terça-feira, 12 de julho de 2011

Um cruel e mau sistema

Outro dia escrevi sobre uma idéia que cada vez mais se dissemina e – pior! – cada vez mais se torna crível: não há o mal (O pior mal é o que não existe, 14.05.2011). Dia após dia torna-se uma certeza maior: não há o mal. Particularmente entre nós, neste país de desvarios, cresce, imbatível, a certeza: não existe o mal. Todavia, há pior. Como já disse, há pior.  
            Darei exemplo. Na prática médica em certo hospital municipal, pisam-se os fundamentos, as evidências, os tratados e se pratica a pior medicina possível. Por quê? Porque, segundo a torpe idéia da inexistência do mal, não há a boa nem há a má prática. Simplesmente há uma determinada forma de praticar medicina que está acima – ou abaixo – de qualquer julgamento, acima – ou abaixo – de qualquer crítica, acima – ou abaixo – de qualquer juízo. Uma vez que não há o bem nem o mal, está tudo, todo e qualquer descalabro, desprovido de vulnerabilidade.
            Irei além, mas antes direi dos sistemas. O que seria um sistema? Há vários conceitos, e para meus propósitos pouco pacíficos recorrerei ao pai dos burros em dois deles. Um é conceito extremamente amplo: um sistema é um conjunto de elementos (concretos ou abstratos) interligados e que funciona como um todo estruturalmente constituído. O outro me vem a calhar para o que pretendo demonstrar: um sistema é um conjunto de estabelecimentos e instalações de um determinado setor de atividade ou de serviço.
            Admitamos que haja um bom e um mau sistema numa determinada atividade, ainda que queiram me fazer acreditar no contrário. Qual a diferença entre eles? Eu diria que o mau sistema não alcança, ou alcança minimamente, o efeito, ou resultado, ou fim pretendido, razão de ser do sistema. Direi mais: no mau sistema se obtém o oposto do fim desejável e desejado. No mau sistema os elementos funcionam em desarmonia e desconectados uns dos outros. Ainda que seus elementos sejam de excelente qualidade, eles são desarmônicos. Em outras palavras, o mau sistema não diz ao que veio.
            Eis aí o sistema que está a operar no hospital municipal ao qual me refiro. Há, em seu cerne, um mau sistema. E quando está a operar um mau sistema dentro de uma casa de saúde, padecem seus doentes de duas doenças: a sua própria e a do hospital onde estão. Os resultados são opostos aos pretendidos. Deturpam-se os meios, deturpam-se os fins.
            Falando-se assim em sistema, tem-se a impressão de que seus elementos são peças, máquinas, objetos inanimados; que não há nada de humano inerente a ele. Ledo engano. No sistema que opera ao centro do hospital o ser humano é a peça sine qua non. Afinal, o sistema tem a missão maior de aliviar o sofrimento de seres humanos padecentes de males – há males? – que os afligem.
            Admitamos, agora, que se aceite a idéia que se tenta incutir obsessivamente em nossas mentes, a de que não há o mal nem o mau. Se não há o mau sistema, é uma insânia desatada acreditar que ele funcione no âmago de certa casa de saúde. Deve ser maluco ou idiota o sujeito que avente tal possibilidade.
            Mas há algo aqui que não se tem levado na devida conta. Há, no fundo de cada ser humano parte daquele vil sistema, uma autoconsciência. E é ela quem está a sussurrar ao ouvido das razões que os levaram a querer estar ali, labutar ali; e que, sim, existe o bem e o correto; e que, sim, o sistema está podre; e que, sim, o sistema está prejudicando os usuários como jamais lhe deveria ser permitido fazer; e que, sim, o sistema deve ser substituído.
            Levantemos, por fim, a seguinte e negra hipótese, a de que não exista a tal autoconsciência, já que ela parece ser algo relacionado ao bem e ao que é bom, idéia completamente inaceitável no presente. (Se não há o mal, não há também o bem.) Se não existe a autoconsciência, não há nenhuma voz a sussurrar. As pessoas estão ali não sabem por qual razão, e o sofrimento de um semelhante não lhes diz respeito e é apenas uma contingência normal e trivial da vida. A se confirmar tal eventualidade, paira no ar, então, a indagação: para que existir o hospital que não alivia, se não há o mal, nem a dor, nem o sofrimento? Serão apenas sádicos a perpetrar seus experimentos?
            Cresce em mim a esperança de que se privam momentaneamente de sua audição apenas para não sofrer aos gemidos da agonia que se alastra, a torturá-los dia após dia. Não é fácil carregar aos ombros o peso da cumplicidade.