sábado, 7 de novembro de 2015

ZÉ - A VISITA

Hoje fui ver o Zé. Não tens ideia de quão mais moribundo está. As enfermeiras lhe tinham uma deferência especial, pude perceber. Elas o tratam e à pobre mulher como deuses em pousada. Sua piedade e calor humano fazem bem. Alguém dirá que nem tudo está perdido, mas o Zé está quase irreconhecível. O emagrecimento, os edemas, os líquidos que lhe saem, a respiração dificultosa e o coração forte a lhe balançar o corpo são sinais nítidos da deterioração da morte. Já nem digo da vida, que aquilo não é vida. Perguntei à mulher por que ele não lia um pouco. Ela respondeu que ele não tinha interesse, e pôs a culpa nos óculos. Ele não conseguia pôr os óculos. Precisava deles para ler.
Óbvio é que não é nada disso. Seu resquício de vida só lhe permite vegetar. Fomos ensinados a pensar que só vegetam aqueles vítimas de dano ao cérebro, mas isso não é verdade. Também vegetam os moribundos “lúcidos” do câncer. Pouco falam, pouco pensam, talvez nem de nada se lembrem. Não choram. Sabem que estão às portas da morte, mas não choram. Chico o pusera a par da gravidade de seu caso. Não falou em “morte”, mas ele seguramente entendera. Ao contrário dos familiares, que entram e saem com fungados e rezas como se o moribundo já fosse defunto, não chora nem dá a mínima.
Em todo caso, hoje me pareceu melhor que em dia anterior. Ao chegar ele estava sentado à beira do leito após o banho. Cumprimentou-me com sua voz gutural e pouco compreensível, para em seguida deitar-se com acessos de tosse. As enfermeiras procuravam uma veia. Seus braços infiltrados não ofereciam veias fáceis. Ofereci-me a dissecar uma, mas ele não quis. Estava com um cateter no pescoço que o anestesista pusera. Quis que o ajudasse a subir mais à cabeceira e o puxei pelas axilas por detrás do leito. Ele agradeceu. Saí um pouco a atender ao telefone. Ao retornar as luzes estavam apagadas e ele dormia tranquilamente. Despedi-me da mulher e parti.
Lá fora, na rua, os bandidos haviam me arrombado o carro e levado coisas de mais ou menos valor. Esse seria mais um furto de que fora vítima. Iniciava-se em mim um processo de ira, quando me lembrei do Zé. Eu não tenho problema algum. Ele tem um muito sério: está para perder a vida. Um enorme vazio tomou conta de mim.

Fernando Cavalcanti, 03.01.2006