sexta-feira, 5 de abril de 2013

Lei seca de resultados


Tenho a mais absoluta certeza de que muitos dos que têm perdido seu tempo a me ler doravante desistirão. Certamente dirão: -“Sofre de obsessão”! De uma forma ou de outra estarão certos. Mas, que se há de fazer? Lembrar-se do que dizia o Nelson sobre si mesmo: -“Eu nada seria sem as minhas obsessões”!
            O diabo é a realidade de nosso meio. Certas realidades são como doenças crônicas que todos os dias nos atacam em crises, como incômodas sezões. Pois é assim nossa realidade, a realidade do fortalezense. Sobre a guerra que se trava debaixo de nossos narizes já temos comentado em demasia. Há, além dela, outras mazelas da vida nacional que nos envergonham e nos levam a desânimos incoercíveis; a uma enorme e quase incontrolável vontade de ir pro aeroporto e comprar uma passagem para destino internacional, só de ida; a sensações de desamparo e de crescentes e contínuas vulnerabilidades...
            Tempos atrás me jactava de não ler jornais. Em seguida, descobri que nos jornais pululavam as mais densas imbecilidades e os mais espessos idiotas, a se oferecerem como tema a boas crônicas e comentários jocosos; abundavam os acontecimentos mais absurdos que se possa imaginar e as comicidades mais trágicas da paróquia. Foi quando resolvi que lê-los me era mais interessante. Não tomar conhecimento do que está a ocorrer pode ser cômodo e nada danoso. Afinal, o que idiotas, imbecis, tragédias e comicidades trágicas podem nos acrescentar?
Por outro lado, a ignorância consentida e escolhida também nada nos soma e deve, tanto quanto possível, ser evitada. Assim, chega-se involuntariamente a uma encruzilhada, à imperiosidade de uma escolha, e à necessidade de um posicionamento. Lembro-me, há alguns anos, no cenário de uma das eleições para a diretoria da Unimed Fortaleza, o meu amado e querido amigo Fernando Antonio Siqueira Pinheiro me “intimando” a declarar publicamente o meu voto porquanto supunha que minha discrição estaria a indicar minha própria consciência de um “mau” voto. Bramia ele, à época, quase furioso: -“Posicione-se, meu filho! Posicione-se!...” Pois me posicionei, embora não tenha confessado em quem votara. Deveria meu querido amigo saber que meu voto, salvo raríssimas e honrosas exceções, vai sempre para a oposição.
Voltemos aos jornais.
Em que pesem as idiotias e imbecilidades contidas nos periódicos, há lá preciosidades e restrições àquela lamentável regra. Vejam, por exemplo, o jornalista Fábio Campos, o arquiteto e escritor Romeu Duarte com suas belíssimas crônicas, a altura daquele a quem substitui – o saudoso Airton Monte, e a jornalista Adísia Sá.
Hoje li, do para mim desconhecido engenheiro Assis Miranda, um texto primoroso por sua agudeza e lucidez, e que traduz o que buscam aqueles que têm sede de justiça (http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2013/04/05/noticiasjornalopiniao,3033769/o-que-mudou-na-lei-atual-e-essa-a-lei.shtml). Diz o título de seu artigo: “O que mudou na lei atual? É essa a lei?” Ele se debruça sobre a chamada nova Lei Seca. Compara ele a nova com a antiga no que diz respeito à alcoolemia dos motoristas no trânsito. A nova diz não ser permitido ingerir a quantidade de bebida alcoólica que produza no sangue a concentração de 20 mg% da droga sob pena de elevadas sanções (multa e apreensão da carteira e até prisão do guiador). O articulista quer saber se as autoridades inglesas são irresponsáveis, já que lá eles toleram até 80 mg% de álcool.
Tudo, então, se faz claro, muito claro quando ele faz a seguinte indagação: -“Você acha que um atropelador, embriagado, está solto na Inglaterra?, e aqui algum (dos nossos) está preso?” Aqui, segundo ele, está toda a tramóia: - nossa lei pune quem bebe pouco e não causa acidentes, e não pune exemplarmente os assassinos do volante. Diz ele, indignado: -“Por isso, também a violência só aumenta neste país! Isto é, o problema não é de uma lei específica, mas do somatório de leis ‘frouxas’ e de uma mídia que adora ‘factóides’ e promove a adoção de uma lei dessas como se fosse a solução. Dão ao seu propositor e ministros uma projeção extraordinária, dando ao povo a ilusão de que o problema está solucionado, em vez de analisar a questão a fundo”. Mais uma vez alguém expõe o nosso regime de faz-de-conta. Lá, na Inglaterra, os delinqüentes da direção estão todos presos na forma de sua rígida lei.
O senhor Assis Miranda encerra sua indignada preleção implorando: -“Queremos uma lei que prenda o embriagado, atropelador, causador de acidentes e mortes e que seja inócua para quem bebe apenas uma dose, um copo de vinho, uma cerveja”.
Precisa dizer mais alguma coisa?