sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Bem feito!


          Não é que hoje voltei a consultar os jornais?!
          Sou, basicamente, um leitor de manchetes. Se quisermos lobrigar, ao longo do intrincado tecido do tempo, e que está delineada às headlines, nossa história mais recente e mesmo a não tão recente, leiamos as de hoje, as de uma semana atrás, as de um mês, as de seis meses, as de 1 ano, e assim por diante. A mais interessante de hoje foi justamente a da capa de um de nossos diários.
          Diz o seguinte, não literalmente: os prefeitos eleitos para cidades do interior do Ceará no último pleito encontraram as prefeituras em petição de miséria, ou repletas de dívidas e irregularidades. É o que se tem chamado de "desmonte". Em bom e claro português, os prefeitos que saíram deixaram uma montanha de sujeira moral, administrativa e financeira após satisfazer seus interesses no exercício do poder municipal. 
         Se há alguém a padecer em consequência da atitude desses senhores e senhoras, esse alguém é o povo. Não obstante, uma verdade deve ser dita: - é esse mesmo povo o que se vende a esses políticos canalhas e os elege. Então, merece esse mesmo povo que o digamos: -"Bem feito!" Vende-se barato, a conta sai cara, não há outro jeito.
          Mas há pior, no outro jornal que cobriu a posse do criminoso na Câmara Federal. Sabem o que disse o condenado? Disse algumas frases que só são mesmo proferidas neste rincão sem dono. Uma delas é essa pérola: -"Sinto-me confortável [em assumir o cargo de deputado federal após a condenação] porque estou cumprindo as regras e as normas de meu país". 
          Ora! se sente-se confortável por cumprir uma regra, deveria também assim se sentir por cumprir todas as outras, e não somente algumas, aquelas que lhe beneficiam. E completou, referindo-se a sua condenação: -"Espero que mais cedo ou mais tarde a verdade apareça. Estou cumprindo a Constituição." Se para ele a verdade ainda não apareceu, o nobre deputado está claramente declarando que todo o julgamento do Supremo Tribunal Federal foi uma mentira deslavada e pública e que seus ministros e elevados juízes são uma farsa, e com isso estão infringindo a Carta Magna. Não é de admirar que o excelentíssimo deputado afirme tais disparates assim abertamente quando sabe-se que seu partido tem como alvos principais, no presente momento, e como únicos obstáculos ainda a serem vencidos na implantação de seu projeto de poder infinito, a imprensa livre e o Poder Judiciário. 
          O elevado funcionário da República disse ainda que alguém só é considerado culpado, e citando novamente a Constituição, após o processo ter transitado em julgado. Ou seja: ele acredita que os recursos de apelação de sua defesa – que foram criados neste país apenas para serem citados por criminosos como ele quando interpelados sobre os crimes que cometeram – ainda lhe beneficiarão em alguma coisa. E – pior! – lhe beneficiarão mesmo, já que este criminoso ainda terá a chance de exercer seu mandato por um ano, pouco mais ou pouco menos, enquanto julgam-se o mérito dos referidos badulaques. 
          Para fechar a entrevista com chave de ouro, o homem saiu com a seguinte jóia, após desrespeitar a Corte Suprema através de seu discurso difamador: -"Respeito os poderes, mesmo discordando de certas decisões." Ora! o homem implicitamente desrespeitou e depois explicitamente disse respeitar! Vejam que o político é um ser letrado na tergiversação e no discurso oportunista e caviloso. Não há que se surpreender. 
          O que quer que aconteça ou que venha a seguir, o mais cômico de tudo é que o senhor José Genoíno, em assumindo seu mandato de deputado federal, torna-se legislador, o homem que faz as leis, as mesmas que ele quebrou, embora alegue não as ter quebrado, mesmo sob o peso das provas contra ele. Seria irônico além de cômico? ou seria trágico além de patético?
          (Acho que passarei uns três ou quatro dias sem abrir os jornais...)