terça-feira, 8 de julho de 2014

BAHAMAS E VICTORIA SECRETS

          Estava em São Paulo para o congresso. Era um ás da medicina, um figurão, um pica-grossa, no dizer popular. Médico de renome. Conhecidíssimo por aqui. Não ia palestrar, mas queria saber das novidades científicas, conversar com os pares de alhures.
​          Queria chegar um dia antes, instalar-se no hotel, descansar da viagem e da semana de trabalho. A mulher chegaria dia seguinte ao meio-dia. Reservara quarto de casal.
​          À noite foi ao Bahamas, lupanar de caras e belas catirinas. A mulher andava surtando. “É bipolar!”, diagnosticava. Nada melhor que uma folga de poucas horas de sua convivência. Sim, o Bahamas seria ótimo! Além disso, notara: - a mulher só surtava no cartão de crédito. E ele que pagasse. Contas caras, dez, quinze mil. Na fase depressiva não dava. Trancava-se no quarto três dias. Ele que se virasse. Sem dúvidas, o Bahamas vinha bem a calhar.
​          Lá chegando se engraçou com uma das meninas. Era lindíssima, perfeita, um espetáculo, em suma. Queria saber quanto cobrava. Ela foi categórica: -“Seiscentos e cinqüenta a noite!” Ele quis negociar. Que deixasse por trezentos e cinqüenta. Era residente de cirurgia no Ceará. Ganhava pouco. Viera ao congresso aprender. (Em nenhum momento temeu ser denunciado pelas cãs.) E durou quase uma hora tentando convencê-la.
​          Até que, finalmente, ela concordou. Quis saber do hotel. Ele não podia mentir: -“Caesar Park!” Ela o fitou nos olhos, indignada: -“Residente de cirurgia do Ceará que nada! Caesar Park!” Ele saiu a argumentar numa seriedade desconcertante, dado o exaspero: -“Mas, meu amor” – já era íntimo da pequena – “quem está pagando é o hospital!” E passou-se mais meia hora até ela acabar por concordar novamente.
          ​No hotel foi tudo uma delícia. Três horas de sexo mais tarde, ela anunciou que era chegada sua hora de partir. Ele, que sempre gostava de sair no lucro, pediu que antes de sair lhe fizesse uma massagem. Ela não se opôs, e sacou da bolsa um desses hidratantes cujo odor apela aos mais lascivos pensamentos. Pondo-o de bruços, espalhou-lhe o creme por todo o corpo enquanto o massageava.
          ​Dormiu como um santo. Acordou tarde. Tinha pressa em assear-se. Queria assistir ao congresso. Mas, ao dirigir-se ao banheiro, passou a perceber no ar os olores do creme da pequena. Pior: - sentia-lhe o cheiro agradável no pijama. Despiu-se e o levou ao nariz, primeiro a parte de cima, depois a de baixo. Queria saber de onde vinha o cheiro do pecado. Concluiu sem sombra de dúvidas: - era de ambos.
          ​O relógio marcava quase nove e meia. A mulher chegaria ao meio-dia. Correu ao telefone e chamou a recepção, solicitando a troca do apartamento. Não seria possível, o hotel estava lotado. Pediu, então, que lhe enviassem a camareira com a máxima urgência. A moça chegou logo depois. Foi logo dizendo: -“Huuummm, doutor! Victoria Secrets!” Ele entrou em pânico, ainda que não fosse possível se perceber. Seu coração vinha à boca. Puxou uma nota de cinqüenta e ordenou à jovem que limpasse tudo e instilasse no ar tudo o que fosse possível para remover o cheiro do Victoria Secrets. E rápido!
          ​Ela deu conta do serviço, enquanto ele desceu ao desjejum. Com efeito, não se sentia mais o cheiro lúbrico do creme. Súbito, lembrou-se do pijama. Enviá-lo à lavanderia do hotel levantaria suspeitas na mulher, tinhosa por sabedora da peça com quem casara. Decidiu: - ele mesmo o lavaria ali, no banheiro do quarto, e o secaria à luz do abat-jour e à saída do condicionador de ar.
​          Meio-dia em ponto chega a mulher. Dali a pouco, mexe daqui, mexe dali, e encontra a calça do pijama ainda úmida. Quis saber. Antes de responder, por uma fração de segundo, pensou: “Mulher é um bicho que tem pacto com o demo!” Sofria de colite. Vez ou outra se esvaía em diarréias humilhantes. Acontecia com freqüência em viagens.
          ​-“Pois é, minha filha... eu não ia lhe contar. Mas, já que você perguntou, o que aconteceu foi o seguinte. Hoje ao acordar, deu uma daquelas vontades inadiáveis de correr ao banheiro. Você me acredita que não deu nem tempo??!! Tive uma daquelas que sai por cima e por baixo. O jeito foi lavar a roupa aqui mesmo. Tive vergonha de mandar a roupa à lavanderia...”
          ​Fazer o quê? Se farejou a essência delatora, guardou a impressão para si. Virou-se e abriu o refrigerante que tinha à mão. Pelo menos o quarto não cheirava a fossa.

Fernando Cavalcanti, 17.09.2009