sábado, 7 de novembro de 2015

ZÉ - O DIAGNÓSTICO

Conheces o Chico, meu compadre e amigo. É como um irmão, desses que a gente escolhe do meio do mundo, do meio da vida. Sua família é grande, muitos irmãos, e sobrinhos, e primos, e é tanta gente que nem dá pra contar. Desses, o Zé é o irmão que lhe é mais chegado. E através e por causa do Chico ficamos amigos. Transfere-se a amizade quando as almas são irmãs.
Não fosse um torcer pelo Flamengo e o outro pelo Vasco seriam em tudo parecidos e unidos como unha e carne. São, antes de tudo, amigos figadais. Zé, um guerreiro incansável, estava, nesse momento, reiniciando projetos há tempos abandonados e agora retomados; era como se nova vida recomeçasse para ele. De seus parcos quarenta e poucos anos ainda tinha os ímpetos próprios dos adolescentes e sonhadores. Era um obstinado, eis a verdade sobre o Zé. Era um obstinado por viver, pela vida.
Ah, uma nova vida!... A vida nos assalta, nos emociona, nos engravida de esperanças e expectativas a todo instante. E nós, grávidos, pesados, cheios das varizes e estrias das grávidas, aguardamos o descanso, o parto, o clímax. A gravidez das esperanças da vida é interminável, e o parto não raro resulta em feto morto. E vivemos nosso dia a dia como eternos grávidos das expectativas e esperanças, de sonhos pelos quais não trabalhamos, de uma eternidade que teimamos em acreditar. Esquecemos da morte, da escuridão, do fim da vida.
Eis que saio certo dia a tomar umas cervejas com o Chico, e ele me diz: -“Zé tem um derrame pleural hemorrágico.” Foi há menos de um mês, quero crer. Acordamos: -“É tuberculose.” Médicos se tornam leigos tão logo um prognóstico ou possibilidade sombria ronde um de seus amados. Sim, porque médicos têm também os seus amados, que deixam a dormir enquanto atendem friamente os amados de outrem.
Por isso bebemos, para que durante as libações nossos acordos tenham uma real probabilidade de se concretizar quando na sobriedade da vida sabemos serem impossíveis tais desfechos. A bebida nos analgesia das dores dessa gravidez que não tem fim. E acertamos que a doença não lera os livros, os tratados. Os bebês do Zé não seriam natimortos.
Cada um com sua desgraça, com sua dor. É um carcinoma, um câncer; metastático, disseminado. Os médicos Chico e eu são uns tolos; ele mergulhado na centelha de vida que ainda resta do irmão, eu coçando o queixo tentando abortar o feto, meu feto, todos os fetos, na verdade, que cresciam dentro de mim.
Fui, então, ao hospital visitar o Zé, repleto de minha pusilanimidade sadia, tentando parecer que sou algo mais, ou algo menos. Tentando... sei lá! Ele até me pareceu bem, devo confessar. Custava-me acreditar que em seu organismo crescia uma doença mortal, uma sentença, uma desesperança, uma semente da morte plantada por não sei quem ou o quê. Suas lindas filhas, em flor da idade, cobriam-lhe de afeto e amor, talvez sem saber da catástrofe a se aproximar. E eu as atraía a conversar sobre o lugar-comum do dia a dia, da faculdade, dos namorados, das greves. Ah! como somos inábeis diante da morte!
Coincidiu, outro dia, de eu encontrar o cirurgião que lhe fizera as biopses antes de adentrar o quarto do amigo: -“Tem seis meses de vida, no máximo.” Eu me despi ali mesmo do estúpido médico que sou, dentro de mim. Dizem que médico e padre são ofícios de vinte e quatro horas. Parei de ser médico ali, no prognóstico, na sentença, na condenação de meu amigo. Calei. Resignei-me. Acovardei-me. Restava-me ir ao Zé.
Desta vez estava péssimo. A palidez severa e a facies hipocrática denunciavam a gravidade da situação. Caiu de vez a ficha: o Zé podia mesmo morrer. Sou um sujeito de mente alvissareira, mas confesso: tem sido difícil. De um lado a malta unimediana, do outro o amigo moribundo.          

Fernando Cavalcanti, 21.12.2005