terça-feira, 12 de julho de 2011

Uma Índia de antiamigos

Algumas pessoas – os amigos em particular – têm nas palavras,muitas vezes, mensagens involuntárias e preciosas que levam a profundas reflexões. Ontem, conversando com o Rodriguinho, que é uma pérola de ser humano, ouvi-lhe a seguinte frase a propósito de não sei quê: -“Mas, você é amigo de todo mundo!”
            Vocês hão de convir que certas frases, certas idéias, nem sempre são bem entendidas ou compreendidas ao início, tão logo são emitidas ou explicadas, ainda mais para um sujeito de inteligência limitada como eu. Ainda assim, experimenta-se uma espécie de vertigem ao momento. Foi precisamente o que me aconteceu. Quando ele falou as palavras, senti uma leve tontura, como uma suspensão sensorial parcial e suave, uma sensação de onirismo e irrealidade. Vejam que nem me recordo sobre qual assunto falávamos, nem qual o tema de nossa prosa, mas a frase foi pungente. Despertou não sei que pensamentos ou concepções adormecidos.
            Contudo, tudo que dorme eventualmente desperta. Não poderia ser diferente com os monstros que dormiam dentro de mim. Mais tarde, aquieta-se a mente e as vozes falam. No silêncio dos pensamentos, na quietude do único lugar onde se está só, vieram-me eles falar. E o que disseram me preocupou deveras.
            -“Mas, você é amigo de todo mundo!” Ora, sou amigo de todo mundo? Como posso ser amigo de toda essa gente? Como pude passar a idéia de que sou amigo de toda uma China? E não só isso – como pude passar a idéia de ser amigo de todo um planeta?, era o que me indagava. E a frase do Rodriguinho, que, diga-se de passagem, não trazia em si nenhum juízo de valor, me ressoava ao ouvido como um ruído incômodo, como uma dissonância fora do acorde, como o zumbido dos otopatas.
            E por que me perturbava a frase do amigo, se fora proferida na inocência de sua alma? O que ela me fazia pensar é se eu não deveria providenciar, com a máxima urgência, uma meia dúzia de inimigos. Era exatamente isso o que me encafifava. Deveria eu tirar da manga uns poucos inimigos, ainda que fosse? Descobri, assim, a verdade inelutável: não tenho sequer um único, mísero e solitário inimigo. Já me sentia uma mutação ambulante por não os ter. E insistia a me inquirir: deveria tê-los?
            De longo tempo já vinham alguns amigos a me condenar por não ter inimigos. Vejam o Casoba, por exemplo. Alcunhou-me de “pomada”. Quando eu comentava de outros amigos ele, enciumado, fuzilava: -“És um pomada!” E, assim, taxou-me como sendo um sujeito que não se indispunha com ninguém pelo simples e tacanho motivo de não me indispor com ninguém.
            Os monstros que rosnam em mim, do fundo de minha consciência, sempre o fizeram tão logo assim interpretaram a minha suposta falta de inimigos. Ora, o que é um inimigo? Um inimigo pressupõe alguém prejudicial, nocivo, ou hostil. Direi apenas que todo ser humano que me parece nocivo ou prejudicial é premiado com o meu alijamento de seu convívio e, assim, jamais se chegou ao ponto da inevitável hostilidade que se manifesta entre inimigos declarados. Transformam-se, dessa maneira, os potenciais inimigos em antiamigos.
            Angariam-se múltiplos inimigos ao se lançar à competição desenfreada por o que quer que seja, ou quando se permite o inflar de egos viris. Um ego ferido é fonte perene de hostilidades. Assim, por não competir por nada e por domar o ego a ponto da humilhação é que passo a idéia do homem sem inimigos, do homem amigo “de todo mundo”, do “pomada”. Não sabem os amigos como tenho me esforçado por manter à distância pessoas cuja convivência, no dizer de meu querido Casoba, seria para mim diminuidora.
Não tenho inimigos; tenho, sim, uma Índia de antiamigos. É tudo uma questão de jogo de cintura. A paz é um dos ingredientes da felicidade.