segunda-feira, 22 de abril de 2013

Eu e meus pés de pavão


          Estava na enfermaria quando ouvi a voz estridente, imperativa e às alturas no "boca de ferro" ordenar a que todos os acompanhantes dos pacientes que estavam na Emergência se retirassem. E insistia: -"Retirem-se! Os senhores estão atrapalhando!" 
          Sou um neófito aqui no Instituto Dr. José Frota (IJF), mas já aqui atuo faz quinze anos. E nunca, jamais, em momento algum durante esse pouco tempo em que sou cirurgião deste hospital escutara tal coisa. Madrugadas e madrugadas, dias e dias a fio em plantões extenuantes e nunca vira nem ouvira a ordem que expulsava as pessoas do setor nevrálgico do hospital, a Emergência. Ainda mais numa terça-feira, como hoje. 
          Convocação maciça de médicos e paramédicos ao local sempre foram relativamente freqüentes, principalmente em casos de acidentes com múltiplas vítimas ou de vítima gravemente traumatizada. Isso sempre foi mais comum nos feriados e fins de semana. Ainda assim nunca se expulsaram os acompanhantes. 
          O que aconteceu foi o seguinte: - um acidente de helicóptero que transportava quatro pessoas, um político de "renome" e seus comparsas, digo, correligionários. Com a divulgação do fato pela imprensa e pelos órgãos de segurança, outros políticos, familiares das vítimas, a imprensa, curiosos, todos acorreram ao IJF e à Emergência. Dir-se-ia que estavam a distribuir dinheiro no setor. 
          Alguém, então, teve a brilhante idéia de tanger o povo para dar espaço àquela massa humana do "poder", ao que parece um policial de alta patente e que nada tinha a ver com o hospital e nenhum cargo lá ocupa. Posando sua farda mais vistosa e imbuído do espírito de "Gandola" dos tempos ditatoriais, o homem chegou impondo toda a sua autoridade. Faltou apenas que ele expulsasse também os outros doentes para deixar a Emergência inteira e plena a serviço dos "picas-grossas". A menina que funcionava de locutora no momento surfou na onda do "coronel" e decretava: -"Retirem-se!"
          Observem que esses senhores – coitados! –, as vítimas do helicóptero, eram todos da mais velha e vermelha "esquerda", homens preocupados com o povo, desses que bradam "o povo unido jamais será vencido!". Expulsavam o povo que estava na Emergência em busca de socorro, o mesmo povo que querem ver unido e invencível.
          Vejam que não estou afirmando que esses senhores não teriam prioridade no atendimento, até porque um acidente com uma aeronave pressupõe lesões de maior gravidade em suas vítimas. Estou apenas dando ênfase à maneira como a coisa foi feita e em quem a fez. O militar atropelou a autoridade médica de plantão e usou de recurso autoritário em sua ação. E é possível, sim, que na Emergência houvesse um ou mais doentes graves sendo atendidos e que a ação deste incauto militar viesse a prejudicar as pessoas que dominavam a atenção da equipe médica, inclusive levando-as a pagar com a própria vida a intervenção inesperada e altamente inoportuna.
          Contudo, tudo se explica. Há tempos, no Brasil, a "esquerda" fornica com o pior da "direita" a bem da governabilidade. Assim, eis aí a "esquerda" agindo segundo o que ela mesma deplorava. Bem se vê que a "direita" está fazendo escola. Trocando-se uma por outra não se quer um Cibazol de troco. 
          Ao fim da truculência do oficial a serviço da "esquerda", e por contra-ordem de alguém da direção com um mínimo de colhões, os apreensivos familiares e afetos dos pacientes do meio do povo  voltaram a seus lugares.
          No meio da inusitada manhã a boa noticia, após o atendimento das vítimas do acidente com o helicóptero, era que ninguém morrera nem corria risco de vida. A má dava conta de que duas ou três delas corria o risco de ficarem paraplégicas, dentre elas o influente político. Emergiu, então, outro problema que incomoda até agora, horas depois do acidente e ao momento em que escrevo essas linhas: o hospital não dispunha da única droga que consensualmente tem uso potencialmente benéfico quando usada precocemente no traumatismo raquimedular não penetrante, a metilprednisolona. O político e as outras vítimas do acidente aéreo que sofreram trauma raquimedular poderiam se beneficiar do uso da metilprednisolona. 
          Constatada a necessidade premente da droga já que a vítima era "importante", iniciou-se uma operação de guerra para a autorização de sua compra. Resultado: - dali a poucos instantes apareceram milagrosamente carradas de metilprednisolona. A ineficiência e inoperância subitamente deram lugar à eficiência com celeridade e eficácia. Tudo na mais perfeita harmonia entre a demanda e a oferta. 
          É possível explicar por que aquele que é considerado o maior hospital a atender vítimas de trauma no Norte e Nordeste do Brasil não dispõe à mão de medicamento impactante, à luz da ciência, no resultado do tratamento do traumatismo raquimedular? É possível explicar por que razão as vítimas deste acidente em particular tiveram sua necessidade atendida tão prontamente e com tal presteza? É provável que o zé-ninguém  não recebesse tanta atenção para o seu risco de paraplegia. Para ele, nada de metilprednisolona! Entraria para as estatísticas das feridas de coluna que resultaram em paraplegia sem a devida responsabilização de nosso podre e desumano serviço público de saúde.
          Os adeptos do "o povo unido jamais será vencido!" estão a dar as costas pro povo. E nem vamos nos dar o trabalho de comentar o tratamento diferenciado que esses senhores tiveram. Esqueçamos também a metilprednisolona. Tudo isso é coisa de país desenvolvido. Não temos vocação para isso. O diabo é que esse mesmo povo não dá a mínima por ser maltratado. Prefere empunhar bandeiras por dez reais ao dia, ou vender o voto por uma dentadura, um saco de cimento ou uma inscrição no bolsa-qualquer coisa. 
          Saí do hospital mais triste do que pavão quando olha pros pés. Não sei se já viram: - pé de pavão é feio de dar dó...!

19.09.2006