quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Feliz da morte


          Já nem sei há quanto tempo escrevi a última vez sobre a Unimed Fortaleza ou sobre temas a ela relacionados. Mas de uma coisa sei: - faz tempo. E por que não mais escrevi? Porque desisti. Tudo nessa vida pode vir a tornar-se objeto de nossa obsessão, e estava a me ocorrer que seria esse o caso entre a Unimed Fortaleza e eu. Que fiz? Desisti, repito. Capitular não significa necessariamente a derrota e, de fato, pode sinalizar sabedoria ou, pelo menos, uma tralha a menos a se carregar às costas. Que tenho eu com a Unimed Fortaleza? Que representa a Unimed Fortaleza em minha doce vida? Resposta: - absolutamente nada. 
          Ainda assim devo dizer que tudo o que merece apreciação, merece apreciação. Ora essa! Por que deveria eu, por outro lado, esquecer-me completamente da Unimed Fortaleza? Afinal, ainda sou cooperado. Há mais de três anos inativo, mas ainda cooperado. Esta há de ser uma situação irregular, mas sou cooperado. Pus lá dentro dinheiro do meu bolso, e o que em meu bolso entra não entra fácil.
          O que eu queria dizer é que mais uma vez está para acontecer a eleição para o Conselho Fiscal da  cooperativa Unimed Fortaleza. Será daqui a pouco mais de uma semana. 
          Antes de continuar devo acenar para os leitores que detestam o tema. Uma amiga de Maceió à última vez em que lá estive fuzilou: -"Detesto quando escreves sobre a Unimed!" Paciência... Calado estava, calado permaneci, e perguntei-lhe sobre a chuva e sobre o tempo. Ela esqueceu-se da Unimed e nossa conversa ganhou ares praianos. Assim, não se agastem os leitores menos afeitos ao assunto. A razão é muito simples: o jogo pelo poder dentro da Unimed Fortaleza representa um micro-exemplo do que ocorre no jogo do poder por esse Brasil afora. Conchavos, cooptação de adversários, criação de cargos-cabides, tudo o que ocorre na nojenta política brasileira também ocorre na política da Unimed Fortaleza. Seria engraçado se não fosse trágico. O leitor que julgue nada ter a ver com o caso surpreender-se-ia se sobre ele se debruçasse.
          Com quase quatro mil cooperados – 3.815 parece ser o número exato – e cerca de 370 mil usuários , a Unimed Fortaleza arrecada e movimenta uma montanha de dinheiro que faz brilhar os olhos das raposas. Não é à toa que, já se vão 11 anos, o mesmo grupo ocupa os cargos de direção da cooperativa. Esses diretores são, hoje, milionários após esses anos percebendo pró-labores elevadíssimos. A maioria, senão todos, desde então nunca se sentou à cadeira de seus antigos consultórios para atender seus pacientes, hoje minguados ou inexistentes. Jamais outra vez, desde que lograram o controle da cooperativa, sentaram-se à cadeira de seus consultórios para provar das medidas que implementaram e que propagam ter sido vantajosas para o médico cooperado. Especializaram-se em anunciar percentuais quando se sabe que percentuais nada dizem se não sabemos sobre qual valor incidem, e dizem ainda mais quando sabemos que esse valor é de uma pequenez abjeta e humilhante. Cem por cento de 1 é 1, e menor que 1 só o zero. Quanto é 100% de zero? Assim, os diretores da Unimed Fortaleza compreensivelmente optaram por continuar a usufruir das benesses e da força e poder do vil metal em quantidade, muito mais certas e melhores que o parco e diminuto advindo do árduo trabalho da prática médica diária.
          Como ia dizendo, eis que avizinha-se a eleição para os novos conselheiros fiscais da Unimed Fortaleza. E o que volta a ocorrer, mais uma vez – pode parecer uma tautologia, mas não chega a ser o caso – é a polarização da disputa: uma chapa "apoiada" por aqueles que historicamente vêm fazendo oposição à direção, a outra "apadrinhada" pela própria. 
