segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Elogio de bêbo

              Recostado a uma das colunas do restaurante, próximo à mesa do doutor Costa, olhava aqueles machos sentados a bebericar e apreciar os deliciosos acepipes do lugar.
          Ô vontade de tomar uma pinga!... Lambia os beiços que nem cachorro de três dias sem comer. Sim, mas aqui a lambida num era de vontade de comer a deliciosa panelada da dona Moça, mulher do Zé, o dono do pedaço, cozinheira de vante à ré, mas de vontade de beber uma braba. Enchia o copo até a tampa, um desses de requeijão, de vidro, quase meio litro o bicho devia de ter, e entornava ele de gute-gute. Eita, sensação boa! Tinha coisa melhor, não! Tinha dia que já levantava na ira e na intenção da danada. Cachaça boa é o cão! Eita, bicho bom! E de manhã cedinho? Tem coisa melhor, não! Era de café da manhã, de desjejum, como diria a mulher de um bacana qu'eu conheci uma vez. Hoje em dia o difícil é encontrar o diacho do copo de requeijão. Vende mais, não. É tudo de plástico pra num quebrar. A sorte é que guardei uma ruma desses lá no barraco. Mas nem preciso deles porque nunca chego com a cana em casa. Bebo tudo antes. Chego com a bicha na barriga e no juízo. Bicha boa da peste! Vô nem mentir...!
          O diabo é a liseira, a maldita pindaíba. Num tinha um tostão furado nos bolsos.  Tinha gasto tudim no dia anterior, ontem, numa meiota de Ypióca das boas, da branca que a amarela parecia num fazer mais efeito. Devia de ser coisa da minha cabeça. Cachaça é tudo igual. Nem sabia se tinha diferença entre uma e outra. Num devia de ter. Qualquer dia pergunto o doutor Costa. O que botassem, eu bebia. Queria lá saber disso! O negócio era filar a meiota do dia e, se desse, outra pra ir dormir cheio das idéias que dão no sono dos bêbos. Inda bem que hoje a casa ‘tava cheia e o Zé deixava ele vadiar por dentro do estabelecimento. Num fosse isso e... queria nem pensar! Onde arranjaria quem lhe financiasse a gostosa cachacinha? O dindim qu'ele gastou com a cachaça ele ganhou vigiando uns carros na porta da igreja. Cana é bom por isso. É barato que só bolo em fim de festa. É só ajuntar umas moedinhas e pronto.
          Num gostava de trabalhar. Vivia de uns bicos, uns servicinhos que fazia pras pessoas mais conhecidas, emendar um cano furado, rebocar uma parede, caiar um muro novo... Ia levando a vidinha como queria Nosso Senhor. Cachaceiro também é gente! Aproveitava que a negada tinha uma certa pena dele. Não era por ele ser cachaceiro. Era homem de bem, num fazia mal a uma barata, respeitava todo mundo, ajudava as senhoras a carregar peso, e servia às vezes de leva-e-traz nas fofocas picantes e causos de amor proibido. Sabia guardar segredo. A negada confiava nele. Se não lhe compravam a meiota, num usava de chantagem pra conseguir isso, não. Ficava por conta de cada um. Num era nem dedo-duro! Isso lá é coisa de home?!
          A pena que sentiam dele é porque sabiam de sua dificuldade financeira e de sua vida de vira-lata e cachaceiro. Se importava com isso, não. A vida é essa coisa sem rumo mesmo. Num queria nada além de viver apreciando, todo dia, o produto do alambique. Até pouco tempo atrás num sabia de onde vinha a cachaça, mas o doutor Costa, médico do lugar, outro dia lhe deu uma lição sobre o assunto. Falou um monte de coisa que ele num tinha entendido direito. Mas que a bicha era fabricada nesse tal de alambique isso ele num esqueceu de jeit'nenhum.
          Aliás, doutor Costa era o homem mais culto que tinha conhecido. Botava o Zé no bolso. O Zé, com aquela mania besta de parecer sabichão, num sabia era de nada. Quem sabia mesmo das "coisa" era o doutor Costa, médico operador e consultador. Intendia de tudo quanto era doença. Só vendo. Tinha curado uma ruma de gente, umas cortando, outras com remédio de beber. Homem de se admirar, esse doutor Costa. Chegava até a se orgulhar de ter ele como amigo. Doutor Costa num tinha essas frescuras que os outros médicos "tem". Esses são cheios de leriado, de mugangas feito muié de nêgo. Doutor Costa não! É homem humilde, metido com o povo, sabedor da precisão do povo. Conhecia a negada tudim. Outro dia, nem se lembrava mais quando, o Zé levou um passa-fora do doutor Costa que tive foi pena! Foi querer falar de doença causada pela cachaça com o home e se deu mal. Tive foi pena!...
          O diabo é que doutor Costa ia já, já embora e, pelo visto, era o único que podia lhe pagar a meiota de hoje. Queria ferrar a cachaça do doutor, que é home de ganhar um dinherim bom. Faz falta pra ele nadinha. Pra isso foi-se achegando mais, assim como quem num quer nada, rindo das piadas que a negada contava na mesa do doutor, e mais ainda das que ele mesmo contava. Era cheio de puxa-saco, esse lugar. Gente mais besta, essa! Antes que o home saísse, queria demostrar sua admiração por ele. Ficava mais fácil assim. Foi se achegando, se achegando..., aí disse:
          -“Doutor Costa!... aí eu vô dizer...!” – balançava a cabeça positivamente e apontava pro home como quem vai dizer coisa boa. E de novo dizia, cabra besta da muléstia!:
          -“Aí eu vô dizer...” – e rematou:
          -“Nem digo nada!”
          Aí doutor Costa meteu a mão no bolso e pediu o garçom pra trazer a meiota do papudim...