terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Joaquim, o françois

       Ah, como sofre o ignorante! Sim, o pobre diabo que ignora, que não conhece, que não sabe, que não atina, das duas uma: ou é muito triste, ou é muito feliz. Há, entre os filósofos mais recentes, um a dizer que só os loucos e os ignorantes são felizes. Os sabidos seriam uns sofredores de carteirinha. Um amigo que muito amo, e que não vejo há muito, lá das bandas das Minas Gerais, dizia que o ignorante não sabe nem mesmo quando está com fome. Dá, então, para se ter uma idéia de como é mesmo feliz o ignorante.
O diabo é que há, entre os ignaros, aqueles cuja tristeza é tão sombria que dá dó. E o deste tipo especial é triste justamente por se saber um troglodita. Melhor – o triste imbecil só se vê triste quando, ignorante da própria ignorância, é violentamente lançado ao encontro da verdade. Descobre assim, de forma chocante e inesperada, sua latejante imbecilidade. Eis que, nesse momento doloroso, enxerga em si mesmo as enormes orelhas pontiagudas e o rabo a espantar as moscas e mosquitos. É quando lhe sobrevém a abissal tristeza.
Sucedeu a mim o seguinte. Envio aos amigos uma música cantada por Edith Piaf cujo título seria “La vie en rose”. Eis que me escreve o meu querido Joaquim, renomado cirurgião plástico desta cidade, e versado na língua e cultura de França, dizendo precisamente o seguinte: -“Caro Fernando, a música em questão não é ‘La vie en rose’ e, sim, ‘Hymne a l’amour’. Forte abraço!” Teimoso como as mulas - de quem, aliás, já me vejo parente, como verão ao fim deste relato – fui investigar. Duvidar do Joaquim foi o grande equívoco àquela altura dos acontecimentos. Por outro lado, gosto de aprender. Mesmo um eqüino-relacionado como eu tem lá seus momentos de prazer ao aprender o mínimo. E assim a coisa se resolveu. De fato, a música era “Hymne a l’amour”. Nem me dei o trabalho de esclarecer aos demais destinatários o engodo. Eles certamente não quiseram me aborrecer e não me corrigiram. Ficou elas por elas.
Não satisfeito, e afoito como um pirralho a meter o dedo na tomada, enviei aos amigos o belíssimo hino de França, La Marseillaise, e intitulei a correspondência com o título “Edith Piaf e o hino francês”. Qual a minha surpresa quando recebo de meu querido Joaquim a seguinte observação: -“Fernando, essa voz não é da Piaf, mas da Mireille Mathieu. Um abraço!” Pensei cá com meus botões: vá entender assim de cultura francesa no raio que o parta!
Após essas duas intervenções magistrais, Joaquim colocou-me cá entre os asnos. Daqui só saio quando criar vergonha na cara, digo, nas fuças. Triste comigo mesmo por tamanha estupidez, fui cavar e desenterrar na estante um curso completo de francês que comprei há tempos. Possa ser que assim não mais passe tanto aperto diante do especialista. A parada há de ser dura, mas eu chego lá. Como diria o Antônio Rogério Magri, burro também é gente.

Fernando Cavalcanti, 17.08.2010