terça-feira, 23 de abril de 2013

Torço por quem ganha!


          Já me conhecem: - não gosto de futebol. 
          Esclareçamos a fim de que não venha de lá alguém mais tosco e queira me julgar a masculinidade por uma simples inclinação. A verdade é que todo e qualquer esporte hoje se tornou algo além de si mesmo. Por exemplo, o futebol não é mais e tão-somente o campo, seus vinte e dois jogadores, o juiz, os bandeirinhas, e a genialidade dos craques ou a ruindade dos pernas-de-pau a emocionar a quem gosta de arte. O futebol hoje é corrupção, objeto de interesses escusos e inconfessáveis, fonte de enriquecimento ilícito e/ou desmerecido, politicalha, e tudo o mais de ruim e torpe que o ser humano carrega em suas entranhas. O futebol se tornou uma ferramenta de controle social das mais perversas.
          O futebol, aquele futebol que jogava o Mané Garrincha, só para citar um exemplo, acabou. Não mais existe o futebol-arte. O que há são jogadores interessados em enriquecer, como todo o resto da sociedade consumista em que vivemos. Dirá alguém que estou a exagerar, e é bem provável que esteja mesmo a exagerar. Fiquemos, então, cada qual com seu cada qual e arremato: - o futebol do qual eu gostava é coisa do passado. Assim, repito: - não gosto de futebol. Ou, melhor: - detesto futebol.
          Já me conhecem: - não vou a estádios de futebol nem a botecos e restaurante cujos telões lá estejam postos para exibir uma partida de futebol. Se resolverem pôr a cantar Ítalo e Reno no telão, vá lá. Futebol nem pensar. 
          Recentemente estamos a trocar figurinhas meu amigo Fernando Antônio Siqueira Pinheiro e eu. Ele, um torcedor apaixonado; eu, essa fina flor de desemoção em se tratando deste assunto. Ocorre que ele, como escritor da mais elevada estirpe que é, me enviou uma belíssima crônica de sua autoria que falava não sobre futebol, mas no bonito cenário familiar que se desenha quando toda a família gosta de futebol, e principalmente se todos torcem pelo mesmo escrete. Os filhos na companhia dos pais, estes na companhia daqueles, o avô, a avó, os irmãos, o cachorro, o papagaio... enfim, todos são bem-vindos a esse momento de união e gozo pelo simples prazer de estar juntos.
          Vamos e venhamos, nada há de mais aprazível do que a família reunida em harmonia. E ainda mais no estádio de futebol, onde o clima já é de festa. Todos são ganhadores. Ainda que a derrota do time querido esteja à espreita, já vale a pena. A crônica de meu amigo diz tudo. Uma pintura de letras é o que ela é. 
          Antes de ontem, se bem me lembro, encontrei o Siqueira no hospital. Ia ele meio açodado, mas ao me ver a lhe acenar de longe deu meia volta e veio ao meu encontro. Ali, pessoalmente, fez ainda mais apologia ao futebol familiar. E insistia: -"Vamos lá, bicho! Hoje o vovô vai dar uma traulitada no Fluminense!" Queria porque queria me levar ao jogo do Ceará contra o Fluminense do Rio de Janeiro. E pus-me a lhe explicar que também meus garotos não gostam de futebol. Preferem namorar ou qualquer outra coisa. Menos futebol.
          Confesso: - em criança ia com meu pai ao PV, e adorava. Tardes ensolaradas de domingo, Fortaleza provinciana de ventos frescos, charanga do Gumercindo, a pequenina torcida do Ferrim, o populacho da do Ceará, tudo isso no Cimento Especial. Quando era clássico eu não gostava: - todos resolviam assistir ao jogo de pé e eu não via bulhufas! Torcia pelo Fortaleza, igualzinho a meu pai. Meu compadre Chico é quem diz: -"Filho que não torce pelo mesmo time do pai é porque tem negão na história..." Quem sou eu pra contestar? 
          Pois, além do Siqueira, me convocavam ontem ao estádio o Casoba, o Almiro, o Beto, todos inveterados torcedores do Ceará; e o Chico só não me convidou porque ele próprio não iria. Aparentemente ia haver uma festa. Meus amigos torcedores do Ceará contavam com a vitória de seu alvinegro sobre o Fluminense. Quem não conseguia um grama de empolgação era eu mesmo. 
          Aconteceu, porém, de o Chico à noite me bater o telefone e me convidar a ir tomar umas e outras. Eu, que penso que depois da família a melhor companhia é a dos amigos, não pude me conter. Fui. E onde fomos havia um telão e nele o jogo do Ceará. E outros tantos agorafóbicos lá se ajuntaram em bandeirolas e camisas preto-e-branco. O que esse povo viu, contudo, não lhe deixou muito feliz. Foi um desastre: - o Fluminense esmagou o Ceará, que jogava pelo empate, ou melhor, por três empates. Assim, após um breve lapso de tempo só havia gente triste no boteco, exceto o Chico, torcedor do Ferrim, e eu, torcedor de ninguém.
          Tudo isso me fez lembrar o dia em que meu pequerrucho se achegou a mim, depois de presenciar alguns amigos a se engalfinharem em discussões futebolísticas, e me inquiriu sério: -"Pai, por qual time tu 'torce'?" E eu: -"Torço por quem ganha, filho." E ele, visivelmente contrariado: -"Ah, pai, mas assim não vale!..." E eu: -"Nenhuma regra diz que não." Ele, já exasperado, retrucou: -"Ah...! assim não pode!" Então, fui lhe explicar que torcer por quem ganha é o melhor negócio, que assim a gente não sofre por besteira. Ele de estorvado que estava acabou por achar muito interessante e vantajosa essa opção. 
          Ontem pude constatar mais uma vez que torcer por quem ganha é realmente o grande negócio. Torço por qualquer time, desde que esteja ganhando. Durante a partida, no caso de não ter outra alternativa que não seja assistir a um jogo de futebol, viro a casaca tantas vezes quantos gols acontecerem e no final comemoro a vitória do time vencedor. Ontem foi a vez de o Fluminense me ter como seu torcedor. 
          Para os inconformados com a minha lida com o esporte anuncio em alto e bom som: a torcida é minha e a dou a quem bem entender, ora bolas!

02.06.2005