domingo, 7 de outubro de 2012

Personae non gratae


          Vejam os queridos leitores, seguramente entediados de minha interminável lengalenga, como na vida tudo depende do tempo e do lugar. Absoluto mesmo só a velocidade da luz, segundo o senhor Albert. O que é aqui, é possível que não o seja mais ali; o que está perto, é possível que numa fração de segundo esteja numa lonjura inimaginável; e assim descobrimos que nossos sentidos são incapazes de detectar uma realidade cada vez mais presumidamente evidente.
          O caso é que ontem fui ali, à Casa do Frango, degustar uma comida japonesa. Não sei o que diriam os entendidos nas misturas de sabores, mas aprecio uma cerveja Heineken durante a refeição da comida oriental. A mim ela me parece uma combinação perfeita. 
          Todos sabem, hoje é dia de eleições, e vigora a lei seca. Por isso resolvi adquirir por antecipação algumas Heineken para o caso de desejá-las ao dia de hoje. Desço ao mercadinho da própria Casa do Frango e descubro o inusitado: a cerveja no mercadinho cá embaixo é quase 50% mais barata que a mesma cerveja lá em cima no Sushibar. 
          Concluí que, à próxima vez, pedirei ao garçon que me sirva das cervejas cá debaixo. Ele certamente engendrará mil e uma justificativas para uma diferença tão significativa e eu acabarei por ceder. Há querelas onde não se deve querelar. Nada há que me obrigue a pagar mais caro quando posso pagar mais em conta. Se pago, pago porque quero, porque escolhi pagar. E estamos conversados. 
           Pior é quando se é obrigado, como hoje. Sou obrigado a votar. Se não o fosse, ainda assim votaria. Há, dentre os dez, apenas um ou dois candidatos que seriam bons prefeitos para essa decadente cidade, se eleitos fossem. Mas a injustiça do pleito favorece os candidatos das hostes do poder político e financeiro, numa clara inclinação da eleição desde quando se inicia a campanha. 
          Assim, tudo o que é desigual em se tratando de regras só pode produzir um resultado que traduz tudo, menos quem é o melhor. A consequência é que, no caso de Fortaleza, ao final da campanha a eleição demonstrou uma polarização. Os candidatos "oficiais" irão, ao que tudo indica, ao segundo turno, e seria nesse momento que o eleitor consciente teria o direito de não ir à urna e abster-se.
          (Eu disse "polarização" mas ela não há, de fato. Os candidatos oficiais são farinha do mesmo saco; estão brigando pelo poder municipal apenas para demonstrar sua força e, claro!, usufruir das benesses que a alta corte proporciona. Não dão a mínima para o povo.) E como mentem! Como prometem o que não podem cumprir! Dizem pura e simplesmente o que o eleitor quer ouvir, exceção feita ao eleitor consciente. 
          E só agora percebo que usei por duas vezes a expressão "eleitor consciente", ficando a me perguntar o que seria essa espécie de gente, se é que os há. Eleitor consciente é o que conhece a verdade; seria uma boa definição. Eleitor consciente é o que não se vende ou não vende o seu voto; idem. Com a lei da ficha limpa poder-se-ia também defini-lo como aquele que não vota em candidato ficha suja; vem bem a calhar.
          Mas a definição que me parece a mais visceral seria: eleitor consciente é o que não é apaixonado. Todos sabem, e os que não sabem fiquem sabendo: - apaixonado é aquele fulminado por uma paixão. (Dirão os mais afoitos que estou a tergiversar, mas invoco-lhes a calma e a paciência.) 
          Ah, a paixão... Diz o pai dos burros sobre a paixão: perturbação do ânimo; grande inclinação ou predileção; amor ardente; e a que me parece a grande definição de  paixão quando aplicada ao eleitor - parcialidade. (http://www.priberam.pt/DLPO/default.aspx?pal=Paixão)
