terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

CRÔNICAS PROTERVAS

          Ia entrando no hospital quando o segurança gritou: 
          -"Alto"! 
          Parou e virou-se; qual o problema? O funcionário explicou que não era permitida a entrada de visitantes vestidos em trajes sumários. 
          -"Mas estou usando um bermudão"!...
          Não houve jeito. Seus argumentos não serviram. Quando quis saber as razões para a norma, sumariamente disseram-lhe: -"Não pode e pronto". Foi obrigado a ir em casa trocar-se. 
          Sua indignação foi tão grande que resolveu que só voltaria para visitar o amigo ao dia seguinte. Ficou em casa ruminando seu agastamento pela insensibilidade daquele povo.
          No outro dia, à hora da visita, voltou de calças compridas e em mangas de camisa.
          Nas enfermarias viu umas mulheres, acompanhantes de alguns pacientes, em trajes sumaríssimos. Eram shorts curtíssimos, blusas decotadas, mini-saias reveladoras, collants desnudantes...
          Resolveu: - não faria reclamação. Antes, achou mais negócio tirar proveito daquele festival de nudismo hospitalar. Normas são normas. "Quem sou eu pra desobedecer"?, pensou.
                                                                 ***
          Teria lá seus vinte e nove, trinta anos. Como de praxe, era mais uma vítima da violência grassante na decadente cidade. O hospital, construído há mais de meio século para servir às vítimas de acidentes, serve hoje às vítimas de toda sorte de crimes. 
          Assim, estão lá os criminosos. Seria ele um deles? Sabe-se lá!...
          O médico chegou-se à beira do leito. Perguntou sobre tudo, quis saber de tudo. Lá pelas tantas, o homem enfatizou: 
          -"Doutor, num tenho alergia a nada não, viu? O senhor pode passar um remedinho pra eu tomar, entendeu"? 
          O esculápio respondeu sem demora: 
          -"Tá certo. Não tem problema. Passo sim, viu"?
          Ele, para ter a mais absoluta certeza de que o médico entendera o recado, insistiu: 
          -"Pode ser qualquer remédio pra dor, doutor... Entendeu? Qualquer um, entendeu?... Entendeu"? 
          Só então ficou claro o vício do homem. 
                                                                 ***
          Enquanto lhe tirava o curativo, fazia-lhe inúmeras perguntas. Bebia? Respondeu convicto:
          -"Bebo nem uma gota, doutor"! Nunca experimentara álcool de espécie alguma.
          Exceção feita aos poucos que em nada se viciam, quem não bebe há de fumar. Quis saber:
          -"Então, o senhor deve fumar"...
          Explicou bem direitinho e em detalhes:
          -"Fumo não... Cigarro normal não fumo... Só fumo crack, doutor! Pra que mentir, né"? 
          Após uma breve pausa para gemer, no instante em que lhe puxou as gazes coladas ao leito da ferida, continuou:
          -"Eu disse foi na frente do policial quando cheguei!...Pra que mentir? eu fumo crack mesmo! Num é verdade? Num tem pra que mentir"...
          E baixando a voz como a resmungar de si para si:
          -"A verdade é que fumo crack... só crack"!...
          Os tiros haviam lhe varado a artéria da coxa, mas o socorro chegara a tempo. Ele em breve estaria pronto para umas boas tragadas. E, quem sabe, para mais tiros...