sábado, 30 de julho de 2011

Nova quizumba do Amorim

Outro dia Amorim me confessou, numa profunda melancolia: -“Só sinto prazer no cigarro”. E completou, como para não deixar a pender nenhuma dúvida: -“É meu único lazer”. E passou a explicar o porquê de acender um cigarro no outro.
            O caso é que o homem está a se divorciar, num processo difícil e complicadíssimo. Quer pôr a mulher fora de casa, ao que ela já deblaterou: -“Não saio nem a pau!”
            Habitam, assim, e não se prevê por quanto tempo, sob o mesmo teto. Perguntei-lhe como dormiam. Respondeu-me: -“Dorme no quarto da filha.” Abandonou o leito matrimonial desde que descobriu o caso do marido com a secretária do lar, e após lhe enxotar solenemente "para o quinto dos infernos”, nas palavras do próprio Amorim. Comunicou à justiça a separação de corpos.
            Ao início trocavam farpas e alfinetadas. Houve vez em que quase desceram às vias de fato. Ela, astuta, deu queixa do homem na delegacia da mulher. Não lhe tocara num único fio de cabelo, mas elevara a voz, ou a ameaçara de alguma forma. Talvez tenha se sentido em perigo. Quem há de saber? Parece que foi chamado pela delegada a dar explicações. A verdade é que Amorim é incapaz de fazer mal a uma mosca.
            Todavia, mesmo os que não fazem mal às moscas e se pelam de medo de baratas, às vezes, são vítimas de acessos. Quem sabe do monstro que nos dorme às profundezas? Ninguém, eis a verdade. As fúrias já fizeram incontáveis mártires, suscitadas pela química visceral.
            Hoje desfrutam, Amorim e a mulher, de uma paz conveniente, à espera da audiência de “conciliação”. Afinal, e no frigir dos ovos, eles ainda são um casal casado. É como se tudo houvesse amainado, enquanto se ajuntam, de cada lado, todos os exércitos para a guerra feroz que, sabe-se, inexoravelmente virá.
            Por isso fuma em demasia o Amorim. As milhares de substâncias do cigarro o acalmam e dão prazer. Leva uma vida miserável tentando proteger o patrimônio que já nasceu condenado a virar pó. Leva uma vida miserável em embate inútil e perigoso. Já dissemos – as fúrias são tempestades químicas cujos resultados são imprevisíveis e, no mais das vezes, funestos. A crônica policial está repleta deles.
            Agora, mais recentemente, até que, ao que parece, fuma menos. O segredo é um novo amor. Está a namorar a ex-sua secretária do lar. (Ou seria melhor escrever “sua ex-secretária do lar”? Tudo estaria a depender do fato de a moça ter abandonado a profissão ou não.) Uma coisa já é certa – de funcionária ela passou a dona de seu coração. Terá encontrado nesse novo amor o prazer que perdera ao início da quizumba. Com efeito, me segredou: -“É um furacão sob os lençóis!” E sai a detalhar suas peripécias sexuais mais acrobáticas e incríveis.
            Qual será o prazer das amebas?, é o que me pergunto. Serão banhadas por dopaminas, serotoninas e endorfinas ao momento da mitose que as reproduz? Ao menos não serão objeto de sofrimentos e frustrações recalcitrantes. Demonstrou elegantemente o Dan Ariely: o homem é um ser de uma irracionalidade cômica e previsível.