domingo, 29 de setembro de 2013

O VOO DE ÍCARO DE PAULA LIMA

          A jornalista Paula Lima, do jornal O Povo, devia estar bêbada ou sob efeito de algum tipo de droga. Ela é a autora de uma matéria publicada no portal do periódico intitulada "Dez motivos para se orgulhar de Fortaleza" (http://www.opovo.com.br/app/fortaleza/2013/09/26/noticiafortaleza,3136598/dez-motivos-para-se-orgulhar-de-fortaleza.shtml). 
          Digamos de outra forma. Paula Lima devia estar sob efeito de alguma droga quando escreveu a matéria. Todos somos vulneráveis a uma farra, a um encontro entre amigos regado a um bom vinho ou coisa que o valha. Não estamos aqui afirmando que a jovem é usuária de drogas, no pior sentido. Sabe-se lá. Outro dia ingeri dez miligramas de um benzodiazepínico por conta de um pico hipertensivo e confesso: - permaneci meio grogue por um bom tempo. É possível que a jornalista tenha tido a necessidade do uso de um medicamento semelhante e, durante sua libação, tenha tido alucinações, visões, escotomas e delírios. Desejo imensamente estar inteiramente errado quanto às minhas lucubrações, mas a matéria da senhora Paula Lima não pode ficar sem um comentário indignado. A propósito, quem se der o trabalho de a ler verá também que todos os leitores que a comentaram registraram sua completa discordância com sua opinião
          Disse ela o seguinte, no caput de sua matéria: "Apesar dos problemas, Fortaleza ainda é uma cidade boa de viver, sim. Não vamos virar as costas para a terra que nos acolhe, dá sol, boas histórias, cultura!" Santo Deus, essa mulher deve estar louca, foi o que pensei ao ler esse período. Problemas? Fortaleza acumulou problemas, mas isso já faz tempo. Hoje não temos problemas em Fortaleza: - ela é o problema. Sim, cara Paula Lima. A cidade tornou-se, ela própria, um problema descomunal a todos os seus habitantes. Ela é um problema desde o momento em que se põe a cabeça para fora de casa até o momento em que se volta para casa. Com uma ressalva: - se o cidadão conseguir voltar ileso para casa. Tudo em Fortaleza nos agride. As ruas, as calçadas, os carros, as motocicletas, as fachadas dos prédios, os estacionamentos e a falta deles, os hospitais e a rede hospitalar, as delegacias de polícia, as cadeias, os fóruns, os preços, os serviços, a educação, as escolas, o transporte público, as obras intermináveis, a falta de memória, o descaso com a memória, o policiamento ostensivo, os postos de saúde, os sem-teto, os drogados do crack, os assaltantes, os assassinos, os menores intocáveis, os hedonistas, a segurança, a malha viária, tudo, repito, tudo em Fortaleza é ruim. 
          A jornalista exorta a todos a "não virar as costas para a terra que nos acolhe". Ora, senhora jornalista, não estamos a virar as costas para ela. Na verdade, foi ela, a cidade, quem virou as costas para nós, seu pobres habitantes. É ela, em seu despreparo, em sua pífia infra-estrutura em todas as áreas, em suas diárias agressões a nós, seus habitantes, quem nos dá na cara, quem nos vira as costas, quem nos expulsa, quem não nos quer. Diariamente. E não seja bisonha, cara senhora. A energia que a senhora sugere usarmos para propagar a paz e o amor na cidade, na esperança que "a violência e a carência de tudo o mais que há por aí" se vá assim, sem mais nem menos, não existe. Força do pensamento é coisa do tempo do Uri Gueller. Não queremos entortar garfos e facas. Estamos querendo mesmo é entortar os revólveres e as escopetas que nossos bandidos têm usado contra nós. Estamos, em nossos momentos de angústia, trancados em nossos lares, maquinando uma maneira de remover do poder essa tralha incompetente que ora o exerce em nossa cidade, estado e país, lamentando igualmente o poder que também conferimos à súcia passada à qual um dia demos crédito e que é co-responsável por seu estado lamentável.  Mas analisemos os motivos que, segundo a jornalista, são motivo de orgulho para nós, diariamente assaltados fortalezenses. 
          Temos o sol. Diz ela que o nosso sol é motivo de orgulho. Sou do tempo do "Honra ao Mérito", que orgulhava ao homenageado, seus familiares, seus amigos e admiradores. Por acaso fizemos o sol? Privatizamos o sol? O sol é obra do Criador, minha senhora. Nenhum mérito há em nós por ele fulgurar sobre esta cidade. Esqueça o sol, por conseguinte, de vosso rol de orgulhos. Da mesma forma nossa paisagem não é motivo de orgulho para nós.O mundo tem uma infinidade de lugares belíssimos, e até mais belos que o nosso. Ademais, vale aqui a mesma ausência de mérito.
