segunda-feira, 18 de julho de 2011

Cláudia Viot

Conheci-a em meados dos anos ’70. Éramos adolescentes. Em sua casa conheci minha primeira mulher. Costumávamos conversar sentados à entrada do portão até tarde da noite. Naquele tempo tínhamos paz, ou os bandidos dormiam cedo, ou eram poucos os assaltantes, ou não havia ódio, como hoje. Muitas vezes juntávamos um monte de gente e ficávamos lá, na soleira do portão, sentados nos degraus, a conversar conversa de gente miúda, de gente desinteressada, de gente sem ambição, de gente sonhadora, de gente repleta de inocência e de ilusões. Éramos assim. Quase quarenta anos nos separam daquele tempo.
            Pensei, durante muitos anos, que a saudade dos tempos de infância e juventude era ubíqua entre todas as pessoas. Foi triste e decepcionante descobrir que estava enganado. Foi dessas ilusões tardias a se desfazer em mim, e já não me restavam muitas. Descobri, tardiamente, que há pessoas que não tiveram na infância a chance de serem crianças, e na adolescência a chance de serem adolescentes. Por conseguinte, não compartilhavam comigo esse sentimento a respeito daqueles longínquos anos. Vi até mesmo esgares de nojo quando mencionava algum encontro de amigos das fraldas. Concluí, então, que não, nem todos haviam sido abençoados com uma excelente juventude e infância.
            Quem há de lidar com o tema – a má infância e a problemática adolescência – são os psicólogos e os psicoterapeutas. Quem há de lidar com a inadaptabilidade do adulto são eles também. Assim, fiquemos nós, os bem-aventurados, longe deles – dos terapeutas – e, se insistem em caretas de asco, também de seus pacientes.
            O problema que nos aflige é outro, de outra natureza, que não chega a nos cobrar com a perda da saúde mental, afetiva e emocional – a morte ou a ameaça da morte do antigo amigo. Desde sempre fomos todos, saudosistas e não saudosistas, impactados pela existência da peremptória. O pouco de tempo que temos gastamos a ludibriar-nos a nós mesmos, como se a tentar ludibriá-la também, até que ela chegue de vez e tolha primeiro a quem amamos, e depois a nós mesmos. Construamos a seguinte e absurda hipótese, a de que sofre menos o que não é apegado ao seu passado.
            Se não tem apego ao passado, e o passado inclui principalmente as pessoas que nele habitaram consigo, não sofrerá ao desaparecimento de alguém que lá com ele conviveu. Seria justa tal assunção? Seria correta a tese aparentemente insana? Não se sabe, eis a resposta. Respondam lá os próprios desinteressados. E seria ótimo que o fizessem trancados em recinto a sete chaves, para que não víssemos novos e mais caricatos esgares.
            Volto aos anos ’70 para lá encontrar minha querida, doce e linda amiga Cláudia Viot. Poderia simplesmente ir ao hospital, onde jaz em leito da unidade de terapia intensiva, mas hesito. Prefiro me embalar na lembrança, nas doces horas e dias em que convivemos; nas noites de céu claro que nos diziam que a vida era para sempre e que ainda muito nos aguardava de bom; nos dias de brincadeiras e risadas a nos cobrir da felicidade dos anos de ouro... Prefiro viajar no tempo, até que me chegue a coragem de ir vê-la ali, sob a tirania e o milagre dos aparelhos que a mantêm viva.
            E confesso: - fui.
Adentrei o hospital e, enquanto entrava por corredores e elevadores, pensava que conseguiria. Mas não pude. Não fui capaz. Não queria contemplá-la naquele estado, em seu leito de morte talvez. Voltei. À porta de entrada de onde ela estava fui fulminado por um desinteresse enorme. Uma sensação de inutilidade se apoderou de mim. Não havia no momento algum familiar com quem eu pudesse falar. Queria ter com eles apenas para lhes dizer da dor que nos lancina, que nos fere como a eles; apenas para que soubessem que estamos com eles nesse momento tão difícil.
Eles devem estar exauridos em suas forças. Devem ter ido repousar. Desci pelas escadas como para prolongar minha saída.   
O Senhor sabe o que faz.