quarta-feira, 9 de julho de 2014

OS ESCANDALIZADORES

         Podemos simplesmente supor a força de um paradigma. Nada mais, nada menos. E sabem por quê? Porque, de tão forte, não nos permitimos ao menos pensar sobre a possibilidade de sua revisão, de sua desconstrução, de seu desmonte. São crenças e modelos que, de tão misturados com nossa substância, fazem parte de nosso ser. São como um apêndice de nosso ser, como um braço, ou uma mão, ou nossa própria vida: - não nos vemos sem eles. Imaginemos o seguinte: - o sujeito não tem seu braço direito. Não mais tem algo que todos têm. Todas ou quase todas as pessoas têm braço direito, exceto esse infeliz.
​          O símbolo maior, entre nós, do impacto da perda de um paradigma é a morte. Escandalizamo-nos diante da morte. Nosso paradigma é a vida. A vida, mesmo diante da tão professada fé no além-túmulo, é agora. Não queremos arriscar trocar o certo pelo duvidoso: - o paradigma da vida é maior, bem maior, que o da fé. Se assim não fosse, não nos rasgaríamos em prantos escandalosos à beira das sepulturas. Então, sem guerras, sem catástrofes naturais, fomos poupados da visão diuturna da morte. Nem a violência que ora grassa em nosso meio, e que subtrai-nos inúmeras vidas em flor, nos amolece o coração para a resignação diante da existência da morte. Negamo-la até o fim, até a hora da campa aberta para as inumações diárias. Teimamos em não ver. Teimamos em manter o padrão, o modelo, o paradigma. O impacto de sua perda é aferido em nossos velórios e vigílias, em nossas missas de corpo presente, quando da selagem das lajes que cobrem as sepulturas, em nossas torturantes, vazias e superficiais missas de sétimo dia. Tanto negamos a morte que não nos debruçamos sobre o morto e seus direitos. Voltamo-nos ao vivo, ainda que assassino. O morto escandaliza a família eternamente. A sociedade, ao contrário, tem pressa em esquecê-lo, em omiti-lo, em negá-lo: - o morto é um escândalo e como tal deve ser camuflado, escondido. A abreviação de seu post mortem atende nossa ânsia pelo paradigma da vida. Ao assassino voltamo-nos para garantir-lhe a vida: - ele está vivo, é a essência de nosso paradigma. Não importa que se lhe impute a culpa. Nosso paradigma é a vida, é o vivo, é o que pulula. O morto nos aflige, nos agride, quebra nosso paradigma. Por isso nos insulta, nos desonra, nos desrespeita.
          ​Da mesma forma, torna-se menor o que perde o braço, ou a mão, ou a perna. Quebrou o paradigma. Ousou desatender o modelo. Tudo o que merece é a esmola do assistencialismo humilhante que se lhe impõe.
​          Da mesma forma, é nada o que envelhece entre nós. Deve contentar-se com a migalha da gratuidade do transporte público, enquanto seus filhos, netos e bisnetos lhes roubam a miserável pensão que recebem por ter envelhecido. Envelhecer é, para os afortunados, o estádio a anteceder o evento derradeiro que, para nós, é vergonhoso: - morrer. Por isso merecem as migalhas e os furtos. Não devem reclamar. Eis a verdade sobre nós.
​          Por tudo isso é que se escarnece também dos que quebram os paradigmas que vigem durante a vida. Assim como são em menor número os que perdem membros, também é minoria os que quebram rígidos paradigmas. Também estes sofrem as dores das recriminações, por ousar. São vítimas dos olhares de esguelha que lhes punem impiedosamente a audácia. São objetos de adjetivos indizíveis e de classificações absurdas. São alvos de dedos que lhes apontam às costas e de orações que suplicam seu fracasso e derrota. São-lhes imputadas todas as culpas, todos os males que se abatem sobre quem quer que seja. Estes, os ousados ruptores do status, causam pavor em reles mortais. São como a morte, mas representam a vida, tal como nunca se aventou vivê-la. São eles que vivem a vida que ninguém vive. São eles os arautos da liberdade incondicional. São eles os que terminam por dominar aquelas coisas que dominam os reles mortais - o medo, a dor, o amor, a paixão, o orgulho, o dinheiro, a terra e o ar. Acima de tudo, dominaram-se a si mesmos. Esmagaram seu inimigo mais feroz: - seu próprio senso de impossibilidade. Por isso escandalizam. Por isso são temidos.
          Ainda assim, e por isso mesmo, deles escarnecem. Zombam de seus feitos e ainda têm a criatividade de lhes imputar maldade no que fazem. Sob sua estreita fenda de visão da vida, medem-lhes as intenções e atitudes. Seu juízo implacável esconde-lhes o pavor de encarar a vida menor que levam, em seus pequenos compartimentos seguros de suas lúgubres zonas de conforto. Taxam-lhes de loucos, os que ousam romper as barreiras do lugar-comum. Dizem-lhes: -“Não conseguirão!” Torcem contra eles, põem-lhes olho gordo. A sorte destes está na escassez daqueles. Querem, por vezes, parecer que estão a romper os elevados muros de seus pobres domínios, mas só encontram guarida entre outros mais escandalizados. E assim seguem a viver suas parcas vidas para o bem dos que ousam – não há mesmo lugar para todos nos tronos de uma vida plena.
          Escandalizar pelo desmonte de um modelo serve para nos ensinar e alertar que há algo mais e maior que os lugares-comuns do dia a dia, e que tudo é possível se derrotarmos os monstros da vaidade pessoal, da autoestima sem humildade e do egoísmo. Quem o quiser fazer, ouça, leia e imite os “loucos” escandalizadores, não sem antes manter a mente aberta. Não há escolas para esse fim. As que existem ensinam apenas os modelos seculares, os mesmos que se querem desfazer.  

Fernando Cavalcanti, 11/08/2009