terça-feira, 30 de outubro de 2012

De poste em poste


Nelson Rodrigues, pela boca de uma de suas personagens, presumidamente conhecedora de suas colossais galhas, dizia : -"Meu marido não respeita nem poste!" Assim, para os leitores mais vorazes do jornalista, escritor e dramaturgo se apresentava pela primeira vez a figura do poste vítima de maridos safados e infiéis.
           Hoje mesmo compartilhei à rede social um vídeo em que aparecem o Chico Buarque e o Tom Jobim tocando, de autoria do Tom e Vinicius de Moraes, a música "Sem Você": "...você é o que resiste/ao desespero e à solidão/nada existe/o tempo é triste/sem você".  De fato, o lamento é de um romantismo refinado e belo, próprio dos que estão a nutrir por alguém uma dessas paixões que dilaceram as fibras da alma. Por isso, não foi de surpreender que um querido amigo fizesse, ainda lá mesmo na rede social, o comentário sobre o que lhe pareceria o óbvio; disse ele: -"Estás apaixonado?"  Eu, sem usar de qualquer referência disponível à mão, respondi-lhe: -"Com essa música dá pra se apaixonar até por um poste". 
          Que fique claro: quis fazer, de certa forma, uma analogia entre o poste apaixonável e o poste amante. É fácil perceber que ambos são seres/objetos desprezíveis, ainda que o apaixonável apenas se o torne por conta da belíssima música da dupla genial. Assim, continua sendo desprezível o poste apaixonável. Poste é poste e o máximo de virtude que há de possuir seja talvez seu desenho a instigar pensamentos freudianos. Fora isso só se presta mesmo a segurar fios de alta tensão e luzes de rua, e servir de latrina a cachorros vira-latas. 
          Muito tempo se passou até que o pobre poste fosse novamente denunciado pejorativamente. Foi ao começo do ano corrente, quero crer. A prefeita desta decadente cidade, a senhora Luizianne Lins, declarou, não sei se a jornalistas, não sei se na inauguração de uma de suas escolas, que seria capaz de eleger até um poste sem luz para prefeito da cidade. Do alto de sua arrogância, de sua empáfia, de seu pedantismo, a ilustre alcaide, acreditando gozar de elevada popularidade, tinha absoluta certeza de sua competência para lograr tal êxito. Observe-se que seu poste era ainda mais inútil porquanto a luz que de si pendia simplesmente não pendia, não existia, e seria este mesmo que pretendia eleger.
          Eis então que, passados alguns meses da promessa aterradora, a nobre gestora dos negócios municipais se mostrou incapaz de lhe levar a cabo. Bem, é verdade que não era bem um poste o cidadão que pretendia eleger, mas muito se assemelhava a um, posto que fosse alto e houvesse passado despercebido no jogo político de nossa cidade por um lapso de tempo maior que o ideal. Era, até poucos meses atrás, uma dessas personalidades que se assemelham a figurante de filme pornô – ninguém lhe dava a mínima atenção. Ninguém o via. 
           Assim, chega-se ao final da história da utilização de postes para propósitos diferentes daqueles a que são destinados. A verdade é que ninguém come poste, nem por ele se apaixona, mesmo quando se põe a tocar melodia enternecedora, como a do Vinicius e do Tom. Por extensão, deve-se presumir e deduzir que postes também não servem para prefeito, como ficou muito claro à contagem dos votos da eleição em Fortaleza. 
          E mais. Se a senhora prefeita ainda quiser inaugurar algo durante os dois meses que lhe faltam à frente do executivo municipal, um alerta seria conveniente: corra a toque de caixa, dona prefeita! Como ela mesma disse, "a gente inaugura não é pra conseguir voto, mas pra mostrar o que estamos fazendo, senão ninguém vai saber". Se não há mais votos pelos quais brigar e se inaugurações de obras públicas não se prestam a isso, é chegada uma excelente oportunidade para pôr em prática esse propósito puro e destituído de qualquer interesse.