sábado, 8 de outubro de 2011

A guerra contra o Piauí


            Hoje abro o jornal e o que vejo? O Piauí quer tomar terras do Ceará. Outro dia escrevi aqui mesmo – ou terá sido noutra parte? – que o magnífico vizinho estaria a invadir o Ceará dada a quantidade de imigrantes, temporários ou definitivos, aqui vivendo. Pois hoje, em matéria estampada à primeira página, a certeza.
            O Piauí entrou na justiça contra nós querendo reaver sabe-se lá quantos milhares de quilômetros quadrados que reclama serem seus. Acusa-nos de tê-los tomado ou deles nos apropriado indevidamente.
            Já me decidi: segunda-feira próxima, ao encontrar amigos e conhecidos piauienses por aí, onde quer que seja, lhes avisarei que estamos em guerra e que, doravante, qualquer ato suspeito da parte deles será considerado hostil. Como bom soldado que sou, não posso permitir ao inimigo vantagens indevidas. Minhas suspeitas prévias se confirmaram sem a menor sombra de dúvida. Se meu blog fosse mais lido, ou lido por maior número de pessoas, teriam me dado ouvidos e não estaríamos passando tamanho vexame. Eis aí tudo. Paciência. Creio ser ainda possível uma eficaz defesa.
            Também, no mesmo periódico, outras notícias de interesse supremo, mas que minha memória teima em não lembrar. O interesse não é meu, é óbvio; se fosse, lembraria. A propósito, havia um bom tempo que os jornais não despertavam meu interesse. Com efeito, hoje o fez de forma puramente casual, quando passei defronte a uma banca de revistas. Não fosse isso e a importante nova sobre a guerra que se avizinha seria por mim ignorada. Estou, desde então, tão logo fiquei ciente, a limpar meus fuzis, metralhadoras, pistolas e bazucas. Guardo comigo verdadeiro arsenal desde os tempos da caserna. Os piauienses não perdem por esperar...
            Sei, sei, dirão que ainda não existe uma declaração de guerra, e é verdade. Porém, todos sabem o que acontece quando um estado é assaltado por ímpetos imperialistas e desejos expansionistas. Assim bem ensina Churchill nos primeiros capítulos de seu “Memórias da segunda guerra mundial”. E não só ele, mas qualquer autor de capítulo que trate da história das guerras. Assim, urge o armamento geral e irrestrito.
            Serão também necessários os espiões, milhares deles. Há piauienses insuspeitos entre nós e é preciso desmascará-los. Se deixados livres a agir podem representar nossa derrota. Tenho cá comigo alguma idéia de quem seriam esses infiltrados, e já a estratégia para capturá-los. E devo alertar aos cearenses que hoje habitam território inimigo que se acautelem – devem estar sendo, da mesma forma, considerados olheiros indesejáveis e alvo fácil do serviço de contra-espionagem piauiense. Devem retornar, numa retirada heróica, o mais rápido possível!
        (Lendo a matéria vem-nos a enorme, quase incontrolável, vontade de rir.)