domingo, 24 de maio de 2015

OS BOBES DO FÁBIO MOTTA?

          Os que me leem há algum tempo sabem que sou um sujeito que sazonalmente guarda certas obsessões. São, portanto, fixações temporárias e passageiras. Nada que a ausência de um bom psicólogo não resolva. Ademais, é frequente que tais ideias fixas sejam ligadas a algo com que eu me divirta. Com elas não tenho pesadelos; com elas dou, isso sim, boas risadas. Fiquem, pois, os leitores tranquilos quanto a minha saúde mental.
          Devo dizer, caso alguém ainda esteja a desconfiar de minhas justificativas, que tais obsessões são, de fato, obsessões nas obsessões alheias. Por exemplo, o meu amado amigo Fábio de Oliveira Motta.
          Antes de continuar, uma breve explicação. Sou dos sujeitos mais agraciados com amigos que me seguem da infância até hoje. Vejam bem: não reencontrei recentemente amigos que há anos não via. Repito para que não persista dúvida: tenho amigos cuja vida é comigo compartilhada desde a infância. A fim de dar uma ideia do que digo, afirmo que tenho amizades cuja convivência já ultrapassa os 40 anos. Esses sujeitos são irmãos que a vida me presenteou desde que me entendo por gente. O Fábio Motta é um deles.
          Assim, e voltando às minhas fugazes ideias fixas, o que parece ideia fixa é, de fato, a persistência da amizade a me incitar e a me dar prazer. O amigo que é irmão é mais íntimo do que o irmão de sangue. Dele se conhece a dor, o prazer, a saudade, o passado, o presente e o futuro... e as idiossincrasias mais intrigantes e curiosas. E quando acontece de o amigo ser daquelas figuras ímpares, aí a coisa toma ares impoderáveis. Pois é justamente aí onde se encaixa o amigo Fábio Motta.
          Outro dia, não faz muito tempo, escrevi sobre ele – com efeito, e para ser o mais sincero possível – escrevi sobre ele umas quantas vezes. Na última falei sobre a mudança radical em seu lifestyle. De homem de paletó e gravata transmutou-se em garotão de sungas e t-shirts aderentes, deslizando diariamente sobre ondas ferozes em manobras radicais e espumosas; do homem sem tempo de antes, o Motta é hoje o homem cujo relógio biológico anda para trás; dos uísques bebidos freneticamente em quantidades nada moderadas, passou a beber açaís e vinhos rebuscados, preocupadíssimo com a proporção Gay-Lussac. Além do surf, Motta pratica a natação e entrou para um curso de apneia. Acorda e dorme cedo. Tornou-se, enfim, a antítese do que era até há bem pouco tempo.
          O que ocorre é o seguinte. Ao começo do mês fiz 54, e saí a celebrar com amigos a data festiva. Fomos a um restaurante. Depois de dar a desculpa indesculpável de que se atrasaria por já nem me recorda a razão, chega o Motta. Apresentava-se mais magro, usando a indumentária do adolescente que nele agora habita. De tão magro que está, surgiram-lhe marcas e linhas do tempo nas faces coradas. Os cabelos, escassos no alto do crânio, abundam em densidade e tamanho nas partes laterais e posterior da cabeça de modo que, suspeito eu, seria bem possível prendê-los com um desses objetos que as mulheres se utilizam justamente para lhes trazerem presos no que se conhece como “rabo-de-cavalo”. A vultosa e macia cabeleira de nosso Motta termina em ondulações abruptas que se assemelham a cachos, dando a seu dono a aparência do que se conhecia aos anos 60 como “o playboy” ou, sendo fiel à boa gíria da época, “o rabo-de-burro”. (Notem que rabo-de-burro e rabo-de-cavalo nada têm em comum, exceto o aspecto morfológico.)
          Conversa vai e vem, comecei a observar o novo hábito que o nosso querido Motta adquiriu no esteio de sua mudança exterior. (Digo isso imbuído de grande alívio já que uma mudança no amigo, por menor que fosse, na personalidade e no caráter haveria de ser considerada por nós, seus mais diletos irmãos, uma tragédia enorme.) Sentou-se defronte a mim, de modo que não pude deixar de apreender todos os detalhes de seu novo sestro. Como os cabelos do homem lhe caem por detrás das orelhas, já que à frente delas permanecem suas vetustas, vistosas e bem cuidadas suíças, adquiriu o hábito de mexer com os cachos que lhe pendem por detrás do pavilhão direito, prendendo-os entre os dedos da mão ipsilateral ao mesmo tempo em que os faz deslizar para baixo como a tentar endireitá-los e esticá-los. Noutras vezes se perde a enrolá-los, numa manobra oposta à anteriormente descrita. (Por certo há de ter vivido ou existido mais de um ator ou galã de cinema que costumasse assim proceder com sua invejável cabeleira. Afinal, será que o Motta quer ser visto como um galã de cinema? Se assim for, que hipotético filme ele estrelaria? Seria “O Belo Surfista”? “O Master do Surf”? “Menino Meninão Surfistão”?... Custa-me adivinhar. Perguntar-lhe-ei quando o encontrar novamente.)
          O que sei é que o Motta gastou a noite inteira a amaciar e a espiralar alternadamente seus novos cachos. Só interrompeu o ademane quando foi obrigado a usar as mãos para a refeição. Terminado o repasto, voltou ele incontinenti à ação. Minto. A mania também cessou ao sobrepasto. Só mesmo uma boa comida fez o homem se conter a seu novo tique. Era o velho Motta abrindo espaço sobre o novo Motta.
           O que ainda não se sabe ao certo é se o nosso Motta ganhou os frondosos cachos naturalmente ou se fez uso de algum artefato para fabricá-los. Os que assistiram ao seriado mexicano Chaves hão de se recordar da personagem Dona Florinda, uma respeitável e pretensiosa viúva que usa, as 24 horas do dia, uma quantidade exagerada de bobes no cabelo. Presume-se que assim procede no intuito de impressionar o Professor Girafális, seu eterno e reticente pretendente. A pergunta que me fazia era a seguinte: será que o nosso amado Motta está a usar bobes nos cabelos? Se usou, devo admitir: o homem mudou além da conta! E como amigo-irmão, só me resta repreendê-lo publicamente frente a possibilidade desse ato tão revelador: –Deixe de saliências, Fábio Motta!