quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Não queremos nem um nem outro


          Meus mais antigos leitores, se os tiver, sabem que sou um homem que adora frases. Uma frase nem sempre é uma frase, e é notório que há frases e frases. Pois gosto daquelas, das frases que são verdadeiras frases. É bem possível que alguém salte de lá e me indague como sei quando uma frase é aquela frase, e direi que nada mais simples. Uma frase é uma frase, para mim e em minha humílima opinião, quando fica a ressoar em minha mente, como se emitisse eco infinito e constante; durmo e acordo com ela, como se fora uma obsessão musical. 
          É fácil aos queridos leitores perceber que não estou a emitir juízo de valor àquelas frases e que, portanto, elas podem transmitir boas ou más idéias, positivas ou negativas emanações, estimulantes ou desanimadores prognósticos. Diria até que por isso mesmo elas me obcecam; elas constatam e denunciam os limites extremos de qualquer coisa – pode ser que delatem um coração altruísta ao limite ou que exponham uma cretinice sem tamanho, para ficar apenas em dois exemplos.
          Outro dia um amigo, para minha mais completa e recente decepção, disse a seguinte frase: -"Não existe a verdade; o que existe é a interpretação".  E seguiu explicando que vários filósofos já cantaram e decantaram tal idéia, esquecendo-se de citar pelo menos um destes. Direi mais. Direi em que contexto a disse: - a propósito do julgamento dos mensaleiros do PT.
          O Procurador da República, Doutor Manoel Pastana, tem publicado em seu site, cujo endereço é www.manoelpastana.com.br, vários artigos em que aborda os fatos jurídicos do referido julgamento. Cita leis que foram infringidas, denuncia as provas materiais contra quais e tais réus, explica como os procuradores que fizeram a denúncia construíram uma peça frágil em conteúdo probatório para livrar a cara do ex-presidente Lula, denuncia a existência de um grupo de procuradores que age dentro do Ministério Público Federal como criminosos de colarinho branco a defender os interesses petistas, e por aí vai. Doutor Pastana dá nome a todos os bois, sem uma mísera exceção. 
          O caso é que meu amigo, apaixonado pelo lulo-petismo e inconformado com as evidências,  não tendo mais argumentos para debater sobre inocência e culpa no julgamento, fez o que faz todo petista quando flagrado em penosa situação: - jogou a culpa na inexistência do fato. Como todo fato é uma verdade incontestável e absoluta, esticou a baladeira e decretou a morte desta. As assinaturas do ex-presidente da República editando Medidas Provisórias e decretando leis para fornir o caixa do esquema, por exemplo, são simples e inocentes atos de um grande líder em prol de seu povo e de seu país, mesmo que tais medidas provocassem o faturamento recorde (3 bilhões de reais) de um obscuro banco privado que emprestava dinheiro "sem garantias" ao PT, o BMG, possuidor de apenas 10 agências, maior do que o faturamento da Caixa Econômica Federal com suas 2000 agências no ano em questão. Como não existe a verdade, fica tudo aí a mercê da interpretação de cada cidadão. 
          Disse ainda mais o meu amigo. Taxou o Procurador que revela todo o esquema lesa-pátria de "caluniador". De fato, concluí, no ribombar das frases de meu amigo, que o Doutor Pastana é um caluniador de marca maior e de primeira grandeza. É um caluniador de que o Brasil está muitíssimo necessitado: – é um caluniador de bandidos. E assim, ficamos meu amigo e eu em paz, já que em pelo menos alguma coisa acordamos. 
          As frases de meu diletíssimo amigo só não me atormentaram mais porque outras frases me interromperam o processo de tortura. Tudo porque fui cair na besteira de abrir o jornal O Povo, cada vez mais suspeito de relação incestuosa com os poderes constituídos, e ler a reportagem da bela jornalista Kamila Fernandes. Diz a manchete o seguinte: "Eleitor (em Fortaleza) decide manter grupo hegemônico". Conta o pai dos burros – e aí me incluo, nos burros, porque sou um deles – que hegemônico é o que tem a supremacia, que por sua vez significa ou o que tem a superioridade, ou o que tem o poder e a autoridade. Evidentemente a jornalista se referiu ao grupo que detém o poder. Se dissermos de outra forma a manchete ficaria "Eleitor decide manter no poder grupo que já detém o poder". (Sei que não soam bem as repetições, mas aqui ela serve a enfatizar o óbvio.)
