terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O LEGÍTIMO VESTE-CALÇAS


Vejam vocês que certas profissões são ofício de 24 horas. O sujeito que é padre é padre enquanto dorme, mesmo que esteja a sonhar com a mulher melancia. Vamos e venhamos, não somos culpados por sonhar. Ninguém há de condenar alguém, mesmo o pobre sacerdote, por ter sonhos libidinosos. E, no caso, nem será necessário lançar mão de argumentos freudianos para explicar por que cargas d’água um padre sonha com a mulher melancia. É perfeitamente compreensível.
            Da mesma forma o médico. Em que pese o fato de alguns julgarem despir-se do celibato tão logo lança o jaleco ao cesto de roupas sujas, é ainda mais médico quando chega à casa do que no hospital. Lá, no hospital, a função se dilui entre outros da mesma estirpe, e o que um não faz o outro fará. Em casa não. Se o buscam aí, terá que dar uma solução ao caso, nem que seja o atestado de óbito, que Deus o livre. E se o procuram no bar, quando estiver a bebericar com comparsas? O pileque torna-se, para aquele ce-erre-eme, um escândalo de proporções tremendas. Como diz o apóstolo, tudo podemos, mas nem tudo nos convém. Em suma, ser médico é também função de 24 horas. Vê-se por todo o exposto que não convém ao padre dormir nem ao médico bebericar.
            Contudo, somos humanos. E falhamos. E, se falhamos, que no máximo a falha seja uma titica de nada. Até porque há falhas e falhas. A do padre reside nas profundezas do subconsciente onde o id rosna como o leão liberto das amarras do superego que ronca. Que se pode fazer? “Orai e vigiai para não cair em tentação”. Não vigiou...
            O pior não é nem o médico que, se não estiver de serviço como o soldado na guarita do quartel, e se não houver mexido nas entranhas do povo momentos antes, pode até se dar ao luxo de bebericar e consultar. De preferência por telefone, de modo a que não lhe cheirem o bafo de tigre. Ninguém há de merecer. No consultório jamais, que não pega nada bem. E ainda por cima sem excessos para não perder a compostura. Há que se lembrar, como exemplo, um mau exemplo, o último presidente da república, várias vezes flagrado por câmeras fotográficas em visível estado de libação alcoólica. E põe libação naquilo!... Vejam que o sujeito se deixar perceber bêbedo numa fotografia é porque está a deixar Dionísio cheio de inveja e temendo perder-lhe o posto de deidade do descomedimento. Toda uma nação viu. Um pileque testemunhado por quase 200 milhões de expectadores deveria ir parar no livro dos recordes, sob qualquer aspecto de sua grandeza.
            Pois não foi o que me ocorreu outra noite quando estava a bebericar com amigos. Meus pileques não são pileques – são arroubos de felicidade e sorrisos. E aqui perceberão que, muitas vezes, é a consulta que nos fazem, aos médicos, a maior inconveniência. Desde que inventaram a engenhoca que é o telefone portátil que, por medo de perder alguma oportunidade ou qualquer outra coisa que nem sabemos se nos interessa, nos enfronhamos muitas vezes em situações periclitantes.
            Estou ali na Zug e me toca o maldito/bendito telefone portátil. Já eram umas horas de modo que, ou a coisa era muito boa, ou era muito ruim. No display estava escrito: AMORIM. Assim mesmo, em letras garrafais. Não se trata da presbiopia, que esta se compensou com a pouca miopia. Os nomes em letra maiúscula em minha agenda denotam o grau de importância do amigo, ou o grau de perigo que representam. O caso do Amorim se reveste de uma dualidade explicável.
            Atendo. A voz do homem denunciava seu dionisíaco estado. Parecia que a língua se lhe misturava entre os dentes, ou que os dentes estivessem soltos e a língua tentasse mantê-los quietos enquanto falava. Ao início nada entendi, mas em dois tempos a coisa se fez clara. Como o amigo é, além de pau d’água, um hipocondríaco de carteirinha, estava “passando mal”. E dizia: -“Não tô conseguindo... não tô conseguindo...” Eu perguntava: -“O que não estás conseguindo, homem?” Ele apenas dizia: -“Não consigo, Fernando... não consigo...!” (O ponto de exclamação é a minha tentativa de exprimir sua entonação de exaspero, frustração e indignação.) Dali a pouco ele diz: -“Tô aqui com uma menina... ela vai falar... fala aqui com ela...”
            Houve uma pausa mais ou menos breve, preenchida por sussurros ao fundo, como se a mulher hesitasse em falar ainda que o amigo insistisse. Ela disse: -“Oi, aqui é a fulana. Estamos aqui no motel e ele não consegue ter uma ereção... Quer saber de você o que deve fazer.” Percebi o risinho de escárnio da garota por estar falando com outro homem a fim de que ele resolvesse o problema de ereção de seu “cliente”. Ela provavelmente jamais passara por semelhante e hilária proeza.
            Um processo de ira começou a se instalar em mim. Essa o Amorim havia de me pagar, aquele pulha! Falei pra garota: -“Meu amor, faz aí um coquetel de Viagra e boquete nesse filho da puta. Se ele não levantar, amanhã eu amputo esse troço!” E “bati” o telefone na cara dela.
            Pergunto: foi pra isso que me formei? Tenham a santa paciência!