segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

MENTES HERMÉTICAS

Quando muito se pensa, muito se pensa. E pensar não é lá uma tarefa fácil. Pensa muito quem muito está consigo mesmo, em silêncio, sem as intromissões frequentes ou ocasionais d’algum intruso. Por isso não é fácil pensar – há sempre intrusos a nos desviar a atenção. Cuidem lá não se pensar que me refiro a alguém. Muitas e muitas vezes o intruso é um objeto ou um aparelho – um telefone, um rádio, uma televisão. Conheço uma penca de gente admiradora e espectadora da novela; exemplifica da vida o que ocorre na novela; marca o compromisso para depois da novela; chega à casa a tempo de e correndo para ver a novela. Eis, então, a novela a servir de intruso.
            Eu queria escrever e não conseguia. Não tinha sobre o que escrever ou, melhor, tinha tanto para dizer que já nem sabia por onde começar. Tantas coisas estão a acontecer, e tantos estarrecimentos a me impactar que não sabia por onde começar. Nem sabia se devia começar. Os sinais que capto me dizem que seria um bom momento a ficar calado. Só pensar. Não tenho intrusos a me distrair. Não os permito. Os dois monitores de televisão que tenho ficam calados quase todo o tempo. Escolho não ouvi-los. Nem permito que a novela exista para mim. Alguns amigos e amigas se referem, quando saio a encontrá-los, a algum personagem da novela e minha ignorância fica patente em minha cara de imbecil.
            Já bati em tantas e tantas teclas que, mesmo assumindo minha obsessão para justificar-me, desisti momentaneamente de voltar a trazê-las à baila. Muitos desses temas requerem o tempo a lhes emprestar a força do argumento com o qual argumentei. Ainda assim, temo que este mesmo tempo de nada sirva. Ora, percebi inúmeras vezes que muita gente não entendeu bulhufas do que escrevi; ou entendeu o sentido oposto. Ou – pior! – entendeu o que nitidamente seu pré-conhecimento lhes ordenava entender. Percebi, então, a verdade contundente: não se lê com a mente aberta. Não generalizemos: muitos não leem com a mente aberta. Dizendo de outra forma: muitos leem com a mente da pré-conceituação e do dogmatismo. Por isso, o que quer que esteja escrito, será lido sob a lente de tais amarras.
Ainda hoje, no hospital, me dizia o meu querido Ciro Ciarlini: -“Nenhum de nós presta!” Queria ele informar da constatação antiga: todos os seres humanos estão em falta. Todos nós erramos. Dito assim, parece que o amigo estava a ventilar o óbvio. Falávamos dos que vivem a pelejar no mesmo erro. Ora, há os que erraram e mudaram. Há os que cometeram injustiças e cujo sono lhes fugiu ao peso do remorso e da ânsia do perdão. Há estes que experimentaram o fel de praticar o mal. Meu amigo falava daqueles cujo mau ato causa-lhes gozo e deleite. Há também daqueles. E há também a imensa maioria dos que se amoldaram desde o princípio. Nada questionaram. Não se refizeram. Não se reconstruíram. Encontraram nos dogmas seculares seu regozijo e felicidade. Aceitaram-lhes sem um rabisco de correção ou dúvida. São destituídos da prazerosa curiosidade, mesmo com as evidências a lhes esmagar as ideias; mesmo com os gritantes e eloquentes sinais dos malefícios de seus acalentados dogmas.
São tempos difíceis. Ou talvez nem o sejam tanto assim, não diferente de algo que tenha ocorrido tantas vezes no passado. O que se pode aprender em setenta ou oitenta anos? Quem, em sã consciência, se habilitaria a remover de cima de si mesmo um entulho de toneladas de dias e anos? É preciso ter coragem ou não dar tanto valor assim à vida. É preciso ter coragem.
Eu não sabia sobre o que escrever. E escrevi sobre nada. Quem puder entender talvez diga que escrevi sobre tudo.

Fernando Cavalcanti, 23.09.2010