          Entretanto, o que a manchete não diz dizem os números, ou por outra, os números insinuam que a manchete mente. Mente porque o eleitor, e entenda-se por eleitor a superioridade, a supremacia e a hegemonia numérica, não decidiu manter no poder o grupo que está no poder. Ao contrário, a maioria (quase 55%) ou 743951 eleitores escolheram outro candidato que não o do grupo que ora ocupa o poder, ou anularam seu voto, ou votaram em branco. Estes últimos totalizaram 103009 votos. Se para o grupo do poder foram 610002 votos, temos que estes senhores receberam menos da metade dos votos ( pouco mais de 46%). Então, se alguém "decidiu" manter no poder os que já nele estão, não terá sido o pobre e desprotegido eleitor.
          Assim, se a Kamila Fernandes novamente afirma, no desenvolver a matéria, que "o fortalezense resolveu levar para o segundo turno das eleições os dois grupos que já detêm a hegemonia política da capital e do governo do estado", o meu amigo que assassinou a verdade diria que há aqui uma oportunidade a várias interpretações, e eu mais uma vez com ele concordaria em gênero, número e grau. A leitura que se pode fazer, com legitimidade e pertinência, e que teima em expor as podres entranhas de nosso modo de eleger, é a de que o sistema eleitoral vigente não traduz os anseios do eleitor, não contempla sua vontade. Vê-se que ele não capta o que os eleitores não querem. Ora, se a maioria dos eleitores não quer o grupo hegemônico, como justamente ele vai exercer o poder? Há aí algo de muito errado ou equivocado, para ser mais brando. 
          Seria possível introduzir nesse sistema eleitoral que vige um dispositivo tão significativo como este, o de evitar levar ao segundo turno duas forças cuja soma de votos é menor que a metade dos votos válidos? Ou isso ou a criação de um novo sistema, sendo este mais representativo da vontade popular. 
         Fico me perguntando se ao invés de dez tivéssemos doze candidatos; e se ao invés de doze tivéssemos vinte; e se ao invés de vinte tivéssemos trinta... A eleição para prefeito assemelhar-se-ia à eleição para vereador. É provável que a soma de votos dos dois candidatos mais votados fosse progressivamente menor e ainda assim, nesse sistema, seriam esses a disputar no segundo turno. Tudo isso demonstra uma combinação aterradoramente pouco representativa de nosso sistema político ainda mais exacerbada por nosso sistema eleitoral. O resultado é que "elegemos" governantes que nenhum compromisso têm com a sociedade. Isso tem-se tornado cada vez mais evidente.
          Voltando à reportagem de Kamila Fernandes, diz ela lá na frente o seguinte, após ter dito o que teria resolvido o eleitor quando acabamos de demonstrar que o coitado nada resolveu: "Juntos, os candidatos que não conseguiram ir para o segundo turno tiveram 51,22% dos votos, o que demonstra que uma grande parte do eleitorado não gostaria de ver nem a continuidade da atual administração, nem a entrada do grupo do governador no poder do município". Aqui ela comete um equívoco: a soma dos votos dos outros candidatos totaliza 47,34% dos votos válidos; esse percentual sobe para 54,95% quando aí incluímos os votos em branco e nulos. Em suma, contradiz o que afirmara ao início da matéria.
          Há mais. Não é apenas uma grande parte do eleitorado que não quer para prefeito nem o candidato da atual prefeita nem o candidato do senhor governador: - é a maioria absoluta dele. Pelo atual sistema um desses senhores vai administrar a cidade. Mais de um entre dois eleitores não os quer como prefeito. Vejam que nossos buracos são fichinha diante do buraco que vem por aí.