quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O cearense hospitaleiro

               Eles estão ali para quem quiser ver. Não poderão dizer que minto. Basta passar no corredor que liga a unidade 13 à unidade 12 do Instituto Dr. José Frota. Eles estão sentados lado a lado, conversando, olhando o movimento e, diria até, flertando as acompanhantes dos pacientes. São os policiais militares que fazem a segurança dos pacientes internados envolvidos em atos criminosos. É a maior densidade policial do estado do Ceará.
               Os criminosos, internados, estão incapacitados de se locomover. Muitos estão mutilados. É pouco provável que perpetrem alguma ação violenta em pleno hospital, embora outro dia, em 31 de agosto passado se não me falha a memória, um elemento tenha invadido suas dependências e assassinado a tiros um paciente que acabara de receber alta hospitalar. A ação se deu ali embaixo, na área onde as ambulâncias entregam e recebem os pacientes. Havia policiais militares no local, mas não foram suficientes para intimidar o agressor e muito menos para evitar a tragédia.
               São sete policiais, os do corredor da unidade 12 e 13. Muitas delegacias do interior não têm o privilégio de contar com tamanho contingente. É verdadeiramente impressionante. Segunda-feira última quatro elementos assaltaram uma agência bancária na pacata Trairi, a 124 km de Fortaleza. Vejam que somente esses sete policiais aqui da enfermaria bem poderiam estar por lá vigiando o tempo. A cidade é tão calma que chega a dar sono andar por suas calçadas. Vai ver foi justamente por isso que os facínoras não encontraram a mínima resistência. O posto policial da cidade é a última palavra em desenho arquitetônico, uns vidros fumês que devem ter custado aos cofres do governo uma fortuna, mas inútil. Tão inútil quanto os sete policiais espremidos no final do corredor. Eles e suas cadeiras, juntos, ocupam uma área de, sei lá, 5 metros quadrados. Um, dois no máximo, daria conta do serviço. E nem estamos falando dos outros tantos postados às portas das enfermarias das unidades 11, 15, 17, 18, 19, 20, 21 e 22, e os da recepção onde o menor criminoso alvejou outro bandido indefeso. (Estou quase certo de estar-me esquecendo de outras seções do hospital onde eles são encontrados a fazer a "segurança"). 
               Quem disse-me hoje pela manhã no hospital foi o Ciro Ciarlini: - o sujeito para querer ser prefeito de uma cidade como esta, das duas uma: ou é santo, ou é inescrupuloso. (Ia dizer "canalha", mas o termo que o Ciro usou foi "inescrupuloso".) Sim, porque, segundo o meu amigo, uma cidade como esta é um abacaxi difícil de descascar. Os problemas são tantos e tão insolúveis que nada justifica que alguém queira, de bom grado e  de boa intenção, assumir tamanha responsabilidade. Um homem de princípios e de boa fé jamais abraçaria uma causa onde o mal impera. 
               Outro dia escrevi aqui mesmo neste humilde e pouco lido blog: - não há como entrar numa pocilga e sair limpo, cheirando a perfume francês. É, simplesmente, impossível. Assim, explica-se a ausência de santos na atividade política, em que pesem as noções dos antigos sobre ser a política uma nobre ocupação. O plano real está distante do imaginário, como quase tudo na vida. 
               Pois o Ciro, num exercício de lógica e silogismo aristotélico, concluiu que o mesmo vale para os que almejam assumir a superintendência de um hospital como este Instituto. Uma casa de saúde onde os problemas se amontoam dia após dia há anos e onde nenhuma nova abordagem resolutiva foi tentada não é candidata a entrar nos eixos. Se refletirmos sobre o que disse o Einstein – "um problema complexo não tem solução no mesmo nível em que foi criado" –, veremos que estamos diante de um problema assim, complexo. E falo da cidade e do Instituto. Verdade seja dita: - o hospital recebe o supra-sumo dos problemas da cidade, quais sejam, ignorância e falência do sistema educacional, cultura da violência, ausência de regras e leis, desprezo pela vida humana, desprezo pela alteridade, ausência de um sistema punitivo, cultura da inversão de valores, ausência de oportunidades e de horizontes, e uso alastrado de drogas lícitas e ilícitas.
               A mentalidade dos habitantes de uma cidade cria seus problemas ou suas soluções. Todas essas coisas, os problemas, cresceram entre nós aos poucos, possivelmente porque fomos continuamente omissos sobre suas mais ínfimas manifestações; porque menosprezamos os maus feitos de nossos piores homens; porque mitigamos a oportunidade de educar, não para as letras, mas para o humanismo (o pior é saber que muito do humanismo vem pelas letras, pela arte e pela verdadeira história); porque fomos inconsequentes e irresponsáveis no trato com a coisa pública. Assim, temos criado continuamente os problemas porque não somos afeitos às soluções. Alguém disse que a miséria persiste porque dá lucro. Estamos na miséria porque ela deu e continua dando lucro. Na origem de tudo está a qualidade de nossos homens públicos que, em última análise, é encarnado e esculpido o seu eleitor. Daí porque uso a primeira pessoa do plural: - nós.
               Nós mudamos nossa mentalidade? Continuamos produzindo a ignorância, a mentira histórica e atual, as leis que não funcionam, os crimes que não punimos, o ódio ao outro – o que tem odeia o que não tem e vice-versa –, os valores sem princípios, o negro horizonte, e a cultura do consumo como forma de projeção social. São essas as idéias e os sentimentos que não paramos de alimentar. Por conseguinte, nossos problemas seguirão insolúveis enquanto não resolvermos os seres humanos que somos. Bem se vê que nossas soluções estão em nível muito acima de nós, o que nos impede de alcançá-las. 
               O bom de tudo isso é estarmos a assistir de camarote ao esfacelamento do mito que reza que "o cearense é um povo hospitaleiro". Disse "cearense" e poderia ter dito pernambucano, ou paulista, ou paraense, ou o brasileiro de qualquer província. Como diria o Nelson, o brasileiro perde a sua delicadeza a cada quinze minutos. Uma coisa lamentável e, por que não dizer?, potencialmente mortal, como mostram nossas estatísticas.