quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A IGNORÂNCIA INERCIAL

          Hesito justamente porque não sei bem por onde começar. Todo começo é difícil e este não poderia ser diferente. Vejam que poderia começar definindo o que chamo de ignorância inercial. 
          Ora, ignorância inercial remonta-nos aos bancos do ginasial, onde aprendíamos os conceitos da física newtoniana. Os que não gostavam do tema que me perdoem, mas a compreensão da expressão requer um mínimo de entendimento da matéria da qual não gostavam. E para que se não diga que sou um sujeito petulante e metido a besta, dou uma ajudinha. É o seguinte.
          Inércia, no contexto da física, é a tendência de todo corpo a permanecer como está, na ausência de uma influência externa. Assim, inercial é aquilo que se refere a essa inércia. Ignorância inercial seria, então, uma tendência a permanecer ignorante, uma vez que já se o foi um dia.
          Com efeito, todos já fomos ignorantes um dia, no sentido mais puro e nada pejorativo do termo. Também já fomos imbecis, idiotas, estúpidos, trogloditas e o que quer que se queira mais dizer do ser humano quando na verdura dos anos e, insisto, ainda muito longe do sentido pejorativo. À medida que passa o tempo, entretanto, o pejorativo passa a fazer parte de nossas possibilidades e probabilidades porquanto se nos achegam os vícios e os maus pensamentos. Tornamos-nos, de puros e inocentes imbecis, nos mais hediondos idiotas.  A pureza e a castidade nos abandonam em algum momento, o mais provável paulatinamente, e passamos, qual o híbrido da égua com o jumento, a azurrar e relinchar. A partir de então saímos a ornejar nos púlpitos, nas páginas dos jornais, nos palácios governamentais e nas câmaras legislativas, e até em livros considerados, depois, obras de arte de cunho elevadíssimo que se tornam best-sellers mundo afora. Mas a coisa não para por aí. 
          Os ignorantes inerciais mais legítimos, aqueles que padecem da ignorância inercial que acabamos de definir e descrever, não se encontram na categoria dos que escrevem livros ou dos que compõem músicas que ganham festivais, mas entre os que se perdem nas plagas comuns da vida, entre aqueles que estão correndo a toda velocidade no match que Robert Kiyosaki chamou de "a corrida dos ratos". Estes aí são também os mais vulneráveis a sofrer sob a influência angustiante e enervante do "efeito manada". São médicos, professores – esses principalmente! –, advogados, enfermeiros, dentistas, engenheiros e, os campeões da ignorância inercial e do corporativismo, os funcionários públicos. Para bem caracterizar a liderança incontestável do funcionário público no quesito ignorância inercial, lembro aos poucos e minguados leitores o que me cobrou certo dia o meu amigo Ciro Cialini. Aos que não se lembram, faço um sumário do episódio.
          Outro dia, estávamos ali no hospital meu amigo Ciro e eu a prosear durante uma  pausa para um café, quando ele me interpela e afirma categórico:
          –"Mas, olha, és funcionário público e funcionário público tem que ser 'de esquerda'"!
          Eis aí, numa única reprimenda, toda uma concepção, toda uma idéia e, mais que uma idéia, toda uma lição sobre ignorância inercial. O Ciro, expoente da Cirurgia Cardíaca deste glorioso Ceará, alimenta com lagosta e camarão a noção de que todo funcionário público tem que, obrigatoriamente, ser "de esquerda". O diabo é que há uma claríssima explicação para o modo de pensar de meu amigo, ele próprio funcionário público ao mesmo tempo que é dono de seu próprio negócio.
          É do conhecimento geral que o Brasil é o país do funcionário público. Verdade seja dita. Em que pese o discurso muitas vezes propalado em nossa marrom e bairrista imprensa de que somos um país de empreendedores, sabe-se que o país tem um dos piores ambientes de negócios do mundo. O sujeito que se aventura a montar o negócio próprio por aqui é, antes de mais nada, um sonhador inveterado e renitente para depois se tornar, dentre os poucos vencedores, um teimoso e, quando perdedor, um nostálgico arrependido, esses a esmagadora maioria. Por isso ensinamos nossos filhos a estudar, tirar boas notas, ir para a faculdade e fazer um concurso público. 
