sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Joaquim, o delicado

       É sabido das pessoas mais sensíveis deste país, em particular as pessoas dessas paragens cearenses e, mais em particular ainda as das paragens fortalezenses, que nunca se odiou tanto quanto em nosso tempo.
          Os sociólogos de esquerda – “sociólogo de esquerda” é, nitidamente, uma dessas tautologias que chegam a ofender de tão redundantes que são – os sociólogos de esquerda estão a dizer que o ódio grassante é perfeitamente explicável. Ele seria obra de um abismo social entre os concidadãos. E mais. Ele, o abismo, seria o resultado de uma “histórica” dívida social. O que eles não explicam é como esse abismo ainda possa persistir após mais de onze anos de governo da “esquerda”.
          O fato é que muito se odeia. E pior: - quando se tenta entender tal ódio com tais explicações fajutas, cuja óbvia intenção é remover de sobre si uma pesada e retumbante culpa, ateia-se, sutilmente, fogo à lenha. Ou, melhor, joga-se mais lenha a uma já enorme fogueira ardente. Bem engenhosa artimanha, sem dúvida. Instalado o caos, exorta-se a intervenção do salvador da pátria. (Falo, falo, e não ultrapasso o fato inegável do reinado do ódio entre nós.)
          Já que o ódio é inegável, sua explicação é, no mínimo, duvidosa. Por exemplo. Outro dia deu no jornal que é bem possível que a causa de uma onda de violência recente na cidade de Fortaleza seja a guerra por territórios entre traficantes. Sabe-se também, através de investigações, que grande parte das mortes por assassinatos ocorre em decorrência da atividade de traficar e vender drogas. Por conseguinte, é possível concluir que os sociólogos de esquerda nada mais são do que isso: - sociólogos de esquerda. Coroados de todos os pleonasmos e redundâncias possíveis. O que está a faltar é o mais clássico e efetivo sistema de controle social: - o sistema jurídico. 
          Faz muitos anos, Nelson Rodrigues, considerado pelas esquerdas um “reaça”, escreveu numa de suas crônicas o seguinte. Esteve por aqui o conde de Keyserling. Instado a dizer, em sua opinião, qual palavra definiria completamente e definitivamente o brasileiro, o homem ficou pensativo. Foi à janela do hotel olhar o povo que ia e vinha nas ruas, e concluiu: -“Delicadeza”. Eis aí, em épocas passadas, como o estrangeiro via – e sentia – o brasileiro de toda raça, credo e família.
          Com o peso de tais evidências, pode parecer que morreu por aqui para nunca mais ressuscitar a delicadeza do compatriota. Uma abissal tristeza já se apoderava de mim ante esta pavorosa constatação. Diz um velho adágio que jamais se deve tirar de um homem sua esperança, posto que ela talvez e muita vez seja a única coisa que lhe restou. Ia-se esvaindo a minha quando resolvi reler velhas crônicas. Foi pura sorte. Com frequência esqueço-me de coisas que escrevi, de ideias que tive, de lucubrações de minha mente. Os pensamentos se retêm, mas o que se produz em consequência deles muitas vezes se vai da memória como a suave brisa que sopra do mar, levando consigo fragmentos mínimos da areia da praia.
          Então, eis que estive a reler, não sei por que cargas d'água, de minha lavra, “Joaquim, o françois” (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2014/02/joaquim-o-francois.html). E com que prazer o fiz!... Vale agora um résumé de seu conteúdo. Foi o seguinte.
          Compartilhei com amigos, por correio eletrônico, cantada por Edith Piaf a música cujo título julguei ser La vie en rose. Qual foi minha surpresa quando recebo de meu querido amigo Joaquim Lima, apreciador da cultura de França, uma suavíssima e delicada reprimenda. Disse: -"Caro Fernando, esta música não é La vie en rose, mas Hymne a l'amour. Forte abraço"!
          Ao dia seguinte, enlevado pelo romantismo da música franca, resolvi enviar aos amigos o belíssimo hino francês. Informei aos comparsas: -"Aos amados amigos, na voz de Edith Piaf, La Marseillaise"! Para meu mais deslavado espanto recebo, dali a poucos instantes, outra carinhosa ressalva de meu amigo Joaquim: -"Fernando, essa voz não é da Piaf, mas da Mireille Mathieu. Um abraço"!
          Vejam que durante os dois episódios expus todo o meu parentesco com a família dos asnos. Não sei quantos se riram de minha estultícia, mas, sejam quantos forem, estarão certíssimos. Lugar de ignorante é por detrás dos livros ou, no caso, a ouvir gravações da música universal. Forró e axé não adocicam a vida de ninguém; Caetano e Gil são dois idiotas; e quem está certo é o Lobão que, a propósito, é tido pelas esquerdas como outro reacionário de carteirinha. Seja como for, demonstrei meu mais completo desconhecimento da arte musical francesa e seus intérpretes. Mas... E o querido Joaquim Lima?
          Ora, o meu amigo é o tipo de sujeito que não levanta a voz nem pra gritar gol. É suave como uma pluma e seu sorriso é mais cristalino e cativante do que as águas de uma fonte paradisíaca. De tão macio que é, tornou-se, ao tempo de sua solteirice, conhecido arrebatador de corações femininos, aqui e alhures. Quero crer até que em seu vasto currículo conste uma ou outra donzela nascida naquela pátria que tanto admira, a França. Ao tempo do serviço militar obrigatório, já médico, foi designado a servir em guarnição do interior. Pouco tempo depois de sua chegada fez-lhe cair aos pés nada mais, nada menos do que o coração da filha de seu comandante. O resultado é a bela família que hoje tem com ela e o completo abandono de uma vida sentimental errante e repleta de conquistas fugazes. 
          Os episódios que relatei revelam um homem doce, humilde e manso. Em outras palavras: - um homem que ama. E a quem meu amigo ama? Resposta: - ama o ser humano. A brandura de meu amigo não pode ser traduzida, aqui, por singelas palavras. Somente quem o conhece pessoalmente será capaz de entender plenamente o que estou a dizer. Aos que não o conhecem, repito: - Joaquim ama e há de amar até a morte. É incapaz de uma rudeza, de uma altercação, de uma agressão verbal ou física a quem quer que seja. Observem que me corrigiu sem fazer uso de qualquer sestro onde pudesse omitir ou, melhor, expor uma farpa, uma pilhéria maldosa, um bullying virtual. 
          A lembrança deste episódio, que hoje classifico como cômico, deu-me nova esperança de que a delicadeza brasileira da qual falou o conde volte um dia a mostrar por aqui a cara. Para isso há que se remover do poder essa esquerda fuleiragem e seus sociólogos de fachada. Quanto a mim, tenho o Joaquim a me esbarrar com frequência. Sou "vítima" contumaz de sua plácida companhia e auditor prazeroso de sua melíflua voz. Sou eu quem lhe arranca gargalhadas mudas ao contar-lhe minhas histórias malucas.

http://m.youtube.com/watch?v=E2lp3AkVIMs