quinta-feira, 17 de julho de 2014

A LUZ NO FIM DO TÚNEL

      Justo hoje conheci o Geraldo, o homem dos cinco casamentos. Há algum tempo escrevi sobre o amigo Chico e sua disputa ferrenha com a Liz Taylor. Se não me trai a memória, li outro dia que esta velha senhora estava para contrair núpcias junto a outro varão vigoroso; e vai deixando o querido Chico no chinelo. Justo ontem me entregam em casa a Veja com a matéria da capa que assegurava: “Casar faz bem”.
            Hoje, durante caminhada pela Avenida Beira-Mar, conheço, através de meu amigo João, o Geraldo. João muito dele já havia me falado. A propósito, essas caminhadas fazem bem ao físico por irem bem à fofoca, que é uma atividade apreciadíssima entre nós. A fofoca durante a caminhada aumenta a capacidade respiratória, o volume inspiratório final e a expansão pulmonar; e diminui o volume residual. Eu até diria que uma caminhada regada a fofoca equivale exatamente a uma corrida à média velocidade. O Geraldo já fora objeto de nossa fofoca. E ninguém teve o menor pudor em admitir: -“Esse aqui é o Geraldo, aquele dos cinco casamentos!”, soltou o João à língua frouxa. Geraldo abriu um sorriso amarelo. Depois soube que aquele sorriso embaçado não seria por constrangimento dos cinco casamentos. A razão era menos óbvia, e só vim a descobrir um pouco mais tarde, dali a alguns minutos: - Geraldo estava tão triste quanto um pavão ao olhar para os pés.
            Ora, se casar faz bem, o Geraldo entristecia-se por sua última separação, há três míseros meses. Fazia o maior sentido. Passei a pensar que o matrimônio faz tão bem, mas tão bem que, após cinco enlaces, o jeito era o Geraldo arranjar outro o mais rápido possível. Dir-se-ia ser feliz o Geraldo apenas e somente quando enfronhado em núpcias. Fora delas era um bolha, um trapo, um pano de chão. Geraldo, pelo que pude apurar, é desses varões estrogênio-dependentes, os quais não se contentam com pílulas e outros sintomáticos. Só uma coisa resolve: - a companhia de uma vistosa mulher vinte e quatro horas ao dia, sete dias por semana, trinta dias ao mês, com direito a mais um dia nos de trinta e um.
            João fazia considerações aqui e ali e, como a vir em socorro do amigo inconsolável, já confessava seu próprio e recente desgosto por ter flagrado a ex sua mulher com o atual namorado. Admitiu – uma corrente de frio lhe subiu a espinha à visão da cena. Definitivamente não lhe foi uma boa experiência. Também pudera!, assegurou: - não fazia sequer um ano do desenlace. Geraldo sorria o sorriso amarelento à intervenção cumpliciadora. Confessou mais: - tomava “remédios”. Foi quando o homem dos cinco casamentos mostrou a boca cheia de dentes – finalmente um sorriso aberto e legítimo para o fiel cúmplice de infortúnio. Cá entre nós – e baixamos a cabeça numa rodinha de três: -“Bebo todo dia!”, confessou o pobre diabo. E já desfazíamos aquele conluio público em pleno calçadão quando nos puxamos cada um pelo braço e, quase cochichando: - “E não cozinho, nem lavo, nem passo!” Concordância e cumplicidade geral: nem eu, nem eu, nem eu! Alguém – acho que eu – comentou: -“Lavo e enxugo a louça!” O Geraldo balançava a cabeça numa negativa veemente e raivosa, ainda que discreta.
            João sugeriu que o Geraldo se chegasse mais a mim. Segundo ele, sou um sujeito “bem relacionado”, conheço muita gente, e até os garçons gostam de mim. Geraldo sorria novamente como se enxergasse uma luz no fim do túnel onde, ao final, só haveria outra mulher e outro divórcio. E, ao que tudo indicava, por um desses lances mágicos do destino, justamente eu seria a luz do fim do túnel do Geraldo.
Sugeri começar apresentando-lhe os garçons. João queria que eu também lhe apresentasse as amigas. Ora, se lhe apresentasse as amigas, não demoraria muito e estaria casado. “Casar faz bem”, mas não ao Geraldo, quero crer. (Quase) todas as amigas querem casar, é ponto pacífico. Seria pôr as ovelhas sob a guarda do lobo. Ou seria juntar o pão e a manteiga numa combinação perfeita. Afinal, para que servem os amigos? O homem sofria cada vez mais a cada casamento desfeito. Seria possível que cinco mulheres fossem defeituosas e o Geraldo perfeito? Nem pensar em sugerir um psicanalista! O amigo era recente, podia mal interpretar a sugestão.
Se não eram os garçons nem as amigas, como a luz do fim do túnel ajudaria o Geraldo? Sugeri que, uma vez em casa, na solidão do divórcio, ligasse ao mesmo tempo a TV, o rádio, o liquidificador e que desse descarga nas privadas a cada cinco minutos. Mudei o intervalo de tempo das descargas tão logo percebi a gafe – tudo o que diz respeito ao algarismo ou número cinco lembra as cinco mulheres. Consertei: -“Dá descarga a cada sete minutos”. E fui além: - sugeri que, se as portas dos quartos rangessem, as abrisse e as fechasse, saindo de um aposento e entrando em outro. Aconselhei-o a abolir a música. Nunca, jamais, em hipótese alguma devia ouvir música. Música fala ao coração e o do Geraldo estava qual um pano de chão surrado e amarfanhado. A recaída seria inevitável. Portanto, música nem pensar! Ah! E ligasse o rádio à hora da propaganda eleitoral – nem sei se vai ao rádio – ou à Hora do Brasil. Melhor ainda: - se tivesse um antigo aparelho de som, poderia gravar a Hora do Brasil todos os dias, e ficar a ouvir o gostoso noticiário noite adentro.
E assim nos despedimos. Estava a brilhar a luz no fim do túnel. Do calçadão saí cheio de mim mesmo. Penso até em abrir um consultório de aconselhamento pós-matrimonial. Serei a luz do fim do túnel de uma penca de geraldos...!


Fernando Cavalcanti, 24.08.2010