quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O PROGRESSISTA

          Houve quem entendesse que estaria eu chamando os funcionários do Instituto Dr. José Frota de animais. Ou, melhor: — de vacas. Ainda bem que na chácara do Feitosinha eram vacas que estavam na fila para beber água, e não cavalos, ou jumentos, ou burros. Imaginem o que concluiriam os que fizeram tal suposição. De fato, quis, no último texto, chamar a atenção para o fato de que os funcionários estão se desumanizando ao aceitarem o que o burocrata lhes reserva no dia-a-dia. A desumanização não nos torna animais, visto que os animais são de uma pureza incomensurável. A desumanização nos torna... desumanos. Não há nada mais desumano do que a inteligência. Se a um cãozinho inocente déssemos inteligência, ele sairia a chupar as carótidas de seus semelhantes e a depositar suas necessidades à porta do vizinho. Portanto, em respeito aos tenros quadrúpedes, deixemo-los de lado. Já basta as maldades que o desumano lhes faz todos os dias. Se quiser recuperar sua humanidade perdida, o funcionário deverá reduzir-se à humildade e esbravejar contra o idiota que ascendeu ao poder. Sim, porque é permitida a ira numa única situação: — contra o mal. Mesmo o Cristo, a Majestade dos Céus, enfureceu-se contra os que comercializavam à casa do Altíssimo. O aviltamento é o pior de todos os males. De fato, e para falar a verdade, estamos a um passo do completo aviltamento.
          Digamos logo e sem rodeios: — a degradação é geral e sem limites. Vejam, por exemplo, o progressista. O que é o progressista? Direi que nos últimos 15 anos intensificou-se o uso, por parte de muitos, de tal termo, de tal adjetivo. Nas rodas de políticos e em seus discursos para o povo em comícios ou do púlpito das casas legislativas e, principalmente em suas falas nas reuniões de seus partidos, usaram e abusaram de seu uso. Muitos se autointitularam "progressistas" e seu número cresceu assustadoramente. Ser progressista era o mote, a palavra de ordem, o autoelogio obrigatório. Os outros eram acusados de ser "conservadores". Pois o progressista nada mais era do que o esquerdista, o revolucionário, o que iria modificar toda uma ordem, uma estrutura, um modo de fazer e pensar as coisas. Em suma, o progressista era o arauto de uma outra ética, de uma nova forma de "fazer as coisas". 
          Pois esse pessoal era contra "tudo o que aí está". (Digo "era contra" mas poderia perfeitamente dizer que ainda é e tão cedo não deixará de ser. É provável que sempre o seja.) Decretaram a falência de tudo, da família à ortodoxia econômica. E assassinaram Deus. De sua boca saíram as maiores blasfêmias que se ouviram recentemente. Louvaram o crime, a gastança irresponsável, intensificaram o pacto com os bandidos, pretenderam inumar a ideia de honestidade. Em suma, tudo aquilo que alicerça o ser humano normal foi alvo de sua metralhadora assassina. Ser progressista era ser "inteligente". Com a plena certeza de que os valores morais mais acarinhados pelo ser humano normal eram os responsáveis por o que consideram a causa da falência da sociedade, investiram impiedosamente sobre eles. A ideia, inicialmente encantadora porquanto não há nenhuma perfeição na sociedade, arrebanhou milhões de incautos e outros tantos semelhantes a eles. 
          O tempo mostrou o resultado da ação do progressista. Violência, aumento da pobreza, aumento do endividamento das pessoas e do governo, falência institucional generalizada, falência de empresas públicas, assalto ao erário, propagação da corrupção em todos os níveis, envilecimento do poder judiciário, etc. etc., foi o cenário final. Dirá alguém que muito disso não é novidade, que várias dessas situações ocorreram sob a égide do "conservador", e direi que é verdade. Afinal, o bicho homem tem maus bofes desde as fraldas. Mas, admitamos — o progressista quis, e ainda quer, institucionalizar o caos. Ainda agora respiramos o ar de um certo caos, visto que durante os últimos 15 anos ele muito fez para implementar sua ética. Quem não concordar com esta evidência gritante só há de se satisfazer com a descida da Nova Jerusalém desde os Céus e da parte de Deus. Dito de outra forma, o progressista inundou uma sociedade imperfeita com o produto fecal de seu metabolismo mental, donde fica evidente que a caixa craniana do progressista é preenchida com seu grosso intestino. 
          Ontem, ali nos corredores do Hospital Geral de Fortaleza, esbarro com minha querida amiga Jesoni Gruska, médica de mulheres. Confidenciou-me: — não vê a hora de se aposentar. E por que quer ela se retirar do serviço público? Ora, a causa de tal desejo é o caos, o mesmo caos criado pelo progressista. Sim, o caos tem suscitado muitas vontades, muitos desejos, sendo o principal o desejo de dele fugir, de para bem longe dele ir. Em uma simples palavra, o caos nos impele à aposentadoria e à emigração. Outra alternativa seria a exoneração pura e simples. Tais alternativas satisfazem mais ou menos plenamente a ânsia do ser humano normal por paz. Leva a cabo quem pode, quem tem coragem. Não pode ser taxado de louco o que procura proteção. Preservar a vida e o patrimônio honestamente acumulado é um desejo normal. 
          O comentário da amiga seria esclarecedor por si mesmo. Ainda assim, quis dar uma mais detalhada justificativa. Explicou que na Emergência obstétrica era obrigada a examinar as pacientes deitadas não numa maca normal, não num leito de hospital normal. Nada disso. Como elas, pejadas, chegavam procedentes do interior do Estado em busca de socorro médico por alguma complicação de sua gravidez numa maca de ambulância, eram obrigadas a permanecer nas macas, já que o hospital não dispunha de leito. O problema maior é que essas macas não têm pernas e que, por isso, eram retiradas do veículo e postas ao chão. Sim, as pacientes, grávidas, deitavam-se em macas ao chão da Emergência. E o profissional médico que se virasse para examiná-las. Assim, relatou-me a amiga que precisava se ajoelhar para fazer o toque vaginal nas pacientes, examinar-lhes o abdome, auscultar-lhes os batimentos fetais. Era uma dupla humilhação, eram duas humilhações — a da paciente e a do médico. Óbvio é que a humilhação do doente é incalculável, ao passo que a do profissional é meramente ocupacional. Vejam a cena. É cena de guerra ou de pós grande catástrofe natural. 
          Vamos e venhamos, o grande humilhado é, de fato, o paciente. Perde ali o doente toda sua dignidade, toda sua humanidade. Avilta-se desmedidamente. Vítima de uma Constituição que é uma farsa, pautada pela irresponsabilidade das boas intenções que sempre levam ao inferno; muitas vezes vítima de suas próprias más e irresponsáveis escolhas; vítima de sua indolência e até participante ativo no dueto corruptor-corrompido, o paciente arca e sofre mais do que ninguém com tudo isso. Jesoni só não quer mais atuar na cena hedionda. A sensação de aviltamento não se deve ao fato de ajoelhar-se para socorrer, mas por sentir na pele o resultado da atividade do progressista. Desumanizar é o que ele melhor faz, e ela se recusa terminantemente a participar de tudo isso.