segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

DESPEDAÇAR-SE SEMPRE...

          Vejam os amigos o que acontece ou, melhor, o que não acontece quando o indivíduo se recolhe em si mesmo. De fato, o que acontece, nessas circunstâncias, só acontece no universo interior do indivíduo. Esse universo único é povoado de pensamentos, sentimentos, impressões, anseios, dúvidas... O universo interior de cada um é o palco das idiossincrasias e incoerências, das especulações, das certezas e incertezas... Tudo o que lá acontece afeta nossa vida interior e o modo como sentimos, pensamos e vemos o mundo. Nenhum fato lá ocorre. Assim, fácil é perceber que, se se pretende escrever sobre fatos do mundo real, não se o conseguirá vivendo uma vida inteiramente interior. 
         Por exemplo, comigo. Pouco antes do segundo turno das eleições presidenciais deste lamentável país, tomei a firme decisão de não acessar informações veiculadas pela mídia. Ora, façamos a pergunta inevitável e cuja resposta tem a aparência do óbvio: – o que é a mídia? Resposta: – tudo hoje é mídia. Até um amigo que traz uma informação pode ser considerado uma "mídia". 
          Estava eu a conversar com amigos ali no hospital e um deles disse: –"O Pelé melhorou"? Longe de toda e qualquer "nuvem" de informação, perguntei: –"Pelé está doente"? E foi assim que soube que o rei do futebol estava internado no CTI. Imagino que toda a imprensa escrita, falada e televisada esteja dando conta da doença que acometeu o Pelé. Ontem Bella me contou, tristinha: –"Morreu o Chaves"... Disse-me que o assunto está estampado na rede social e é uma choradeira só. Assim, a rede social é também uma "mídia". 
          Agora, vejam a impressão que causaram em mim a doença do Pelé e a morte do Chaves. Ademais, a informação dando conta de determinado fato ou evento nunca preenche todo o nosso continente de conhecimento. Não satisfeito, perguntei: -"Quantos anos tem o Pelé"? Disseram: -"Setenta e cinco". Dei-me conta, então, de como está velho o rei do futebol. A Bella perguntei: -"Mas... já não havia morrido o Chaves"? Ela respondeu: -"Essa é a primeira e única vez que ele morre"... Assim, a conclusão a que cheguei, para minha tristeza e alerta, é que o Pelé é hoje um idoso e que o Chaves é hoje um cadáver. Triste e humilhante sina é a do ser humano, mesmo o mais famoso, mesmo o mais endinheirado... Não pude deixar de pensar em como estaria melhor se houvesse permanecido em minha cava e profunda ignorância. Poupar-me-ia a ciência de verdades tão contundentes e irremediáveis.
          Bem se vê que os fatos estão fora do indivíduo, ao passo que, no mundo insondável de cada um, não há fatos, nada "acontece". Assim, um sujeito como eu, que escreve sobre fatos e comenta sobre eles, fica num mato sem cachorro quando resolve se enclausurar em si mesmo. A única alternativa que resta é escrever sobre seu mundo interior que, a partir de então, de insondável nada tem. Há que tomar uns comprimidos com doses cavalares de coragem e de destemor. 
          Entretanto, após uma breve reflexão chega-se a uma conclusão inexorável, qual seja, a de que não há como separar os fatos exteriores de nosso universo interior. A não ser que gastasse o tempo inteiro a dormir, o ser humano está permanentemente a cotejar uma vida e outra, um universo e outro; está continuamente a comparar o que sente e o que pensa com os acontecimentos da vida, como se se medisse em tempo integral, como a comparar o que crê com os fatos do mundo "real". Assim, dessa forma, o máximo que se pode conseguir ao bloquear as informações provenientes das mídias é, na verdade, bloquear uma pequena parte dela. Nunca, enquanto vivo for e se não estiver em coma, o ser conseguirá fugir à esmagadora presença dos fatos, à inexorável realidade que nos rodeia e que não arreda pé. 
          Mas... Por que incorri nessa divagação aparentemente destituída de nexo? Garanto: – foi absolutamente involuntário. Ou, talvez, não tão involuntário assim, posto que aí estão descritos os freudian slips, os atos falhos, definidos como verdadeiras "traições" que o indivíduo perpetra contra si mesmo, permitindo que venha ao conhecimento de outros aquilo que quer, de fato, manter em sigilo, como a avalanche que desce a montanha arrastando o que encontra pela frente. Talvez quisesse autoexplicar a mim mesmo o porquê de tão pouca inspiração para escrever quando, no mundo real e, principalmente, no universo interior permanece tanto a ser dito. Ora, há escritores que não se intimidam frente às próprias repetições. A elas retornam sem medo e sem dissimulações apenas para revisitar aquilo que para eles é, digamos, cláusula pétrea e, como tal, devem ser sempre expostas a fim de que não esqueçam a sua razão de escrever. Devo confessar que a mim me escapou, a princípio, essa clara e cristalina verdade. 
          Entretanto, assumo que possa ter-me confundido, levado justamente pela mesmice dos fatos do mundo real. Sim, o mundo real – fácil é perceber que mesmo o mundo real de alguns é inteiramente diverso do de outros – é de uma mesmice entediante. Da mesma forma, o mundo real ou os mesmos fatos impactam de forma diferente diferentes pessoas. O que a mim parece ser uma repetição torturante do mesmo, a outro parecerá uma melodia de variações diversas tocada em tonalidades diferentes. 
          Em todo caso, digamos a verdade: – não me importa o que o outro vê ou sente quando estou para deitar ao papel o que eu vejo e sinto. O que escrevo é como um pedaço de mim que se desprende de meu "eu"; é como um fragmento do meu ser que deixo para trás imorredouramente. Assim, importa o que eu vejo e sinto, e só. Cada um que dê vazão ou guarida ao que é seu. De mim sei eu, e ainda que dissesse que de mim não sei, ainda seria eu quem deveria buscar-me e achar-me ou, ainda, deixar-me ir de vez. Certa dia disse-me o amigo Glauco Kleming: –"Só a arte transcende a vida". Num contexto de vida humana condenada a se perder para a morte caso não haja ressurreição, de fato só a arte transcende a vida. De algum modo será verdade a afirmação do amigo. O tempo dirá. Enquanto não chega o tempo, "só a arte transcende a vida", e vou me despedaçando de mim mesmo nessa estrada, como os restos de minhas células mortas que abundam sobre meu leito e sobre o chão onde habito. 
          Se não escrevo, me empanturro de meu mundo insondável e não me "despedaço" como devo, correndo o risco de carregar às costas e – pior! – na alma a tralha que o mundo defeca, incorrendo-me no perigo de me contaminar e me putrefazer como a maioria dos homens. As repetições que porventura repita são inexoráveis porquanto as fezes do mundo hão de ser sempre as mesmas dia após dia, todos os anos de uma vida, e mesmo que diferentes seres sintam de diferentes modos o mau cheiro que daí exala.