segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O filho e a arte


A esterilidade de temas foi o estopim para preocupações comigo por parte de amigos. Vejam vocês.
            Eu estava a passear à Beira-Mar e me toca o telefone portátil. Era o Chico. Foi direto ao ponto. Contou-me que acabara de receber telefonema de sua filha, minha leitora, alarmada com o texto que eu escrevera. Queria saber se eu estava bem. Segundo ela, o texto estaria repleto de notas tristes e, talvez, de choroso lamento pré-suicida. Ele, por sua vez, e já contaminado pelas preocupações da jovem, também se mostrava hesitante ainda que profundo sabedor de minha alegria e afeição à vida.
            Sexta, ao chegar a certo boteco para tomar uns drinques, fui abordado por um grupo de amigos que se sentavam a uma mesa. De onde estavam me chamavam, acenando freneticamente e aos gritos. E indagavam se eu estava bem. E mais: sofri repreensões qual um menino levado após sua estripulia. Horas depois, sob efeito de leve libação alcoólica, me ardia a orelha. Passava-lhe suavemente os dedos a examinar se o puxão teria sido forte o bastante para causar tal sensação. Não conseguia me lembrar de ter sido vítima dessa antiga forma de punir garotos travessos. Eis o que se pode causar ao se escrever texto mais intimista.
A essência do homem é rica em tristeza e é precisamente ela o que nos torna homens. Não há homem sem essência nem há homem sem tristeza. Dir-se-ia ser essa a sua maior penalidade por se ter afastado do Criador. Não fosse isso, o que seria? Não me parece haver outra explicação para essa ubíqua melancolia. Faltou aos queridos amigos o conhecimento da possibilidade menos aventada, porém mais provável.
E o que escrevi, afinal? Nada demais. Como diz o título – “A espera” – falo de uma espera. Ou melhor, não falo de uma espera, mas em que pensava durante ela. E o que durante ela pensei foi devaneio incompreensível e enigmático para muitos ou pura prosa poética para outros. Que importa? Justamente o tema principal no qual pensava durante tão interminável espera era a falta de temas sobre os quais escrever. Das profundezas da ausência de temas surgiu o devaneio que a muitos pareceu um chororô pré-fatal, uma conclusão sem pé nem cabeça com nítidos sinais da leitura feita ao açodamento da vida.
Sobre o que mais falo? Faço uma confissão que, presumo, não foi percebida – tinha um assunto a discorrer, mas o considerei impróprio em demasia, e me saí com o ditado das três coisas que não voltam mais. Há que se considerar a palavra escrita ainda mais irrecuperável que a pronunciada, e isso deixei bem claro. Escrever já é uma exposição severa e inolvidável de si mesmo. Melhor refletir com esmero se se deve ir ao mais íntimo da essência do ser antes de lhe dissecar as entranhas aos lobos. Ademais há a questão da idade. Certos assuntos não caem bem a certa altura da vida, se expostos fragorosamente. Então, o devaneio era sobre assunto da intimidade mais íntima do autor.
Os amigos perceberam a tentativa, mas julgaram errado o assunto, pressupondo uma tragédia shakespeareiana ao desfecho. Ora, havia angústia, é verdade, mas a angústia da obrigação de permanecer quieto. A quem escreve não interessa a quietude do silêncio nem o sufocar os sentimentos. Essa é a dor maior de quem faz arte. O artista é um masoquista incorrigível, posto que somente a dor lhe possa inspirar os mais idílicos temas; adora o momento em que aquela o abate porquanto sabe que dela colherá a matéria prima de seu poema, de seu quadro, de sua música, de seu texto; que, por sua vez, lhe alivia aquela que o faz sofrer.
Não é o masoquismo diminuidor aquele que solapa quem cria arte – ele é conseqüência do processo sofrer-criar. Depois, o descanso e o alívio qual o da prenha que dá à luz. A dor do parto em muito se assemelha à do artista ao criar e, quiçá, este em muito se assemelhe à pejada que se regozija em seu sofrimento de trazer à vida o seu amor mais profundo e mais sagrado. De onde viriam tais sublimes obras, o filho e a arte, se não do Senhor?