segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Sei lá!


Na rede social uma amiga me saiu com a seguinte pergunta: -"Onde vais passar a virada? " 
          Presumi de imediato, e dado o contexto, que quisesse saber onde eu estarei na noite de 31 de dezembro do corrente. 
          Respondi-lhe sem hesitar: -"Sei lá!" E só após responder me ficou clara uma certa rudeza de minha parte. Assumo: fui rude. Contudo, preciso deixar claro que essa impertinência não seria com minha amiga. Antes, seria com essa nossa prática de "passar a virada". Passamos a virada, na maioria das vezes, em nossa solidão de solitários. Alguém dirá que falo por mim, e direi que, sim, falo por mim. 
          Eis o mea culpa: sou um solitário de carteirinha e papel passado. Sou tão abjetamente solitário que quanto mais se ajuntam as gentes, e quanto mais se aumenta o volume do som, e quanto mais sorriem as máscaras de carne e osso, mais solitário me sinto. Eis porque me encanta o silêncio no qual conversam e se enleiam os cúmplices, uma cena raríssima de se presenciar. Ou talvez nem o seja tanto assim, posto que só eles se percebam e entendam aquela linguagem suave, harmônica e profunda que é o seu silêncio.
          Admito: além de solitário sou um invejoso de marca maior. Essa seria uma profunda lacuna em meu já combalido e claudicante caráter, não fosse por um detalhe: - invejo o intangível, o imponderável, o sublime. Como um pássaro branco que paira e plana sobre um jardim multicor, assim vejo o sublime. Seria isso a representação da figura do silêncio dos cúmplices: - um jardim repleto de flores diversas, a exalar cada uma seu perfume macio e doce, sobre o qual o pássaro impecavelmente branco se debruça, como a se deleitar magnetizado por esse momento tão singular, e por essa mistura de elementos tão puros e simples que a natureza guarda em seu seio. 
          Essa inveja absurda me arrebata em espírito, como se me fosse permitido ver e sentir o que vê e sente a ave, e me fosse permitido ver e sentir o que vêem e sentem as flores... Esse seria o silêncio e o momento mágico dos cúmplices, que tanto invejo...
          Minha rudeza – ninguém se deu conta, visto que não tenho cúmplice a me perceber– foi um sofrido lamento, e que denuncia a angústia com que me angustiam as palavras e seu excesso, porque elas não dizem o principal e o essencial (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2012/12/inviabilidade-de-palavras.html). Apenas o silêncio diz o que não dizem as palavras, faladas ou escritas, ou ainda que murmuradas. 
          Que importa onde se "passa a virada" se os sons, os barulhos, a inflação das palavras e abundância de máscaras permeiam uma profunda solidão? De que me serve esse catártico coquetel se o meu deleite e gozo está num único e interminável olhar a falar "Sim, eu existo!"?