terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Tudo em vão?


          Outro dia bradei a plenos pulmões: -"Não me elogiem! A qualquer momento posso falhar!"
          Amiúde tenho ouvido falar em decepção. Tantas e tantas pessoas se dizendo decepcionadas, como se elas próprias não fossem a fonte de decepção de outras tantas. Ou isso ou devem julgar-se perfeitas a ponto de nunca falhar. 
          Eu dizia: -"O elogio é a véspera da decepção." Como não o seria? Se somos imperfeitos, falhamos. Se esperamos o amor de alguém supostamente infalível, de alguém que não nos decepcione, que esperamos? Esperamos o impossível, duro admitir.
          Entretanto, há, sim, uma única decepção possível e legítima: - seria aquela em que se surpreende em alguém uma essência desfigurada, corrompida, desvirtuada, mascarada, a esconder malignamente, sob a pele de cordeiro, o lobo voraz e hediondo. A virtude maior para nós humanos não é a perfeição, mas a busca desta. A virtude maior é o tornar-se juiz implacável de si mesmo, quando ouvimos o monstro que habita em nosso âmago rosnar a querer saltar cá fora. 
          Se perdemos de vista nossa falibilidade, julgamos-nos aptos a apedrejar, esquecendo que ali ao lado, bem pertinho, escrevendo ao chão na areia, está o Cristo a nos lembrar que nenhum de nós tem tal autoridade. 
          Outro dia bradei a plenos pulmões, farto das injúrias que me soterravam, espírito revolto por injustiças que se levantavam contra mim (http://fecavalcanti.facilblog.com/Primeiro-blog-b1/Vergonha-sobre-mim-b1-p29.htm): -"Todo canalha é sortudo; e eu não sou diferente." Numa indignada ira fazia, veladamente, o auto-elogio mais descarado de que se tem notícia. Para se ter uma parva idéia de meu descaramento, muitas pessoas que assistiam à cena julgavam-me – pasmem! – um suicida de véu e grinalda. De tanto me imputar graves defeitos, criam piamente em meu elevado grau de desamor próprio. Não perceberam que estava ali a defender-me, a me elogiar, a me enaltecer. Porque quando querem nos levar ao chão, à lona dos derrotados, nossa indignação é o que nos salva; é quando lembramos que temos, sim, valor, ainda que falíveis. Então, na mesma cena deplorei o elogio e enalteci a mim mesmo. 
          Ora, que fazer?.... Que fazer quando alguém que não tem autoridade te quer punir e imputar a ti falhas que não cometeste? Até o Cristo – aquele, sim, perfeito – irou-se quando pretenderam transformar seu templo em casa de comércio. Eu, em minha imensurável imperfeição, saí em defesa de mim mesmo. Não temia suscitar decepções a partir das acusações que me faziam: temia não sobreviver à injustiça que partia de um impuro como eu. 
          Outro dia bradei ainda aos quatro ventos e a plenos e limpos pulmões: -"Não me amem!" Rejeitava os amores lastreados em minha suposta perfeição, fadados ao obsoleto final da amargura e da já tão falada decepção. Pedia encarecidamemte que me poupassem das cobranças triviais e mesquinhas do comércio dos comuns amores. Veladamente pedia, implorava, anelava, exortava ao amor mais sublime e mais puro entre os imperfeitos . Implorava a que alguém me amasse gratuitamente, persistentemente, infinitamente... (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2011/09/nao-me-amem-em-18062009-ainda.html)
          Tudo em vão?... São tão pobres as palavras para dizer o que pretendo que tenho usado as entrelinhas, os espaços entre elas, as vírgulas e pontos para o fazer, porque se as uso tudo parece tão inverossímil que para tal elas não se prestam...
          Tudo em vão?... A empáfia dos que se imputam uma perfeição inexistente a lhes confinar ao isolamento do auto-endeusamento está a lhes distanciar, em tantas e tão inexoráveis decepções, do mundo real onde o amor que sobrevive é o incondicional...
          Tudo em vão?...