quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Botequim da saudade

          Noites há em que se não quer dormir. Ainda que vá avançada a hora, ainda que a prudência aconselhe o recolhimento, teima-se buscar boemia, boa música, gente bêbada. Sentar-se a uma mesa em botequim de categoria duvidosa é abrir uma janela para o infinito; é se aventurar na embriaguez alheia, como a observar sua nudez. A mesa serve apenas como escudo e bandeja, onde hão de repousar o copo e a bebida. Sendo o botequim de quinta categoria, melhor é que se removam todas as cadeiras de diante do anteparo, a fim de que pareça mesmo o que é agora: - um limite, uma linha de demarcação, uma redoma. Caso contrário, há sempre o risco da companhia indesejada. Não se quer dormir. Insiste-se em ver e ouvir.
​          Falar não é bom. Melhor é que se cale, e isso inclui a palavra escrita, posto que dela germinem pestilências inesperadas. A quietude de quem ouve vem bem ao mistério de si mesmo; fortalece a redoma que agora é mesa, e será ela própria a parede no seguir do dia. Nunca se peca por ouvir, embora o silêncio muita vez cometa o ignóbil pecado da omissão. Olha-se o que faz o violonista no braço de seu instrumento. Emenda seus acordes numa bela baixaria, a música triste a movimentar-se em sua longa melancolia. Seu espetáculo já paga o ingresso, já seria o suficiente. Mas não é. Ainda é pouco. Esperemos. Que virá?
          Eis que chega o professor de remoto tempo. Encontra ali, bem à frente, um ex-pupilo. As cabeças já são brancas. Aluno e professor se cumprimentam. Ouço-lhe o sobrenome. Não resta dúvida: - é o velho professor.
          O ex-aprendiz é mais antigo. De mim não se lembra, sou mais moço que o outro. Agora são boêmios, estão de pileque. Conversam conversa de bêbedo. Estão a lembrar os bons tempos como se o presente, futuro do mavioso passado, não devesse existir. Ouço e olho, enquanto o violonista avança e a platéia delira. 
          De passagem ao toalete, o professor me vê sem me reconhecer. O outro dissera há pouco, quando o apresentou a um terceiro interlocutor: -“O homem aqui era durão"! E emendava: -“O melhor professor de matemática da cidade"! Nem tanto, nem tanto. Havia muitos e excelentes professores. Não havia o melhor. Eram os melhores. É intrigante como os ouvidos se aguçam na libação alcoólica e nesses ambientes barulhentos. A droga seria, de fato, a razão? ou é o próprio silêncio da consciência absorta em observar que nos deixa assim?
          Sentou-se a uma mesa detrás. Não me podia ver, nem eu a ele. Havia uma coluna entre nós. Foi melhor que não me reconhecesse; não queria companhia à mesa. Não queria falar. Talvez me presumisse antipático. O pileque nos torna palhaços e, aos outros, figuras decorativas. Eu seria uma dessas caricaturas bizarras. Impressionaria por minha insensibilidade ao seu glorioso passado.
          Nem deu tempo responder. Ela tirou a cadeira sei lá de onde e sentou-se ao lado. Era uma gordota. As gordotas são as gordinhas bonitas de rosto, ou até bonitas por inteiro, já que sua rechonchudez não compromete em nada sua estética geral. Na língua coçava uma vontade enorme de pedir-lhe a que saísse. Ali, a partir de alta hora, as libações aproximam, as mesas parecem se mover, não mais há quem consiga delimitar seu pretendido espaço vital. É tolerar ou partir. Deixei-a estar, já que prestava mais atenção aos músicos do que em qualquer outra coisa.    
          Vejam quem chegou!... Conheço-o dos primeiros anos escolares. É o Fulano de Tal. Ele na linha, eu na baliza, me fez um gol entre as pernas, o primeiro "frango" que aceitei em minha vida futebolística. Em que ano foi isso? Sessenta e sete? Talvez 1968. Veio de lá e abraçou-me com força. Creio até que chegou a beijar-me. Como é enternecedor rever quem conosco anda na contemporaneidade da vida! 
          Amolecido o coração, quis que se sentasse à mesa, o que fez por pouco tempo. Mexia com as meninas que passavam; bulia com a namorada de um amigo que com ele andava; falava com a gordota... Não se aquietava. Foi cumprimentar o professor tão logo lhe anunciei a presença. Antes contou-me um pouco da vida: - uma penca de filhos, outras tantas ex-companheiras, bons negócios. Em suma, o trivial.
          A namorada do amigo, que era também gordota, tagarelava com a gordota intrometida que me invadira a mesa. Não demorou saíram ambas. Perceberam que de nosso mato não saía coelho. Não lhes oferecemos sequer uma bebida...
          Quem é naquela mesa à entrada? O Sicrano... como é mesmo seu sobrenome? Não lembro... Há quanto não o vejo? Faz muito tempo. Desde que saiu da caserna, onde servia como médico. Tão logo nossos olhares se cruzaram, veio de lá abraçar-me. Dessa vez sem beijo. Estava em companhia de uma caricatura, e depois de uma bonita coroa cuja voz altissonante me fez lembrar a Alcione. Depois se juntou a eles famoso cirurgião com sua mais recente aquisição. Trocamos afetos e palavras de satisfação mútua pelo reencontro. Estava no interior, acabara de regressar à capital. Não dava pra fazer boa medicina naquelas paragens onde quase nada funciona. De volta à coroa, lhe passava a mão no rosto bonito. E olhava em minha direção piscado o olho maroto.
          Eu conheço aquele ali... Acho que é marista. Não sei se mais antigo. Pediu a conta e ia saindo quando acenei pra ele. Veio até mim e confirmou: - era marista. Despediu-se e se foi. Convidei-o ao próximo encontro de ex-alunos. Para falar a verdade, convidei também o Fulano e o professor, numa de minhas idas ao toalete. Todos garantiram presença. 
          Eis que toma o violão outro violonista presente. Eu já o vira tocar alhures. Uma virtuose harmônica. A tiracolo a mulher, uma respeitável senhora em longo vestido verde, preparava-se para cantar. A tez era de uma alvura celeste, olhos e cabelos claros. Toda ela parecia um anjo, tamanha a suavidade de suas cores e de seu semblante. Não bebia. E de sua boca, ornada sob aquela maciez angelical, saiu, de Aldir Blanc e Cristóvão Bastos, “Resposta ao tempo”. A voz era firme e bem posta, e doce como toda a sua imagem. Alguém tomou o microfone ao final e agradeceu à doutora – era médica – a canja que acabara de dar.
          No céu, ao longe, já se via o clarear do dia que vinha se impondo aos poucos. Meu espaço já não era mais meu, a população de pileques era absoluta e nada mais me restou a não ser partir sem me despedir de alguém. Já ia quase à esquina quando o cumim me veio cobrar a conta.

Fernando Cavalcanti, 24.05.2010