sábado, 15 de dezembro de 2012

Um lar...


          Sempre pensei numa casa como um lar. Ainda que aqui e ali estivessem os enfeites e os toques femininos de sua rainha, uma casa era, e para mim sempre haverá de ser, um lar. 
          Ah!... em quantos lares estive!... A mim me foi permitido adentrar os lares de meus pequenos amigos, assim como eles adentraram o meu. Íamos aos lares dos amigos porque em nosso tempo o lar ia além dos limites de seus muros e portas. Um lar se estendia a outros, e isso seria, para nós hoje, uma brutalidade humilhante. 
          Os lares viviam repletos de gente agregada, não residente, não moradora. Era gente da parentalha que chegava sem avisar; eram amigos que passando por perto se achegavam para uma chávena de café com torradas e dois dedos de prosa; eram os serviçais que mais pareciam familiares distantes mas presentes... Não havia hora, nem momento; toda hora era hora. A mesa estava sempre ali, numa sala exterior, posta e pronta para uma contingente refeição; eram bules, xícaras, pratinhos de sobremesa, toalhas enfeitadas multicoloridas, garrafas térmicas estilosas, cesto de pães guarnecido e encoberto por lencinho branco de bordas trabalhadas a proteger das moscas seu conteúdo; tudo muito asseadinho, cuidadosamente e amorosamente ajeitado. 
          A mesa era grande, um retângulo de madeira de lei preta e compacta, a ocupar a sala aberta para todos os lados, por onde entravam o sol, os ventos de quase verão, a água da chuva que molhava seus cantos...
          Logo atrás o quintal, uns poucos arbustos e a grama bem aparada. Mais a um de seus lados, aquele oposto ao da sala, a tampa de um cacimbão caiada por uma tinta branca barata e desbotada. Muitas vezes um montinho de areia se erguia, quase imperceptível, mais para perto do muro - a "sepultura" de um animalzinho de estimação, um gatinho, carinhosamente cuidado até sua hora final. Sim, o lar servia de última morada aos animais de estimação.
          No verão o lar enchia-se de parentes de outros estados que vinham em pousada, trazendo notícias de outros, fofocas deliciosas que não denegriam, cartas para entregar em mãos ao destinatário e escritas em letras belíssimas e bem desenhadas. E era tanta gente, tantas vozes, tantos dizeres! Crianças, adolescentes, jovens adultos, pessoas maduras, idosos... toda a gente se entretinha nesses momentos tão únicos e tão calorosos...
          No lar estavam o casal e seus filhos, perfeitos em suas humanas imperfeições, aqueles a ensinar e a repreender, estes a serem felizes a não mais poder. A decoração do lar apenas traduzia a paz e a harmonia que lá reinava, o amor que pairava como manto suave e protetor de sua gente...
          
                                                         ***

          Sozinho.
          Faz silêncio. Apenas o barulho do ventilador funcionando preenche esse espaço destituído de decoração e de cuidados. 
          As paredes nuas, cor de gelo, frias como gelo em sua monotonia desgastada, são a única imagem à frente. A mobília é pobre e já envelhece. Objetos sem nexo, sem aura, sem calor repousam sobre anteparos e prateleiras sem viço.
          O espaço é demais para o residente, que passa horas a fio sem uma companhia, sem uma palavra, sem um toque... Tudo tornou-se imponderável na virtualidade de uma vida sem calor. 
          A busca da proteção contra a dor trouxe mais dor, eis a verdade. Na fuga, na extirpação da convivência íntima, no corte profundo do corpo dessa alma, sem o cuidado na dissecção entre o útil e o inútil, tudo foi sacrificado. Como o jardim em que se lança a peçonha que visa destruir a erva daninha e se destroem também as flores, eis a aparência deste lugar... Ele reflete a alma devastada do residente, ou seu desapego por tudo o que possa representar o sofrimento.
          Se somente à morte não há sofrimento, lúcido é deduzir que ali jaz um zumbi que entra e sai, que vai e vem, que respira e ri, que habita... tão-somente habita...
          Em meio ao cenário desolador, uma pintura, um óleo sobre tela, presente de um amigo, daqueles que também habitou um lar um dia. Presa a uma parede que se embrenha ao fundo, a pintura mostra um jardim, sempre um jardim, o único jardim deste lugar... 
          No mais as mudas de roupas, suspensas, inertes, adquiridas para cobrir não do frio, não do calor, antes da dor e do medo. Somente roupas. Nada além de roupas...