domingo, 21 de dezembro de 2014

A VERDADE ANDA NUA

          Veio à mesa onde eu estava com amigos. Disse: 
          –"Quero falar contigo... Vem aqui um bocadinho"?...
          Assenti num gesto com a cabeça e o acompanhei. 
          Sentamos-nos um defronte o outro. A mim era uma situação no mínimo engraçada, eu ali com aquele deplorável e petulante sujeito. Metido a besta, seguramente tinha de si a mais elevada expectativa, os mais elevados conceitos. Tudo muito diferente do que eu pensava. Digamos que não seja correto julgar-se alguém, mas esse sujeito tornava isso bem difícil, posso garantir.
          Foi direto ao ponto: 
          –"Ouvi dizer que escreveste um texto falando mal de mim"... 
          Fez uma breve pausa e completou: 
          –"É verdade"?
          Devo fazer uma confissão. Com efeito, devo fazer mais de uma confissão. A primeira é a de que não sou indivíduo dado a conflitos corporais, mas reconheço que o chavão que diz que quando um não quer dois não brigam é a mais cristalina mentira. Se um quiser meter a mão nas fuças do outro, nada impedirá. Assim, é preciso se utilizar de alguma paciência e sobretudo inteligência se quiser evitar ser esbofeteado, inda mais quando se está diante de um sujeito que mede o dobro do seu tamanho. 
          A segunda é que não, não escrevi nenhum texto falando mal do referido elemento. A verdade é que havia escrito, algum tempo antes, um texto onde assumo ter para com ele todas as reservas do mundo. Nada mais, nada menos. Não o taxei de idiota, ou desonesto, ou qualquer coisa semelhante. Disse apenas que não gostava dele, e ponto final. 
          Por isso respondi-lhe na bucha, e muito tranquilo: 
          –"De forma alguma". 
          Ele insistiu. Alegou que alguém havia lhe informado que, de fato, o texto não mencionava o nome de ninguém mas que, assegurou-lhe esse alguém, todos sabiam que o sujeito em questão, a quem eu me referia e de quem não gostava, era ele mesmo. 
          Numa fração de segundo ponderei que não havia porque eu lhe confessar meu desgosto por ele, e por uma simples e óbvia razão: – ele seguramente sabia o que eu sentia,   ou melhor, o que eu não sentia por ele. Alguém quererá saber como ele poderia saber, e direi que qualquer pessoa sabe, e sente, quando alguém não gosta dela. 
          Não satisfeito, retornou:
          –"E sobre quem escreveste? quem é essa pessoa sobre quem escreveste"?
          Respondi-lhe olhando-o firme nos olhos:
          –"Rapaz, essa é uma questão extremamente pessoal e me resguardo o direito de não revelar o que não foi revelado no texto". 
          Bebi um gole da cerveja que trazia à mão e finalizei:
          –"Era só isso"?
          O homem, então, passou a "encher linguiça". ("Encher linguiça", cá no Ceará, significa conversar assunto sem importância, conversar conversa tola ou absolutamente desinteressante.) Uma sensação de infinito tédio passou a se apoderar de mim, de modo que já nem prestava atenção ao que dizia. Dali a pouco nos despedimos.
          Relatei o episódio acima apenas para me referir à rede social. A rede social, ao menos avisado, é uma armadilha tentadora. Enquanto na vida real somos, vez ou outra, impelidos ou obrigados a situações adversas como a que acabo de me referir, na rede social a armadilha é a exposição desmesurada e – pior! – a exposição necessária ou, dito de melhor forma, a incontida necessidade da exposição. 
