sexta-feira, 8 de abril de 2016

MADAME SERJÃO

                Recentemente tenho apelado a Santo Epitácio. Súbito, uma dúvida me assalta: – existe Santo Epitácio? Digo, há na lista dos beatificados dos católicos o Santo Epitácio? Fui olhar.
                Não há. Nem nos católicos nem em qualquer outra igreja. E por que cargas d’água fui eu me valer de santo Epitácio? Acho que foi a lembrança de um primo com esse nome e que vive alhures.
                A bem da verdade, não acredito em santos. Numa impressionante e intrigante coerência entre seus vários livros, a Bíblia Sagrada não se refere a santos; justamente porque, noutra espantosa coerência, ela ensina a ressurreição no tempo designado e não a vida imediata após a morte. Jesus Cristo, o personagem central do cânon sagrado, é o exemplo mais contundente e espantoso de tal ensinamento. Assim, a admissão dos santos é absolutamente incoerente com os ensinamentos do Livro. Há, até, a história de padre missionário em Sobral que, diz-se, alardeava aos quatro ventos: –“O santo é um defunto privilegiado!” Bem se vê que faltava ao referido sacerdote a devida fé que sua igreja exigia.
                Com efeito, devo admitir, meu vocativo ao santo inexistente era uma galhofa, um chiste, uma pilhéria. Em casos onde o absurdo se apresenta ou se insinua à concretização, a invocação de outro absurdo vem bem a calhar. Por exemplo, quando o meu amigo Sérgio Moura vem de lá com suas previsões apoteóticas. De tanto se aventurar às adivinhações sobre o porvir, apus-lhe uma alcunha. Passei a chamar-lhe de “Madame Serjão”, e o imaginei sentado a uma enorme mesa redonda usando um felpudo turbante cor-de-rosa e tendo à sua frente uma esfuziante e reluzente bola de cristal. Há quem duvide ser Madame Serjão capaz de fazer uso de acessório tão comprometedor – falo do turbante –, mas é exatamente assim que o imagino ao momento de consultar o além. (A imaginação é minha e imagino como quiser e bem entender! Em nosso mundo interior somos ditadores absolutos e totalitários.)
                O caso é que Madame Serjão é um apaixonado pela política, seus desdobramentos e sua extensa malha de possibilidades. É sabido de todos que o cenário político brasileiro adquiriu atualmente um aumento exponencial nesse complicado tecido de resultados possíveis, uns mais, outros menos prováveis de se materializar. A toda hora e todos os dias fatos novos e novas provas descobertas na operação levada a cabo pela polícia federal e pelo ministério público estampam as páginas dos jornais e provocam os plantões dos noticiários televisivos. E nem precisaria, já que Madame Serjão gasta quase todo o seu tempo aboletado defronte à televisão a degustar a TV Câmara e a TV Senado; lê diariamente as colunas dos principais comentaristas políticos do país; assiste aos telejornais das várias emissoras pela manhã, à tarde e à noite; e, finalmente, veste o pomposo turbante cor-de-rosa, senta-se defronte à sua resplandecente bola e recebe, sabe-se lá de onde, as mais sigilosas e secretas informações sobre o que acontecerá ao país em breve. Ato contínuo, vai Madame Serjão às redes sociais e vaticina:
–“Dilma não sai!”
Ou, ainda mais terrificante:
–“O STF absolverá Lula!”
Outro dia, precisamente o dia em que saiu a liminar impedindo o ex-presidente de assumir a chefia da Casa Civil do governo, Madame Serjão humilhantemente profetizou:
–“Não dou 2 horas para a liminar cair!”
Era de manhã. Passaram-se 2, 3, 4, 5, 6..., 24 horas e a tal liminar não caiu. De fato, não caiu até hoje. (Já se vão sei lá quantos dias.)  
Foi assim que passei a olhar Madame Serjão com certa desconfiança. Não por seu turbante cor-de-rosa, que a cor ainda está na moda, mas por ter-se equivocado gravemente numa de suas previsões mais relevantes. Por isso é que me invadiu a curiosidade de ver-lhe pessoalmente a bola de cristal. Duvidei que fosse mesmo talhada em vidro tão valioso quanto pensei ao início. Minha suspeita é que a bola de Madame Serjão seja uma dessas que se vendem em lojas da 25 de março por cinco ou dez reais. E olha que Madame Serjão prevê que o real irá se desvalorizar ainda mais!...
Justamente nesse ponto não tive como evitar o meu espanto e minha indignação. Quase que automaticamente bradei:
–“Valei-me, meu santo Epitácio!”