segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O IDIOTA E O BUROCRATA

          Não me sai da cabeça a cena que se me desenhou na chácara de meu amigo Feitosinha. Já faz alguns anos, mas não esqueço. Fomos lá, certo ensolarado sábado, Costinha e eu, encontrar o Feitosinha em seu solar. Era um churrasco. Levei meu violão para a cantoria. Já, já digo o que lá vi. Antes abro um parêntese e pergunto: – onde andará o Feitosinha? 
          Nunca mais o vi no hospital. É provável que tenha se aposentado. A última vez que dele ouvi falar foi há algum tempo. As notícias davam conta de que havia passado mal e sido internado. Felizmente se recuperou e saiu de alta sem maiores complicações. Eis aí as notícias, as últimas notícias, que tive do amigo. É bem possível que continue bem. Todos sabem – notícias ruins varam o mundo dez vezes antes que se dê um suspiro. Fecho o parêntese. 
          A cena que vi na chácara do amigo foi a do gado bovino em fila indiana para beber água. Descrevi-a aqui várias vezes, em diferentes crônicas. Em resumo, as vacas, em toda sua inocência, em toda sua pureza, obedeciam fielmente ao Feitosinha e seu vaqueiro. E a fila era uma organização tremenda. Ninguém se aventurava a passar à frente de ninguém. Não havia altercações ou brigas entre as vaquinhas do Feitosinha. E depois da água saiam mansamente para o pasto onde se deleitavam com o capim. 
          O leitor em sua curiosidade de marido traído há de querer saber: – e por qual razão, após tanto tempo da visita à chácara do amigo, me lembrei desta bucólica e enternecedora cena? A resposta é simples: — foi justamente quando vi a fila do ponto do Instituto Dr. José Frota. Com efeito, quase todo dia o autor que vos escreve vê a cena fatídica. E vamos mais além. A fila do ponto do referido hospital é de domínio público. Sim, ela se posta quase ao meio da rua. Quem quiser ver a cena, esteja ali, à entrada do subsolo do hospital, todo santo dia às 7 da manhã e às 7 da noite. É batata. Não há como perder. As vacas do Feitosinha estavam ao sol implacável, devo acrescentar, ao passo que o pessoal da fila goza sempre de uma sombra que torna um pouco mais leve sua desumanização. Um hospital que se diz terciário oferece três, e apenas três, relógios de ponto às dezenas de funcionários que fazem jornadas de trabalho diariamente. Por isso as filas enormes. São como as vacas do Feitosinha que mansamente vêm beber a água do tanque.
          (Há, é verdade, um quarto relógio de ponto no prédio administrativo. Mas ele está absolutamente fora do fluxo de todo esse pessoal, de modo que ele é utilizado quase que apenas pelo pessoal que trabalha naquele setor.)
          Há, além da fila do ponto, a fila da catraca, não devo esquecer de mencionar. A catraca é o dispositivo da segurança. E qual a razão da catraca? Repito : — ela é o dispositivo da segurança. Aos que não se lembram, saibam que o IJF já foi palco de pelo menos um assassinato à bala em suas dependências, fora outras tantas tentativas que se viram frustradas. Os tiros, no caso os tiros das outras tentativas, não atingiram o alvo a que se destinavam, mas o pandemônio nem por isso foi menor. Assim, após bater o ponto, o funcionário se posta diante da catraca para ter acesso a seu local de trabalho. Como há, ali, apenas três catracas, e há ainda o pessoal que está saindo do serviço e que vem também bater o ponto, temos que forma-se uma grande fila para a catraca. O interessante é que as filas — uma defronte cada máquina de ponto e outra à única catraca eleita para os que entram — criaram, por sua vez, o engarrafamento. (Quem me perguntar o que é feito da terceira catraca, respondo que está frequentemente quebrada.) Tentemos uma descrição deste outro patético cenário. 
          Pressionados para estar à frente da máquina na hora certa, os funcionários que chegam para trabalhar são obrigados a parar o carro ali no acostamento da Barão do Rio Branco. Não tendo onde parar por conta da lotação dos estacionamentos do hospital pelos veículos do pessoal que está encerrando seu turno de trabalho, situação piorada pela cessão de um dos terrenos onde funcionava um deles para a construção do famigerado IJF II, o funcionário não tem outra alternativa — é parar no acostamento e descer para cumprimentar a máquina. O resultado é um diário caos no trânsito neste trecho da rua. Acrescente-se a isso o acúmulo de vendedores ambulantes que estacam suas barracas ou carrinhos de lanche na calçada onde desce a rampa do subsolo do hospital. Acreditem: — é uma pequena amostra de nossa tendência ao caos. É a vitória do burocrata. É a vitória do idiota. 
         Vejam que há a defesa do idiota. Mesmo ele terá argumentos em defesa de seu ponto de vista, e somos obrigados a ouvi-lo. É efeito colateral da democracia dar voz a todos, mesmo ao idiota. Até aí não há problema. Não faz mal ouvir asneiras. Contudo, o resultado da ação do idiota está aí para quem quiser ver. Digo "idiota" e percebo que deveria ter feito uso do plural visto que ele, o idiota, é, acima de tudo, uma superioridade numérica. O que salta aos olhos não pode ser negado, não pode ser facilmente esquecido. O burocrata argumenta ferozmente a favor da catraca, a favor da máquina de ponto, a favor do acúmulo do comércio "informal" à entrada do hospital e, quiçá, a favor do engarrafamento. Não há nenhuma surpresa nisso. Afinal, o burocrata e o idiota são a mesma pessoa.