          Como um salutar, competitivo e pujante ambiente de negócios representa a alma do capitalismo, e como não estamos dispostos a competir perenemente, preferimos concorrer apenas uma vez na hora da prova para a repartição pública onde pretendemos trabalhar. Competir a vida inteira, renovar idéias, criar e recriar novos sistemas é coisa que não faz parte de nossa "tradição" e cultura laborativa. Assim, fica bem explicadinho o porquê de não sermos, nem por decreto nem por vontade de qualquer ditadura, um país capitalista. Por isso somos uma massa de funcionários públicos que vive a reivindicar melhorias salariais em greves intermináveis e entediantes onde discursam aqueles que um dia pretendem se candidatar a alguma função política. Eis aí porque funcionário público e esquerdista se tornaram, no Brasil, sinônimos. Ao Ciro, sendo empresário e funcionário público, pesa bem mais ser o último, posto que aí reivindique vantagens perenes ao seu contra-cheque enquanto dia após dia, todos os dias, vai ao caixa do banco pagar as intermináveis e cumulativas obrigações tributárias que o governo lhe exige. Conclui, sem dificuldade, que o bom mesmo é ser o assalariado, posição que dói apenas pelo diminuto e injusto provento ao fim do mês, enquanto como empresário as dores são diárias e nada compensadoras.
          Dito isso, fácil fica demonstrar que somos um país de ignorantes inerciais. Dizem lá os estudiosos que "cultura é o modo como fazemos as coisas por aqui". Pois bem. O modo como fazemos as coisas por aqui traduz a nossa maneira de pensar, resultado de nossa ignorância primeva. Pensamos o país como um grande feudo onde o poder central toma conta de todos. Qualquer coisa diferente disso é taxada de "capitalismo" e deve ser repudiada. 
          Há mais. Por conta do pensamento inerente ao funcionalismo público, só pensamos em nossos direitos. Ato contínuo, pensamos o país como o provedor de todos os direitos a que nos convencemos serem nossos. Como ganhamos uma miséria, vingamos-nos do governo e de nossos concidadãos decretando, irrevogavelmente, o fim de todos os nossos deveres. Somos direitos e mais direitos, e somente direitos. Não falamos em deveres. Chegamos ao cúmulo de subverter e inverter o que disse John Kennedy. "Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país", eis o que ele disse. 
          Vivemos a indagar e a cobrar por nossos direitos, precisamente por o que o país pode fazer por nós. Em contrapartida, nada queremos fazer pelo país. Às favas o país. Que o digam os cerca de 30 milhões de brasileiros aptos a votar no último pleito e que se abstiveram, ou anularam seu voto, ou votaram em branco. Com o país soçobrando na mediocridade educacional, no caos econômico e social, na barbárie da ausência de leis, esse mar de gente deu-se ao luxo de ignorar a importância de seu voto diante de um momento divisor de águas. Nem falemos naqueles mais de 52 milhões que disseram "sim" a toda essa desordem, a toda essa parafernália "cultural". Sim, porque o partido do governo não é um partido; ele representa uma cultura, tal qual a definição acima. Ele representa "um modo de fazer as coisas" absolutamente subversivo para a ordem, como bem demonstram todos os números e índices e, mais que os números e índices, como bem demonstram as mudanças para pior na vida das pessoas.
          Somos um país sem deveres. Em nome de uma "dívida histórica", herdamos um país de direitos, e de direitos somente. Podemos matar, roubar, prevaricar, corromper porque é nosso direito fazê-lo. Não temos nenhum dever. Nossa ignorância inercial exige, manda, determina que somos um povo condenado a suprimir nossos deveres e exaltar nossos direitos. Por isso nosso contrato social promove o caos e a desordem. Rousseau diria que o brasileiro foi o único povo que renegou suas idéias por pensar e levar a cabo o primeiro e único "distrato social" de que se tem notícia.