quinta-feira, 13 de junho de 2013

O pior cego é o que se faz de cego


               Lembra-me o tempo em que de nada se sabia. E sabíamos apenas as notícias locais, o resultado do jogo, da Loteria Esportiva e das previsões do matemático Oswald de Sousa. Até os capítulos das novelas nos chegavam com atraso de semana. Quem viajava ao Sul vinha na empáfia de quem é sabedor por antecipação do que corria o mundo. Nós, que aqui ficávamos, nos encolhíamos como caramujos, humilhados de nossa ignorância televisiva e novelesca.
                Hoje não. Hoje o sujeito é corno e já se sabe antes. Verdade é que ainda é ele o último a saber, mas o corno de hoje é um corno cuja duração de sua ignorância é mínima, ainda que última. No mais, a notícia quase antecede o fato. Dir-se-ia ser esta a época dos vaticínios porquanto quase tudo se pode prever.
                  Considerando essas conclusões aparentemente óbvias – esta é também a época do óbvio –, não é possível compreender que ainda tanta gente se deixe levar por histórias de lobo mau. Mas é exatamente o que se vê no mundo real. E por que digo isso? É tudo muito simples. Para onde se olhe há informação; para onde se incline os ouvidos há informação; para onde se cheire há de se sentir odores mais ou menos agradáveis dando conta de atividades mais ou menos cheirosas; e assim por diante, só não sabe das coisas quem realmente não quer.
               Contudo, levemos em conta um aspecto intrigante. Existem duas facetas de uma informação: - a informação em si e os fatos de que ela dá conta. Veja-se, por exemplo, que hoje tudo está volatilizado. É como se a realidade tivesse dois estados físicos. No estado sólido estariam os fatos e no estado etéreo a informação que lhe corresponde. Assim, é-se obrigado a concluir que a informação está sujeita, como tudo o que é etéreo, aos ventos e às tempestades pessoais de seus autores/veículos, ao passo que os fatos são incontestáveis.
                    O diabo é que, como não se pode estar em todo lugar, estamos bem mais vezes sujeitos ao que se diz dos fatos do que dos próprios. Um exemplo típico me ocorreu outro dia, antes de ontem, acho. Estou eu a navegar pela rede mundial de computadores e me deparo com o blog de certo jornalista. Em seu texto mais recente ele saiu a falar do Movimento Fortaleza Apavorada, iniciativa da sociedade civil escandalizada com a onda de violência que ora grassa na capital cearense. Começo a ler a peça e, logo ao início, percebo que o autor quer lhe condenar os fins, como se os fins do Movimento não fossem aqueles para os quais ele deveria ter vindo a existir na reles, mera e estúpida opinião daquele autor.
               Ora, se é fato notório – fato notório é uma deslavada tautologia, se me permitem observar – que a violência em Fortaleza está descontrolada e é ubíqua, atingindo a ricos e pobres, seria natural que isso incomodasse a muitas e muitas pessoas de bem. Seria também natural que essas pessoas, acometidas de um medo próprio de quem teme não somente por sua vida, mas também pela vida de todos os seus entes sob o mesmo risco e, agindo sob o instinto de sobrevivência, se aglomerassem em torno da causa comum, do perigo comum, e se organizassem para exigir o que lhes é de direito. É óbvio que o Movimento Fortaleza Apavorada não nasceu para resolver o problema do abismo social de Fortaleza. Somente um imbecil com o juízo nas ancas seria capaz de pensar e escrever tal disparate, como fez o referido jornalista dono do blog que tive o desprazer de conhecer. Se este senhor se tivesse dado o trabalho de ler a página do Movimento na rede social, teria visto o que lá está explicitado como objetivo único do movimento.
                  Entretanto, como já disse, há o fato e a informação do fato. O jornalista escolheu, tendo em vista suas tempestades da alma, ter uma opinião e fazer uma leitura toda pessoal do fato criando, assim, uma visão distorcida do mesmo. Ainda que esteja tudo às claras, o sujeito resolve, ao seu bel prazer, levar para o campo do etéreo aquilo que é real, que é fato incontestável.
               Há mais, infelizmente. (Agora me lembro que me permiti ler ainda mais um pouco a pitoresca peça.) O sujeito, o tal jornalista, deixando transparecer suas idéias pouco embasadas na realidade, em certo ponto do texto sugere que a causa da violência na cidade se dá por causa da pobreza e do já referido abismo social. Sem querer, ou quem sabe num lampejo de um ato falho impróprio ao comentário, demonstrou, ele próprio, um extremado preconceito. De “defensor” da causa da pobreza se transmutou no acusador dos pobres da cidade. E, mais uma vez, saiu dos fatos para a alucinação. Para ele, o Movimento Fortaleza Apavorada está acusando os pobres como os responsáveis pela violência que ora vige, e que a classe média da cidade, representada no Movimento, está é incomodada por não ter tranqüilidade para ir ao Iguatemi fazer compras.
               Ao mesmo dia da publicação deste inútil e precário texto, a imprensa divulgou as imagens, feitas por uma câmera de TV em circuito fechado, de assalto a mão armada praticado por três elementos a uma padaria no Bairro de Fátima(http://g1.globo.com/videos/ceara/cetv-1dicao/t/edicoes/v/assalto-com-refem-em-comercio-assusta-clientes/2630470/). Lá é possível constatar que os assaltantes eram homens bem aparentados e bem vestidos, longe daquela presunção do bandido miserável e faminto.
               Ainda ao mesmo dia, uma amiga me relatou o assalto de que fora vítima. O carro subitamente estacionou à frente da parada do ônibus onde ela estava e dele desceu um sujeito bem apessoado que lhe anunciou, calma e tranquilamente, que queria sua bolsa e todos os pertences que por ventura carregasse aos bolsos da vestimenta. Enquanto falava, subia com a mão esquerda a barra da bela camisa que usava a fim de lhe mostrar o punho reluzente e prateado da arma de fogo que trazia consigo.
               E, assim, todos os dias se publicam na rede social, à página do Movimento Fortaleza Apavorada e em outros domínios, relatos de assaltos praticados por pessoas que nem de perto se assemelham a indivíduos necessitados do mínimo, revogando completamente a nefasta idéia de que são os pobres a realizar esses atos criminosos em sua maior freqüência. A fome não é a causa desses crimes. Afinal, não estão aí os “Bolsa” a suprir do mínimo aqueles que não o tinham? Não se tiraram milhões da extrema pobreza? Não ascenderam milhões da classe C à classe B?, e outros tantos da classe D à classe C? Se tais informações não traduzem a verdade dos fatos, serão elas o etéreo daqueles?
               Portanto, além do assustador crescente da violência urbana em nossa cidade, assusta também a capacidade de muitos de, com seus discursos repletos de maviosidade e aparente interesse nas causas populares, enganar a muitos que não estão atentos ao que ocorre no campo da realidade, ainda que esta realidade esteja a se esgoelar na ânsia de ser vista.