          A fim de fisgar alguns apaixonados fiz ontem na rede social uma mini-experiência. Postei lá a mentira que corre solta Brasil afora dando conta de que a respeitada revista Forbes teria divulgado num de seus volumes a informação de que o senhor Luís Inácio Lula da Silva teria entrado na lista das pessoas mais ricas do mundo. Rapidamente vieram pessoas contradizer a facilmente demonstrável mentira. Basta ir à pagina virtual da revista para confirmar a falsidade da informação. A falsa verdade fora postada na rede social por pessoas que notoriamente nutrem uma aversão por este senhor, uma forma de paixão às avessas. 
          Ao mesmo tempo corre solto na rede social um texto do senhor Doutor Manoel Pastana, Procurador da República, onde explica com detalhes a farsa que os procuradores tuiuiús, alinhados com as esquerdas, montaram para o julgamento do mensalão (http://www.manoelpastana.com.br/index.php/noticias/694-lula-dirceu-e-os-tuiuius-a-realidade-oculta-do-mensalao-titulo-1.html). O texto, necessariamente longo pela riqueza de detalhes e de citações de leis e trechos de depoimentos de testemunhas e réus no processo, é claro feito água pura e cristalina e só revela uma paixão do autor, já que estamos a falar em paixão: - a que se cumpram as leis e os ritos legais do país. 
          Pois qual foi minha surpresa quando um amigo, comentando a mentira da lista atribuída  à Forbes, diz: "Fernando Cavalcanti, essa lista tem tanta credibilidade quanto os artigos do Manuel Pestana." O amigo ainda escreveu incorretamente o nome do corajoso Procurador, que anda por aí escoltado por policiais federais por ser ameaçado e jurado de morte. 
         Mas há pior. O amigo é ilustrado e sensível médico, apreciador das artes e homem de bem; é homem sério, compenetrado com seu mister de aliviar a dor do ser humano que sofre; é homem honesto; é homem de alma branca, enfim. 
          Não conheço pessoalmente o Doutor Pastana, mas seus artigos transbordam a alma do homem de bem, combatente, zeloso, corajoso e amante das leis, das boas leis; seus artigos transpiram contundência, lucidez e visceralidade, não poupando poderosos que tentam infringir a lei; põe à pena seus nomes e afirma categórico que não calará pois que não teme a morte. Como duvidar de um homem que põe sua vida em jogo para defender a justiça e as leis de sua pátria? Como menosprezar as valiosas informações do Doutor Pastana, contidas em seu artigo?, informações  que até mesmo nossa imprensa marrom nos nega em sua eterna pusilanimidade e conluio com os homens de poder do momento? Por que razões o meu querido amigo e homem de bem se contrapõe a outro homem de bem?
          Só há uma explicação: - a paixão. O amado amigo age como os apaixonados que publicaram a mentira que usei para demostrar o que me propunha. Ele e aqueles não são movidos pela imparcialidade da verdade; estão a movê-los suas predileções e inclinações identitárias. Foram fisgados pela tendência que temos a cultuar personalidades per si, não importa o que elas façam, o que elas digam. Cultuam o personagem, a persona, o homem. Calcaram a pés as idéias, os ideais, a moral, a verdade, mesmo sendo boas pessoas como meu amigo.
          Os que plantaram a mentira na intenção de denegrir a imagem do criminoso Lula – há provas disso – estão a agir como os policiais norte-americanos que plantaram provas contra o senhor O. J. Simpson no caso do assassinato da ex-sua então mulher Nicole Brown e seu amigo Ronald Goldman ocorrido, me parece, em 1994. Não havia necessidade. O criminoso seria condenado sem a mentira, tanto que mais tarde ele cometeu vários outros delitos graves e está a cumprir 33 anos de cadeia. 
          Eis, portanto, o que ocorre mesmo ao homem de bem quando imerso no banho dos mediadores químicos da paixão. Nada quer ver, nada quer ouvir, nada quer sentir. Seu prazer é amar a persona, ainda que lhe seja non grata. 

O Procurador Doutor Manoel Pastana é contactável no endereço contato@manoelpastana.com.br