          Nossa culinária nos deixa saudade quando ganhamos o mundo a viajar, e isso nos é motivo de orgulho, segundo a jornalista Paula Lima. De fato, adoro nossa culinária. Conta o Nelson Rodrigues que o Miguel Lins, seu amigo, dizia: - "o homem gosta do que comeu em criança". E pedia ao garçom, sem o menor pudor, que lhe trouxesse um ensopadinho de carne com abobrinha. Assim, os alemães quando se ausentam de seu país têm saudades de seu joelho de porco, os portugueses de seu bacalhau no azeite, os franceses de seu baguette tradition e os baianos de seu acarajé no azeite de dendê. Os franceses não chegam a se orgulhar de seu fabuloso pão. Ele simplesmente é parte de sua cultura alimentar. Eles se orgulham de 1789, do Louvre, da Torre, do metrô de Paris, etc. etc. etc. Nosso baião de dois não seria, por assim dizer, um motivo de orgulho para nós. Ele é, certamente, um motivo de saudade e de prazer.
          Fiquei sabendo, pela matéria, que o cinema cearense seria um motivo bastante próprio de orgulho para nós fortalezenses, e citaram-se três películas que vêm fazendo sucesso nas bilheterias. Delas vi somente "Cine Holiúde" e afirmo: - nada a declarar. E digo mais. Nem o Policarpo Quaresma, em todo o seu desmedido ufanismo, computaria alguma qualidade a tal obra. Prefiro mil vezes "Os Trapalhões". Nem todos eram cearenses, mas o humor é de muito melhor caráter, ainda que pastelão. Registre-se que uma obra como esta está fadada a ter sucesso em limitadíssimo espaço geográfico, tamanho seu regionalismo e ausência imanente de universalismo. Às outras duas deixo o benefício da dúvida e o malefício da suspeita.
          Ter músicos e escritores de renome não é apanágio do cearense nem do fortalezense. Novamente esse rebuliço se deve mais a nosso medíocre bairrismo do que propriamente a qualquer mérito. Em todos os lugares vicejam músicos e escritores de qualidade. O orgulho deve nascer da unicidade, da singularidade e do mérito. Nossos tarcísios e cainans; nossos alencares e montenegros têm méritos pessoais que não transformaram substancialmente, até agora, a nossa arte. Vejam, por exemplo, a preocupação do virtuosíssimo Nonato Luís em criar uma obra própria, pessoal e inovadora. Já o ouvi afirmar mais de uma vez: - o virtuosismo em si nenhum mérito tem; a obra que se cria, sua originalidade e autenticidade são os requisitos que lhe conferem o traço único, esse, sim, motivo de merecimento de honra e, por conseguinte, reconhecimento e orgulho por parte dos conterrâneos do artista e do resto do mundo.
          Segundo Paula Lima, somos um povo "bom de mesa", onde se travam amizades duradouras e regadas à boa boêmia. Isso seria um motivo de enorme orgulho para nós. Imagina se a França se orgulhasse dos boêmios de Montmartre sem que eles nada houvessem produzido em seus respectivos misteres. As mesas fortalezenses dão conta de nosso mais evidente caráter hedonista, isso sim. Faltam-nos os Cézanne, os Toulouse-Lautrec e os Renoir às mesas antes que tenhamos orgulho.
          O nosso Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) saltou, entre 1991 e 2010, de "muito baixo" para "médio". O índice, que leva em conta longevidade, educação e renda, saltou, em Fortaleza, de 0,546 para 0,754 nesses 19 anos, um aumento de 38%. O que esperavam? Que ainda estivéssemos à idade média? Somos, afinal, uma África? cujos países vivem em perenes guerras civis? Detalhe: - a continuar como estamos – mortalidade pela violência em crescendo e educação de péssima qualidade – quanto de renda será necessário para um IDH no mínimo estável? Além disso, a jornalista cita uma pesquisa, mas dela não dá detalhes nem em que fonte bebeu para chegar a esse dado, que aponta Fortaleza como a cidade com a segunda melhor média salarial do Brasil, perdendo apenas para Brasília: - R$ 2.473,00!! Até o momento discordei, por pura opinião, da senhora jovem jornalista, mas esse dado me obriga a dizer, numa expressão muito utilizada por aqui e que não seria também motivo nenhum de orgulho: - aí mente! E, continuando a usar expressões bem nossas, afirmo, sem medo de errar: - o salário médio por aqui não é esse! Nem a pau! Ele não chega a mil reais. Dessa forma, nada há para se orgulhar de nossa renda. Há, sim, que se envergonhar. O dinheiro não rola por aqui. Simplesmente não rola. Somos, na verdade, a terra do salário mínimo.
          O último dos nossos dez motivos de orgulho é o fato de sermos a capital do Nordeste onde o consumo abusivo de álcool é menor. Estou pensando em ir morar na linda Natal, onde, pelo visto, menos pessoas bebem muito. Que importância tem isso? Mais importante do que a comparação entre as capitais do Nordeste é se o percentual absoluto de bebedores fortalezenses é alta ou baixa. Além disso, será mesmo verdade? Se somos um povo dado a boêmia, como a própria jornalista afirmou, que boêmia é essa em que se não bebe? O fortalezense não vai ao bar beber chá e cafezinho, ao que me conste. O que parece é que por aqui se bebe tanto quanto se bebe no resto do Nordeste, um pouco mais, um pouco menos. 
          Dito tudo isso, resta torcer a que a jovem Paula Lima saia de seu estado de suspensão dos sentidos e ponha os pés ao chão. A Fortaleza com a qual ela sonha está cada vez mais para a quimera do que para a realidade. Infelizmente. E aproveito para alertar aos caros e poucos leitores: - não sou um pessimista. Sou um realista de carteirinha. A verdade é quase sempre muito dolorosa.