têm poder no mundo formal. Desfrutam de ampla inserção no meio político".
Ora, mas o senhor Beato está falando do filme do José Padilha! A película mostra tudo isso! Não foi dito na entrevista/reportagem que ele fosse crítico de cinema. Mas não – o senhor Beato fala do mundo real, onde as coisas acontecem de fato. No filme, o coronel Nascimento, após uma manobra desastrada de seus comandados numa rebelião em certo presídio, passa a funcionar como subsecretário de Inteligência da Secretaria Estadual de Segurança Pública do Rio de Janeiro. A certa altura ele relata: "A Secretaria é o coração do 'sistema'". O "sistema" a que ele se refere é a organização criminosa oficial, institucionalizada. Os bandidos da rua funcionam apenas para serem mortos e/ou presos em operações militares de invasões e estouros de morros repletos deles, no intuito de produzir dividendos políticos para o mesmo "sistema". A milícia realiza operações criminosas no morro ou na favela apenas com o objetivo de justificar a invasão e a matança de traficantes que a sociedade exige. Em troca, chuva de votos para o "sistema".
Ao final, Nascimento pergunta ao espectador quando a cena muda e nos desnuda a esplanada dos ministérios em Brasília: "Me diz uma coisa: quem você acha que mantém tudo isso (o 'sistema')?" E a câmera avança a mostrar a Praça dos Três Poderes (ou seria "Praça dos Três Podres"? Basta suprimir uma vogal.) Após uma CPI impensável no mundo real, Nascimento levara, através de seu depoimento, vários políticos à cadeia e a um rearranjo do "sistema" – uma queima geral de arquivo, uma reorganização dentro da organização criminosa, um troca de mãos geral e conveniente à sua sobrevivência. E conclui, enfaticamente e em tom de lamento: "O sistema é foda. Ainda vai morrer muito inocente".
Não me lembra que após os créditos finais tenha aparecido o célebre lembrete "essa é uma obra de ficção; qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência". Se apareceu, há que se lhe retirar. Seria a única mentira deslavada da película irretocável.
Pobres de nós que ficamos a nos debater em nossas vidinhas virtuais e enganosos caprichos reais. O real está repleto do horror que teimamos em não enxergar. Reprimimos diuturnamente seu conhecimento a fim de que seu fardo não esmague nossas consciências.