sexta-feira, 7 de junho de 2013

Terror

Estou chocado. Melhor dizendo, estou estarrecido. Sinto uma espécie de letargia e dormência em meu corpo, como se fosse desfalecer. Há em mim, também, uma profunda tristeza, um desgosto enorme, uma sensação de perplexidade e de incredulidade. Há dias venho tentando, num exercício mental de otimismo, olhar a realidade sob outra óptica, sob novos ângulos, ver o que de bom ainda há para se ver. Mas agora, nesse exato momento, tudo o que me invade é aquela sensação de incredulidade e de perplexidade, além do recrudescimento de todas as outras visões nebulosas que me assaltam há dias.
Sou um sujeito de espírito e mente alvissareiros. Não me abato com facilidade. E, se algo me faz fraquejar, logo seu efeito se dissipa como uma sezão de um só tremor. Sou dado à boa pândega, à pilhéria, ao riso, à boa e desinteressada conversa com amigos cuja amizade cultivo há mais de 40 anos. Mas hoje, agora, sinto um vazio enorme, como se, repentinamente, fosse alvo de uma orfandade atroz.
Entretanto, fez-se, de fato, um outro e mais jovem órfão. Mais um órfão da violência que grassa solta, lépida e fagueira, em nossa cidade. Quem é o jovem órfão? Um bebê de apenas seis meses de idade. E não somente um novo órfão, mas também uma nova vítima. Sim, vítima de uma arma de fogo, de uma bala que lhe varou o ombro cujos ossos ainda nem ossos são. Está internado ali, no hospital, no hospital que ninguém visita, donde a nobreza-burguesia vez ou outra se utiliza; aqui nessa cidade onde o inferno parece ter baixado, feito pousada, feito estadia por sabe-se lá quanto tempo.
A bem da verdade, o bebê não é a primeira criança que lá internou vítima de outra bala, de outro monstro, criado pelos monstros que o armaram, que já nem tão indiretamente o armaram; os monstros que estão encastelados em nossos palácios, gabinetes e plenários. (De que nos servem hoje os contextos?) Várias outras crianças lá baixaram e, como se vê, continuam baixando. Certeza é que assim continuará, posto que, quem quer que seja o monstro a puxar o gatilho, ele está à solta, livre para agir, impedido apenas por sua vontade de eventualmente acordar ao dia seguinte sem a vontade de matar, de ferir, de fazer sofrer.
A orfandade deste bebê decorre da morte de sua mãe, que o segurava ao colo no momento da agressão. Observem que o monstro é mesmo e, de fato, e, com efeito, um monstro. Nem mesmo a pequena criança indefesa o impediu de prosseguir em seu intento. Disparou sei lá quantos tiros. Eu quis descer à enfermaria das crianças para saber melhor do fato, mas algo me prendeu, o terror talvez. Temia açoitar ainda mais as nuvens da tempestade que vem abatendo o meu espírito diante de tanta insensatez. Mas – pobre de mim! – a privação da visão da pequena vítima de nada adiantou, como bem podem observar ao início deste lamento. 
      Um grito entalado na garganta me sufoca. Uma lágrima que me corresse sobre a face não seria capaz de me aliviar a dor. Sei, sinto: - apenas o brado real desse grito me destampará do peito a tonelada de minha ira que quer ganhar as ruas da cidade e acusar os monstros que querem a nossa morte, a nossa vida, a nossa indignidade. E nem farei a comum pergunta que se faz quando o “até” e o “quando” nos interessam. Ela me assusta ainda mais...