segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Matéria e energia escura para corações sem luz

Deliciei-me ao ler, hoje, dois artigos do astrofísico carioca Marcelo Gleiser, publicados na Folha de São Paulo. Ele é aquele cujo pai perguntou, mais ou menos assim, ao tomar conhecimento de suas pretensões profissionais: -“Mas você acha, meu filho, que contar estrelas dá dinheiro”? O título dos artigos: “Sobre o propósito da vida” (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelogleiser/2013/06/1295616-sobre-o-proposito-da-vida.shtml) e “As 20 ou 10 questões mais importantes da ciência” (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelogleiser/2013/09/1338383-as-20-ou-10-mais-importantes-questoes-da-ciencia.shtml).
               Diz ele o seguinte sobre o propósito da vida: “Todas as formas vivas têm o propósito de preservar sua existência. Essa é a diferença essencial entre o vivo e o não vivo. (...) Dada tanta riqueza, tanta criatividade, fica difícil de aceitar que tudo surgiu sem um propósito maior, sem a intenção de criar criaturas cada vez mais complexas”. E conclui: “O que a vida quer é se preservar”.
               O que a vida quer é se preservar. (Estou repetindo não somente a frase, mas o pensamento. E não vejo como não fazer um juízo de valor do pensamento do senhor Gleiser.) Vejam que a vida, que no mesmo artigo ele define como “essa estranha organização da matéria dotada de autonomia, capaz de absorver energia do ambiente à sua volta e de se preservar por meio da reprodução”, é, apenas, uma estranha organização da matéria. Segundo o “pai dos burros” do qual, diga-se de passagem, sou perene e fiel inquiridor, toda organização é uma estrutura, uma composição. Pois, segundo o senhor astrofísico, uma estrutura ou composição, no caso a vida, é dotada de uma vontade, qual seja, a de se preservar. A vida, diferente da não-vida, escolhendo entre perecer e subsistir, escolhe a segunda alternativa. Os objetos dotados de não-vida não têm escolha. As pedras, a água e o fogão de minha cozinha não são seres vivos; são dotados de não-vida e, por conseguinte, de não-vontade e de não-escolha. (Observem que a vontade pressupõe uma inteligência, e as escolhas são o pleno e livre exercício daquela.)
               Dizendo tudo de outra forma, a vida é o conjunto de processos “autônomos”, que envolvem geração e gasto energético, capaz de se reproduzir. Então, esse conjunto de processos é dotado de uma volição que escolhe se perenizar. Mesmo os seres primitivos, as chamadas formas primitivas de vida como as amebas e os vírus, se reproduzem independente de sua vontade e, portanto, alheios à sua escolha. Estão, coitadinhos, fadados a essa programação incômoda e tediosa, a reprodução. Nós, os humanos, é que evoluímos tanto que adquirimos inteligência, um tipo complexo de abstração que nos dota de vontade e capacidade de escolher. (O diabo é que, por mais que escolhamos viver, está ali, sempre à espreita, a finitude inexorável. É a vida que há em nós – aquele conjunto de processos autônomos – quem escolhe a reprodução antes que morramos para que ela própria não pereça. Antes de dar cabo de nós, a vida criou o impulso que nos leva a nos reproduzir.) Assim, nós morremos, cada um de nós, mas a vida não morre. Não sei se percebem o ponto de vista. 
               Lá para trás, bem antes de nosso Gleiser, Schopenheuer afirmava que somos dotados de dois instintos essenciais: o de sobrevivência ou preservação individual, e o de preservação da espécie. O primeiro é manifestado na fome e no medo da morte; o segundo no impulso sexual e na defesa ferrenha de nossas crias. O filósofo não esclareceu, entretanto, quais instintos levam a Escherichia coli a se dividir em duas filhinhas nem para que lado correm quando avistam uma molécula de gentamicina ou outra substância que para elas seja um veneno letal. Pode-se concluir, então, que os instintos ficaram reservados aos seres de maior porte, inteligentes ou não. Os cervos sempre pastam bem distante dos tigres, que eles não são bobos. E não tem a menor importância que não saibam a tabuada de 8. 
               Marcelo Gleiser conclui que "fica difícil aceitar que tudo surgiu sem um propósito maior" e arremata, quase postulando: a vida quer se preservar. (Minha obsessão na frase há de manifestar já, já minha indignação com a mesma. Paciência...) 
               Por outro lado ou, melhor, por outro artigo, nosso eminente cientista comenta sobre livro recentemente lançado na Inglaterra, "Big Questions in Science", que lista os 20 desafios mais importantes da ciência moderna. De sua própria escolha ele citou 10 das vinte. As duas primeiras ("Do que é feito o Universo"? e "Como surgiu a vida"?) demonstram o drama dos homens da ciência: eles não deram um passo em direção às respostas. São questões não da ciência "moderna", mas da ciência em todos os tempos. Mas minto. Essas questões têm, de fato, ficado mais distantes de suas respostas à medida que segue a busca. Descobriram, por exemplo, que só conhecemos 5% da composição do Universo. Dos outros 95%, a matéria escura e a energia escura, não se tem a menor idéia de sua constituição. 
               O problema da vida, aqueles processos autônomos que "querem" se perpetuar, é ainda pior. Esses senhores – me refiro ao senhor Gleiser e seus colegas – continuam se perguntando o seguinte: "Como que átomos, combinados em moléculas, atingiram um nível de complexidade em que essas moléculas formaram o primeiro sistema 'vivo'"? A mim a resposta seria de uma simplicidade franciscana: se aquele conjunto de processos autônomos é dotado de vontade e poder de fazer escolhas, é provável que eles sejam fruto da vontade de seus átomos e moléculas. (As demais perguntas ficam ao gosto do mais interessado dos leitores ao acessar os links em anexo.)
               Um detalhe escapou ao próprio autor dos textos. (Sou obrigado a rescrever o diminuto trecho.) Disse ele que "dada tanta riqueza, tanta criatividade... fica difícil aceitar que tudo surgiu... sem a intenção de criar..." Duas vezes citou "creare", do latim, que significa "produzir, erguer", a primeira se referindo à capacidade de criar, a segunda ao ato em si. Será que o senhor Gleiser cometeu um ato falho? ou será que o simples falar em "criar" e em "criatividade", no sentido de produzir toda a excelência da vida observável e não somente ela mas tudo o mais e todo o resto leva-nos, inexoravelmente, a nos referir ao resultado da ação de Alguém? Pergunto-me se algum dia lhes será permitido "enxergar" o que chamam de matéria e energia "escura".