          Que candidatos a conselheiros fiscais sigam uma linha oposicionista ou, no mínimo, neutrista não surpreende. O conselheiro deveria ser o elemento que faz, de certo modo, oposição responsável e lúcida quanto aos investimentos, gastos e patrimônio da empresa. Está sempre vigilante quanto ao seu balanço financeiro e contábil e à evolução de seu ativo e passivo. Conselheiros fiscais não podem ser "da situação", uma vez que estão lá para fiscalizar. Eles são a força opositora que dá equilíbrio à "natural" força impetuosa do gestor. (Se estiver errado que me corrijam os amigos entendidos na matéria, excetuados os da direção da Unimed Fortaleza.)
          O que quero dizer é que causa espanto e indignação a descabida existência de uma chapa candidata ao Conselho Fiscal para a qual a direção trabalha no intuito de elegê-la. Diria que chega a ser vergonhoso, escabroso e tenebroso. É, a meu ver, uma gritante distorção que põe em dúvida o papel que esses conselhos têm tido ao longo desses anos. Precisamos mesmo deles? Eles avalizam ou fiscalizam. 
          O indicador econômico-financeiro da Unimed Fortaleza que entra no cálculo de seu Índice de Desempenho de Saúde Suplementar (IDSS) da Agência Nacional de Saúde mostrava em 2011que a saúde financeira da cooperativa não era lá dos melhores. Esse indicador "acompanha o equilíbrio econômico-financeiro das operadoras de plano de saúde sob o ponto de vista das condições de liquidez e solvência, avaliando a capacidade de manter-se em dia com suas obrigações financeiras junto a seus prestadores para o atendimento com qualidade e de forma continua a seus beneficiários" (http://www.ans.gov.br/index.php/planos-de-saude-e-operadoras/informacoes-e-avaliacoes-de-operadoras/programa-ans-de-qualificacao-das-operadoras). Numa faixa de notas entre 0(zero) e 1 (0; 0,2; 0,4; 0,6; 0,8; 1), sendo zero=RUIM e 1=MELHOR, a Unimed Fortaleza tirou 0 (zero) em 4 dos 5 desses indicadores (liquidez corrente, liquidez de necessidade capital de giro, provisão de sinistros a liquidar, suficiência em ativos garantidores vinculados). 
          Deixo a análise detalhada do tema a quem tenha a capacidade de compreender. A mim interessa o alerta sinalizado por esses dados. Vale lembrar que o IDSS é sempre retrospectivo. Ainda assim creio ser possível utilizá-lo como parâmetro de gestão financeira da presente administração, que aí está há mais de dez anos. 
          Outro dia, semana passada, encontrei o meu querido amigo Paulo Ferreira. Há tempos não tinha o prazer de encontrá-lo. Abracei-o efusivamente e ele quis saber se meu número de telemóvel mudara. Tentara me ligar e não conseguira. O que queria?, perguntei-lhe. Queria muito ter podido ajudá-lo, enfatizei. Ele, então, foi ao ponto: - queria meu voto para a chapa apoiada pela direção da Unimed Fortaleza. 
          Ora, é sabida e conhecida minha ojeriza ao que ocorre nessas eleições para conselho fiscal dessa cooperativa, justamente por causa dessa imoral distorção que os envolvidos teimam em afirmar não existir. Tamanho cinismo só faz ampliar meu horror e indignação. Perguntei ao Paulo o que ele pensava sobre tudo isso e ele me explicou que o apoio da direção da Unimed Fortaleza a uma das chapas candidatas ao conselho fiscal seria lícito uma vez que os diretores são, antes de tudo, cooperados e como tal podem e devem apoiar a quem bem entenderem.
          A explicação seria perfeita não fosse o fato, notório e evidente, de que todos os membros da direção apóiam a mesma chapa, justamente aquela que fica conhecida por estar sendo apadrinhada por esta mesma direção. Ora!, se o apoio fosse do cooperado que está à frente da direção e não do diretor que por coincidência é também cooperado interessado em defender sua posição dentro da cooperativa, cada um apoiaria a chapa que bem entendesse. Mas não parece ser isso o que ocorre. O apoio à chapa é "institucional", não pessoal. O apoio é da direção, não é dos cooperados que estão na direção. Não sei se me entendem. 
          Assim, estamos a ver, ainda mais uma vez, mais da mesma ópera bufa. Agora entendo o porquê quando minha bisavó me disse, certa vez, quase aos 100 anos, que estava cansada de viver. Para ela, então, já tudo era um repeteco danado, uma mesmice medonha. Morreu pouco tempo depois feliz da vida. Ou, melhor, feliz da morte.