segunda-feira, 17 de agosto de 2015

MISTÉRIO DA MORTE

     No velório, indignava-se:
     – Como pode? como pode?...
    Profissional da saúde, não entendia como é possível que o sujeito morresse aos 61. Digamos sem delongas: – era psicóloga. Eu, em minha vetusta ignorância, julgava que o psicólogo seria o profissional dotado de todas as possibilidades de adaptação e entendimento. Por isso impressionou-me essa brutal incompreensão sobre a morte e o morrer.
    Justiça se faça – o morto tinha todas as credenciais para morrer. Sofria do coração e, disseram-me, não se sabia por qual razão não tinha sintomas. Era completamente assintomático. Tomava lá seus remédios, que eram muitos, e vivia a vida como se gozasse a saúde de um adolescente viril e atlético. Os exames, entretanto, mostravam um órgão debilitado e frágil. Concluí, recorrendo a meus parcos conhecimentos de cardiologia, que ao morto só houvera uma saída em vida – o transplante. O resultado foi a súbita morte. Morreu no jantar, diante da mulher e dos filhos.
     É ate compreensível que não se entenda e não se aceite uma morte inesperada. Contudo, não seria esse o caso. O acometimento de órgão vital por doença grave é uma ameaça permanente, há de se convir. E, a propósito, há a tal “morte inesperada”?
     A morte é sempre inesperada porque em nossas equações diárias não a colocamos como constante de equilíbrio. (Ou seria desequilíbrio?) A equação da vida abarca um sem-número de variáveis e apenas uma única e solitária constante – a morte. Leva-se em conta, a todo instante da vida, as inúmeras variáveis nela contidas e retira-se-lhe sua única constante, sua única certeza, único destino de todos. Essa ausência por nós imposta é a razão de nosso horror e de nosso inconformismo quando a inexorabilidade sobrevém.
     O que consideramos a impossibilidade no dia-a-dia mostra-se cruelmente possível e real em único dia... Como o número de Avogadro cuja perturbadora constância se repete nos moles de cada elemento, também a morte não muda sua perseverança na existência de todo ser vivo. Todo dia é dia, toda hora é hora de morrer. Morre-se a qualquer idade; morre-se em criança, em jovem, em adulto e à velhice. Ela disso sabia e era justamente isso o que a estupefazia.
     Comportava-se como nos comportamos à infância. Para o infante não existe a morte, a própria ou a de quem quer que seja. Na infância a eternidade é a certeza natural. Como o casal primevo que em sua inocência desconhecia a guerra feroz que então se combatia entre as potestades do Céu, a pureza da criança a preserva da ciência da morte, a consequência do grande conflito. Séculos e séculos da existência da morte não foram capazes de nos preparar para ela. Por isso dizia:
     – Não é possível... não é possível...
     E seguia indagando:
     – Como é que pode? como?... como?...

    Dali a poucas horas o morto descia à campa, no ritual mais antigo que a humanidade conhece. E os atônitos se recolheram ainda sem entender o mistério da morte de quem ainda há pouco vivia.