          Há de existir pelo menos um psicólogo a estudar as razões que nos causam essa necessidade e aguardamos ansiosamente a conclusão de tão esclarecedor estudo. Por hora, apenas a constatação há, a menos que esteja desinformado, o que não seria uma surpresa visto que, hoje, sou um sujeito que foge da  informação como o demo foge da cruz. Alguém dirá que vivemos à era da informação e que informação é tudo, e direi que sim, é verdade. Vivemos, com efeito, à época em que informação representa a diferença entre o bem e o mal, entre a abundância e a escassez e até entre a vida e a morte. O problema é que, justamente por ser de importância capital, a informação virou produto semelhante a qualquer outro produto na vitrine ou na banca do supermercado. Há a informação classe A, que traduz a verdade e, por isso mesmo, útil, e há a informação classe Z, que nos conduz ao equívoco e ao erro. 
          Os amigos a essas alturas hão de estar de cabelo em pé, temendo por mim. Por isso, em alto e bom som declaro: – não é para tanto e, garanto, não é para tanto. Rejeito a informação sim, mas a informação que me trazem sem pedir, que me oferecem gratuitamente ou que me trazem por uma pechincha. Essa informação, grosso modo, é como o produto exposto à vitrine. A informação útil, para mim, no meu melhor entendimento, é a que busco, a que pago caro por ela, a que não está tão na vista assim. A informação "consensual", a informação "popular" está, toda ela, contaminada e mais que contaminada, está infectada com o cancro do ideologismo e da ignorância. 
          Pode parecer incoerente que uma informação traga ignorância, mas é exatamente isto que está a ocorrer. Não há de ser a primeira vez que isto acontece na história do mundo. Basta lembrar do Goebbels e sua máquina de propaganda. De fato, o Goebbels montou um rolo compressor destruidor de úteis e boas informações e construtor de um castelo de mentiras e equívocos cujo caráter se expôs ao final. É justamente algo semelhante o que estamos assistindo no momento. 
          Sim, sim, a rede social propaga a informação-exposição absolutamente inútil, mas também propaga a informação ideológico-ignorante. Sejamos justos: – eventualmente, não raramente, nos deparamos, na rede social, com a informação boa e útil, mas essa lá é rara. O que abunda na rede social é a informação-exposição e a informação ideológico-ignorante e, diria até mais; diria que a rede social está, cada vez mais, produzindo informação semelhante àquela fornecida por nossos jornais. Como sabemos, a informação de nossos jornais é podre e superficial, ideológico-alinhada e absolutamente incrível. Eis aí, verdadeiramente, o que nos proporciona a rede social em matéria de informação. 
          Alguém dirá que muito estranho é que justo eu esteja a fazer tais considerações; justo eu que me exponho as entranhas em textos que mais se assemelham a um corpo submetido a vivisseção ou a um cadáver semidecomposto à margem da estrada... Direi que minha exposição é a da catarse, necessária à minha saúde mental e física, um processo fisiológico inerente à mente e ao coração... Diria que, ademais, os textos não são informativos, não pretendem informar. (Há em mim a arraigada consciência sobre o quão grave e sério é informar. Por isso e por necessitar submeter toda informação ao crivo dos fatos e das provas, não me permito informar. Os jornais, órgãos cuja missão principal é informar, o fazem sob fortíssimas suspeitas de subserviência, favorecimentos e, o mais grave, omissões.)
           Imaginem se eu, inutilmente e levianamente, revelasse meu desgosto e reservas pelo fulano de tal do qual falei ao início? Seria, talvez, alvo de um processo ou de uns bons sopapos e solavancos. É preciso manter-se à parte de litígios inúteis assim como das informações de semelhante caráter. Ambos nada acrescentam e em nada ajudam. Sua existência deve ser admitida, mas a compulsão para declará-los deve ser controlada. Não devemos tentar convencer ninguém de que estão no mau caminho. Eles, por sua vez, pensam o mesmo dos que estão ao lado da informação correta. 
          Quem quiser saber se está baseando suas decisões e sua vida em informações corretas que espere. O futuro dirá. A mentira tem pernas curtas, muitas facetas e vestidos, ao passo que a verdade anda nua. Por isso mesmo ela escandaliza.