sábado, 14 de novembro de 2015

VIL VIDA VIRTUAL

          Estou ali no hospital e toca o apito no telefone portátil. Era o Zé me “inscrevendo” pela enésima vez em grupo de amigos da rede social mais recente, o whatsapp. Era de tarde, como dizemos por aqui. Deixei-me ficar. Como frisei, já me empurraram goela abaixo o referido grupo pelo menos meia dúzia de vezes e pelo menos meia dúzia de vezes expulsei-me a mim mesmo dele.
          Parece que são mais de setenta pessoas no tal grupo. Dali a pouco começa, como uma chuva de meteoros (jamais vi ou estive em meio a uma chuva de meteoros), um troca-troca de mensagens sobre vários temas, vários “assuntos”. Iam e vinham fotografias, charges, desenhos, anedotas, dizeres, frases famosas de famosos autores ou personalidades; orações, convocações, pessoas agendando entre si encontros de negócios, gente agradecendo favores, fotografias do Papa, desejos de boa semana, de boa tarde, de boa noite...
          O diabo é que foi-se há muito o tempo em que eu queria aparecer. Falando a verdade e sendo bem honesto, não me lembra o tal tempo e concluo sem demora que para mim jamais houve tal tempo. Dirão que não sou tímido, que nunca o fui, e será verdade. Mas não ser tímido não significa ser enxerido, ou exibido. Ora, se em mais jovem não sentia a necessidade, não seria agora. Todos sabem, a juventude é viçosa, as carnes são rijas, a pele é lisa exceto pelos comedões, as acnes, sem esquecer os furúnculos das estafilococcias; os cabelos são fartos e, mesmo que sejam “ruins”, a acomia e a calvície estão longe de preocupar o mancebo cuja testosterona poreja no suor durante as peladas em terrenos baldios (Hoje não há mais o terreno baldio e, se houver algum como remanescente, prudente é evitá-lo – os amores-de-burro deram lugar ao criminoso sem idade.) O desejo de aparecer, de ser visto e notado é, então, a grande tentação do jovem.
          Hoje, com o advento da rede social, aparecer não é uma opção – é a regra. E não somente o jovem; mesmo o homem e a mulher de meia idade querem, precisam, anelam aparecer. Para ser franco, mesmo as pessoas de idade mais avançada já se permitem incursões frequentes nas redes sociais. Assim, nas redes sociais há que se aparecer, sob pena do esquecimento e da morte em vida.
          Estava a falar de mim e volto a falar de mim. É quase um mea culpa. Dito assim, parece que se tem culpa de estar na rede social, contribuindo com sua liquidez de temas. Mas explico. Há, de fato, culpa por se estar na rede social. Vejam o meu caso. Logo que comecei a participar dessas salas virtuais – diz o meu amigo Siqueira que a rede social é a calçada de antigamente –, imaginei para mim uma China inteira de amigos e de leitores. Esses amigos leriam meus textos e me aplaudiriam de pé; os elogios a meus escritos viriam de todos os lados e até de outros países distantes; teria entre meus amigos pessoas que não conhecia pessoalmente, mas que em pouco tempo dividiriam comigo concordâncias e discordâncias pacíficas; enfim, abria-se para todos um leque de possibilidades inimagináveis até então.
          Nada é mais pedagógico do que a experiência. Não demorou e descobri que havia, nessas salas virtuais, um ódio contido somente pelo silêncio de uns poucos sábios. Na maioria das vezes estava lá a querela, o insulto, o rude diálogo entre desconhecidos que já se manifestavam abertamente ao ataque. Com mais um pouco percebi que aquela China de “amigos” era consequência não de um amor fraternal, mas da coletiva necessidade de uma associação doentia, uma espécie de efeito manada onde o não participante era levado a se sentir excluído de algo que seria, a princípio, importante. Foi quando comecei a perceber a grande tristeza do homem ativo na rede social, do homem “tecnológico”, do homem “antenado”, do homem “popular” – a perda da intimidade de seus pensamentos, de suas ideias e de si mesmo. Nem falo da intimidade familiar e da vida social – sim!, mesmo na vida social há que se ter a privacidade preservada e salvaguardada dos olhares sequiosos da malta desconhecida. A intimidade, aquele tranquilo e aconchegante lugar onde se está consigo mesmo, na paz das diárias, palpitantes e invioláveis reflexões pessoais que se dividem somente com as mais cúmplices pessoas de nossa fugaz e exígua existência, deixou de ser visitada, deixou de existir; dela esqueceram-se, senão todos, a maioria de nós.
          Não se agastem comigo os amados amigos da virtualidade atual, os mesmos amigos de uma realidade passada, um tempo de fantasias e sonhos onde a vida transpirava uma eternidade bem possível e singela, em que a crueldade do mundo já sutilmente se apresenta em pequenos futuros maus caracteres e nas tragédias diuturnas da vida humana. Peço que entendam a minha necessidade de meu silêncio interior, lugar onde escuto o sussurrar de minha essência e, talvez, a voz de Deus. Mesmo um silencioso whatsapp grita em demasia quanto mais tenha dizeres, fotografias, desenhos, quotes, curtas-metragens, opiniões, filminhos eróticos, saudações sinceras, desejos de boas festas ou de feliz aniversário, links, novas da crise e das negociatas brasilienses, orações fervorosas, anedotas espirituosas e o que quer objetive nos aproximar. Tudo é muito bom, dizem. Pois lhes digo que nem tanto, nem tanto... 
          A ideia de que o ser humano precisa de mais e mais informações é nefasta. Elas me agridem, me afastam de mim mesmo e de quem amo. Não preciso de mais informações – preciso, sim, viver. Estamos melhor na memória dos fraternos amigos do passado do que em sua virtualidade atual. O desejo de aparecer tornou-se a necessidade imperiosa da reserva e do comedimento. O gozo da intimidade é sublime, ao passo que a autoexposição só causa remorso e arrependimento por nos conduzir pelo caminho da intemperança e da verborreia inconsequente.